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Filósofos
a mancheias
O
Brasil não tem 143 filósofos. Nenhuma nação tem 143 filósofos.
Pode-se, mesmo, pensar que todas juntas não terão 143 filósofos.
Contudo, são tantos os que Jorge Jaime encontrou ao escrever a
“História da filosofia no Brasil” (4 vols. Petrópolis/S. Paulo:
Vozes/Faculdades Salesianas, 2001). São editoras católicas, sendo o
autor presidente da Academia Brasileira de Filosofia. Devemos, em conseqüência,
prestar atenção, tanto mais que se trata de um “puro beneditino, um
perfeito beneditino”, na avaliação de Antônio Carlos Villaça.
Como
chegou àquele número? Incluindo, entre outros, o marquês de Maricá,
esse moralista suburbano, cabeça pensante do Segundo Reinado, a quem
ficamos devendo os imortais princípios de sabedoria coligidos nas “Máximas,
pensamentos e reflexões”, reeditadas em 1958 pela Casa de Rui Barbosa,
que assim os juntou num estimulante exercício de contrários. Cabe
afirmar, sem ironia, que nenhum outro livro nos ajuda a melhor compreender
o Brasil e, em particular, o Brasil do século XIX. Eis, por exemplo, um
dos seus apotegmas, a ser inscrito no frontão dos nossos estabelecimentos
de ensino: “Não é menos funesto aos homens um superlativo engenho do
que às mulheres uma extraordinária beleza: a mediocridade em tudo é uma
garantia e penhor de segurança e tranqüilidade.”
Ninguém
poderia tê-lo dito melhor. No que se refere à literatura, ele ensinava
que “o desejo da glória literária é de todas as ambições a mais
inocente, sem ser todavia a menos laboriosa.” Ele sabia do que estava
falando. Poucos filósofos terão chegado a tão vertiginosas conclusões
sobre a vida pública: “As revoluções políticas, quando não
melhoram, deterioram necessariamente a sorte das nações.” Rui Barbosa
jamais pensou nisso, porque não era homem de pensar por tautologias e
banalidades: não foi, certamente, um filósofo, nem no próprio, nem no
figurado, como tantos outros que Jorge Jaime anexou ao seu elenco, mas,
pensador e doutrinário, esteve imerso na vida das idéias. O autor
apresenta-o como um espírito desorientado, vagando de sistema em sistema,
até chegar, afinal, ao porto seguro da fé católica (que, como Alceu
Amoroso Lima, denomina de “espiritualismo”): “O retorno ao
espiritualismo, que lhe devolvera a tranqüilidade em vão buscada nas
filosofias (...)” — estamos informados.
Resta
saber se a história dos pensadores que, de perto ou de longe,
interessaram-se pela filosofia, pode ser aceita como história da
filosofia, que epistemologicamente só pode ser a história dos sistemas
que se respondem uns aos outros num desenvolvimento orgânico. Muitos se
acreditam filósofos simplesmente por terem lido livros de filosofia ou se
especializarem na exegese dos que a criaram, assim como Fidelino
Figueiredo dizia que ler muitos livros de história não transforma ninguém
em historiador.
Há,
portanto, uma distinção a ser feita entre, por um lado, os estudiosos de
filosofia, praticantes do pensamento reflexo, e, por outro, os criadores
do corpo de idéias que realmente a constituem. A maior parte dos “filósofos”
arrolados por Jorge Jaime foram apenas leitores de filosofia ou mostraram
por esse ramo do conhecimento um interesse esporádico ou ocasional (é
difícil, por exemplo, encarar como filósofo o Sílvio Romero divulgador
de sistemas e doutrinas alheias, nem sempre com grande discernimento).
Muitos outros são “filósofos” por serem professores de filosofia
enquanto matéria didática, o que, diga-se de passagem, é tarefa
imprescindível e nada tem de supérfluo (pelo contrário).
Observava-se,
em livro recente, que “a maioria dos filósofos brasileiros tem o seu
autor estrangeiro que é trazido para o Brasil, eu diria até
abrasileirado, colocado dentro das condições do Brasil. O Paulo Arantes
tem o Hegel, o Gianotti teve o Marx, hoje tem o Wittgenstein, Marilena
Chauí tem o Espinosa, o Marcos Nobre tem o Adorno, e, vamos lá, o Carlos
Nelson Coutinho tem o Gramsci” (Marcos Nobre/José Márcio Rego.
“Conversas com filósofos brasileiros”. Ed. 34, 2000).
Jorge
Jaime não contém a indignação contra os que algum dia ousaram
contestar a existência de uma filosofia brasileira (o que é diferente de
“filosofia no Brasil”, anfibologia que comete para fins polêmicos):
“Mentiram-nos que o Brasil não possui filósofos, que a mente
brasileira não é própria para elucubrações metafísicas, que não se
acredita que, em breve, se venha a constituir, entre nós, um sistema
original filosófico. Tudo isto li e ouvi dizer em aulas, conferências,
congressos”. Ele não esconde a satisfação vingativa com que reuniu,
afinal, em quatro volumes e 1.931 páginas, os 143 filósofos brasileiros,
número impressionante que certamente pulveriza a mentira de Clóvis Beviláqua
quando declarou, justamente a propósito de Sílvio Romero, que os
brasileiros não tinham asas metafísicas.
Nem
mesmo, ao que parece, asas da lógica. A onomástica triunfalista, com que
o tratado se encerra, tinha sido desautorizada desde as páginas iniciais
do primeiro volume, onde procurou justificar as nossas carências:
“Nunca se explicará com suficiente exatidão o que determina a ausência
de um verdadeiro filósofo no Brasil. Podemos recorrer aos argumentos da
nossa juventude cultural, da nossa civilização incipiente, do
autodidatismo dos nossos estudos, da falta, até há pouco, de cursos
universitários e sistemáticos — mas são causas todas estas que uma
personalidade verdadeira poderia vencer e ultrapassar. O que Farias Brito
realizou, como debatedor de problemas e sistemas filosóficos, ele o teria
realizado, como filósofo, se a sua constituição intelectual lhe
houvesse reservado esse destino. Um filósofo, como um poeta, encontrará
sempre em si mesmo os recursos necessários para a sua expressão, a
despeito de quaisquer limitações locais ou temporais. A história da
filosofia apresenta mais de um exemplo neste sentido.”
Se...
Tudo esbarra, afinal de contas, nessa conjunção incontornável. O que
Jorge Jaime está dizendo é que Farias Brito teria sido um grande filósofo
se o tivesse sido... Tais especulações, além de gratuitas, confirmam os
que “mentiram” a respeito de nossa filosofia, sem acrescentar qualquer
parcela de convicção às reivindicações bem intencionadas de Jorge
Jaime.
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