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Soares Feitosa

 

O Círculo Hermenêutico Periférico

Capítulo VIII

As senhas só do corpo

 

Aqui no litoral nordeste, Brasil, há algumas praias belíssimas e, incrível, como exceção à regra geral, de freqüência nenhuma. Nem mesmo os grileiros ou os sem-terra – gente legitimamente doida por um naco terra – invadem-nas. Mundaréus de praias, tudo selvagem, belíssimas — mar e praia, puros, límpidos. Porém, quase ninguém por lá. Por quê? 

Um fazendeiro experiente, dos maiores do trecho, um dia, descrevia-lhe a excelência de umas terras na fronteira. 

Ele, sabedor das coisas, homem de mais de 30.000 bois, cortou o assunto, prático e rápido:

— Tem invasão? Morre muita gente por lá?

Respondi que não. Pelo contrário, um povo pacífico, morte nenhuma. A não ser de sarampo, as crianças; de desenteria, os velhos. Ele disse que tais terras, com certeza, não valiam nada.

Para assombro dos presentes, contou que de há muito desistira das análises prévias de solo, dos exames de fertilidade e das avaliações de mercado sobre as fazendas que desejasse comprar. Disse que a única análise a que se permitia ao comprar uma boa fazenda, e nunca se enganara, era o nível de matança.

— Matança? De bois, senhor?

— Não! De gente.

Pano rapidíssimo: ali mesmo acabara de concluir que terra boa, chã e farta seria unicamente aquela capaz de sustentar, por si mesma, não apenas as safras; o conflito também. Falavam, no meu tempo de ginásio, num Crescente Fértil, lá para os lados dos árabes e israelenses. Dizem, contudo, que só há desertos lá. Por que brigam tanto?

De modo que, se leio nos jornais "Mataram 2.000 no Bico do Papagaio", ou "Mataram 5.000 no Pontal do Parapenema" (por coincidência, o fazendeiro era de lá), dispenso-me de procurar as análises econômicas ou as boas referências ao solo daqueles lugares, que sei, pela "excelência" do conflito, que as terras respectivas devem ser ótimas.

E, por favor, pano mais rápido ainda: tremei, meu caro Hobbes, porque crueldade pura, estas são as senhas da terra úbere: ambição e morte!

Então, segundo aquele analista de matanças, aquelas praias, tão belas, se não eram cobiçadas nem invadidas, não poderiam ser belas. Contudo, são belas, sim. Extremamente belas! Acampei lá. 

Puro descortino de natureza! Sol, muito sol e a água doce dos riachinhos recortando a areia. Água salgada de um mar cheio de piscininhas à temperatura exata. E o vento. Coqueiros. Vento, muito vento.

Vento é coisa boa, claro que é, em especial nestes sóis-quentes. Mas há vento e ventania. Lá, o vento é mais que ventania, é quase tempestade. 

Abrindo a manhã, aquele frescor. Contudo, em pouco tempo, aqueles minúsculos grãos de terra que, nas outras praias, ficam ali quietinhos, no chão molhado, lá estão em constante reboliço. Bólides, como se fossem, mínimos caroços de chumbo a nos vergastar a cara, os olhos, as orelhas, a boca, os óculos, a filmadora, os braços, as pernas, as costas. 

Mesmo assim, a beleza do lugar prevalece. Dunas: um horizonte de dunas e coqueiros, muitas, muitos. Ninguém, a rigor, reclama nada. Nem do vento.

Dia seguinte, quem disse que desce alguém à praia! Bate, inconsciente e não verbalizada, uma vontade de ficar amoitado pelos alpendres, senão dentro de casa ou dentro das barracas, tomando um aperitivo e olhando o sol e o mar, lá de longe. A ocupar as mãos, logo se faz um jogo de cartas, pa-litinhos ou gamão. E, contraditória à estonteante beleza do lugar, uma vontade de "agora, não". 

No fim da tarde, tudo amainado, chega, de surpresa, uma vontade de "agora, sim": andar na praia. Anda-se na praia, de tarde. Tudo mais calmo, uma sensação de completude da beleza, uma beleza justa, exata, como se fosse uma peça mecânica de engaste perfeito, nem a mais, nem a menos. 

No outro dia, a mesma preguiça, a mesma "desvontade" durante toda a manhã. No final do dia, mais uma andada de crepúsculo. Finalmente, o retorno, para, sem maior explicação, recusar o amável convite de voltar lá, ainda que tudo tão belo.Só recentemente consegui verbalizar o mistério: as senhas do corpo. 

Tudo por conta daquela combinação terrível de muito sol, água salgada e a "surra" do vento-areal. Os sanduíches cheios de areia; as felpas da toalha, pura areia. A borda do copo e dentro dos copos, só areia. Até as fotos reveladas trazem areia: uma paisagem filtrada, um efeito belíssimo, de fina nuvem, areia e sal. E, como se uma senha enviada pela pele — lixada, lixi-viada — a mensagem de-não! Pode alguém já estar dizendo que essas reações do corpo são tipicamente pavlovianas. Talvez sejam. Quero comprovar apenas que o corpo físico tem uma linguagem que se manifesta, no plano comportamental, sem passar por nenhum processamento racional. 

Ninguém ali reclamou, conscientemente da ventania, nem da areia. Entanto, veio de lá da pele, como se a pela um órgão legitimamente emissor de uma mensagem ao Homem: faça assim, faça assado! 

Se ele, o Homem, fez tal qual o corpo determinou, é outra história. Antônio Francisco de Lisboa, dito Aleijadinho, com as mãos encarquilhadas pela doença, desobedeceu e esculpiu.

Seria por aí a morada do heroísmo? Certamente que é! Como desobedecer ao corpo? Conto-lhes, das brenhas, mais uma histo-rinha.Lá no sertão, bem ermo, ainda assim, dizemos que cadela alguma ficará sem parir à falta de cachorro-macho. Haja um, seja a que distância for, uma légua ou mais, basta a fêmea entrar no cio, chove cachorro ao pátio. Teriam eles um e-m@il? Fax? Código Morse? 

Devem ter, parece! Ninguém sabe se o primeiro cão a receber as senhas da fêmea, ele mesmo emite outras senhas que são recebidas pelos demais cães do trecho, e, juntos, em grande algazarra, comparecem todos ao terreiro à genuína cachorrada. [Precisamente é assim mesmo que se chama a farra deles, belíssima farra, diga-se de passagem: cachorrada]. Ou, se os sinais da fêmea, de tão fortes, por uma via de comunicação ainda fora do entendimento humano, alcançariam todos os machos de uma redondeza muito maior. E, como se os cães fossem os galos-manhã, desta homenagem a uma legítima WWW de cães e galos. deste fragmento de João Cabral:

 

Um galo sozinho não tece uma manhã:   

ele precisará sempre de outros galos.   

 

De um que apanhe esse grito que ele   

e o lance a outro; de um outro galo   

que apanhe o grito de um galo antes   

e o lance a outro; e de outros galos   

que com muitos outros galos se cruzem   

os fios de sol de seus gritos de galo,   

para que a manhã, desde uma teia tênue,   

se vá tecendo, entre todos os galos.

 

[Fragmento de Tecendo a manhã

de João Cabral de Melo Neto].

        

Cruel, agora uma reflexão: não seria valioso haver um agravante às penas de estupro quando ausentes as mensagens do corpo? 

Explico: longe de legitimar o estupro, todas as fêmeas da natureza emitem sinais à fecundação. Todos os machos da natureza — e não seria razoável nenhuma exceção nem ao homem nem à mulher — interpretam essas mensagens. Por favor, nem pensar em descriminar, nem lhe atenuar as penas, ao crime hediondo, o estupro! Contudo, é evidente que, dentro deste brutal contexto de senhas, o estupro é muito mais grave quando cometido contra a grávida ou contra a não-fértil, exatamente porque elas não emitem mensagem alguma. Por que o estupro da mulher não-fértil não tem, como deveria ter, um tratamento mais rigoroso?

Afinal, o que é o corpo? Afinal, o que é o homem? Afinal, o que a vida? Afinal, o que é a morte? [Existiria o homem só-corpo? Existiria o homem só-espírito? Quem manda em quem? De que tanto mandaria o corpo no espírito? De que tanto mandaria o espírito no corpo? Onde mora a Sabedoria — o equilíbrio? De que tanto a quem, de quem?].

Ah, ia esquecendo: as terras que descrevia como ótimas ao avaliador de chacinas eram, em verdade, péssimas. Jamais morreu alguém em nome delas. E, por falar em terra, lembram do domador de cavalos, um certo Heitor, da historinha do cego? Pois bem, conta-nos o cego que a guerra se dera por conta de uma outra terra, a mais bela dentre as mais belas, uma mulher, Helena. Porque, afinal, a terra é fêmea.

 


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