|
Soares Feitosa
O Círculo Hermenêutico Periférico
Capítulo VI
Da entrega das senhas
Seria
verdade que estamos todos metidos em grande confusão, parece, num mundo
de senhas estranhíssimas, quase sempre impossível de decifrá-las? E
pior, quando não as deciframos corretamente — Pei! — um tiro bem na
caixa dos peitos, seja do salteador, do melhor amigo ou da polícia, pela
frente ou pelas costas que a diferença é quase nenhuma!?
Seria
assim mesmo, este mundo tão louco, e nele coisa alguma interpretada, nem
julgada (nem aprendida), que não seja num plano absolutamente
"irracional"? Para usar a linguagem forense — tudo, tudo e
todos, girando inteiramente fora dos autos?
Então,
se os fatos são interpretados e julgados fora dos autos (dos eixos
também?), para que, afinal, servem os autos? E a aprendizagem, ela
também, se dá "fora dos autos"? Sob senhas?
E,
se verdade for que vivemos sob a tirania das senhas, quando e a quem as
entregaram? Ao feto, ao DNA, à criança, ao adulto? Existiriam, pois,
senhas oriundas só de nossa banda animal? Melhores, piores? Outras, só
de nossa banda humana, adquiridas? Boas ou más? Perdemo-las, quantas?
Como dar um balanço de todas as senhas? Quantas perderam vigência,
desatualizadas, vencidas, inúteis? Como
depurá-las? Apurá-las!?
Ou,
diferente, tudo no seu devido lugar, estritamente dentro dos autos — a
coisa certa no lugar certo, como gostava de dizer o marido nº 2, o
farmacêutico Teodoro, de Dona Flor (Jorge Amado) e
seus dois maridos?
Deixemos
as perguntas no ar e já lhes conto, aparentemente no tema, uma historinha
que são duas. A primeira, de um colega de trabalho, pessoa
inteligentíssima, Francisco Ferreira dos Santos, o Ferreira. Dos mais
competentes, aprovado com distinção e brilho em todos os treinamentos e
concursos, Ferreira sempre galgou todos os postos.
Grande
contador de histórias, grandes e pequenas; um "causeiro" de
marca maior. Quer o leitor a notícia de uma coisa agradável de boa
manhã? Palestrar, numa rodada de carnes e álcoois, com o Ferreira —
grande churrasqueiro e anfitrião.
Pois
bem, o Ferreira, dizíamos que ele, quando menino, bebera água de
chocalho. Da mesma forma que lá estavam, no sertão, os chocalhos a
badalar por mínima brisa, estava também o Ferreira a meter o pitaco em
todos os assuntos, dele e dos amigos, sempre a defendê-los, coisa o que,
em não raras oportunidades, criava alguns embaraços ao
"defendido", mas isto é uma história assaz importante, para
mais a frente, prometo-lhes. Em suma, ah "bichim" "conversadorzim",
aquele bom amigo, o Ferreira! [E que Deus lhe empreste muitos e muitos
anos de boa platéia].
Pois
um dia mudaram a chefia. Ele, Ferreira, dos mais produtivos, verdadeira
máquina de trabalhar dia e noite, sempre cumpria, com sobras, as quotas
de vendas. Era dos primeiros a serem promovidos, mas daquela vez, a nova
chefia, à frente uma mulher, disse que ele não seria promovido.
Ela,
muito mais preocupada com o "justo" do que com o
"racional" (no que vejo, só agora o vejo, qualidades, mas isto
é outra história a ficar devendo), resolvera que a promoção por
merecimento alcançaria, ali, nas mãos dela, exatamente aqueles que nunca
haviam sido promovidos, aqueles que, pelo menos em teoria, seriam os menos
eficientes ou "quase-preguiçosos".
Claro
que o mundo veio abaixo! Abaixo, em primeiro, veio o mundo por conta da
algazarra que os "preguiçosos" — grandes amigos meus no
trecho, mas isto também é outra história — fizeram com a notícia.
—
Ufa! Até que enfim, vamos ser promovidos por quem sabe fazer a verdadeira
justiça! Viva a chefe! — repetiam, de alegres, em justa algazarra pelos
corredores.
Abaixo,
em segundo, veio o mundo por conta dos "despromovidos", entre os
quais, o mis bravo de todos, o Ferreira. Ele pegava os mapas de vendas e
nos demonstrava por a+b que o primeiro lugar na lista de merecimento
deveria ser dele. Aliás, desculpem, tenho que contar que, imediato,
enrubescido e sério, corrigia-se e, gentilmente, dizia que o lugar
deveria ser do "mestre" Feitosa". Fazia questão de me dar
esse título. Retribuía-lhe, sincero, um "professor" ao
"mestre" com que me brindava, mas mestrados nem mestrandos,
muito menos professorados e professorandos não tínhamos nenhum. Apenas
vendedores de ações de um clube de baralho, num tempo distante, lá em
Teresina, Piauí.
Desconfio,
de boa-fé, que ele só fazia a corrigenda quando eu estava por perto.
Claro que eu dizia, com alguma sinceridade:
—
O primeiro lugar é seu, professor Ferreira! Mas devo ter, confesso,
gaguejado um monte de vezes a caminho de outro nome... o meu
próprio.
—
Uma injustiça! — dizíamos, não tão alto, num modo que ela não
ouvisse, de nossa sala, a dos vendedores, em direção imaginária à
cadeira da chefe, na sala do lado, a mulher.
—
Bote outra, mestre Feitosa! — dizia o Ferreira e, rápido emborcávamos
nossas canecas à boa cerveja. Então, o Ferreira, grave, vermelho e
sério, afirmava que iria interpelar a chefe, a mulher. Eu dizia:
—
Não! Não vá! Não vale a pena! Demonstrava-lhe que,
financeiramente, a perda não lhe representava mais do que o valor de uma
grade daquelas cervejas que estávamos bebendo ou dos tira-gostos daquela
mesa de sal que nos servia.
Dizia-lhe
também, a caminho da lógica, que, no próximo semestre, ele haveria de
ser promovido por antiguidade. Essa era a regra: quem não fosse promovido
na lista de merecimento, sê-lo-ia na lista de antiguidade, poucos meses
depois. Ele, finalmente, acedia. Jurava pela falecida mãe, sempre
beijando os dedos em cruz e se benzendo, que o caso estava encerrado.
Então, deu-se a tragédia.
Era
um casamento. Colegas da equipe de vendas: o noivo, meu compadre Marins,
um príncipe; ela, doçura de pessoa, Silvânia. Cheguei entre os
primeiros, até ajudei na localização e transporte das cadeiras que eram
poucas.
Era
uma sala discreta, bem despojada, no fórum, à cerimônia só civil.
Tínhamos, em respeito às salas vizinhas, os juízes em suas audiências,
que nos mantermos num nível de quase silêncio, só cochichos e riso
contido. Mesmo assim, a mesa de bolos e parabéns; os refrigerantes e um
vinho leve. Chegou, com algum atraso, a chefe, a Mulher.
Percebi
em Ferreira a agitação. Decifrada a senha, disse-lhe, em gestos, que
mantivesse o controle. Ele disse que sim. Até mostrou a mão direita e,
no anular um terço, desses de rodar cinco vezes à conta dos cinco
mistérios; continhas de metal nas bordas, como se fosse um coroa, dez,
às ave-marias e, minúscula, uma cruz a indicar a salve-rainha. Não
garanto que Ferreira rezasse. Ou, perversidade minha, aquilo já fosse,
adrede, uma manopla, um soco-inglês.
Ela,
alegre, gentil; a sedução em palavra e gesto; líder. Abraços que não
lhe chegavam para tantos braços, a mim e a ele também. Um novo tremor, a
palidez absoluta, e, quando me dei conta, já lhe saltara da boca, lá
nele, viajando lá longe, impossível de recolher de volta, para todo o
tribunal ouvir, acho que até os pregoeiros de chicletes e os arautos da
loteria dos bichos, nas calçadas do fórum ouviram:
—Você
é uma covarde!
O
noivo, de tão assustado, se tinha algo ali armado ou armando para mais
tarde, presumo tenha desarmado, pelo menos àquele dia. A chefe disse,
calma, como se nada diferente tivesse escutado, porém séria e sóbria:
—
Pois veja, meu colega, é a primeira acusação de covardia que recebo na
vida, justamente a "qualidade" que jamais imaginei ter.
Enfiei-me
bem entre os dois, embora não me tenha, fisicamente, movido do lugar. Com
novas senhas, só corporais, empurrei o Ferreira de lado. [Forcei, a muito
custo, outro assunto que, irredutível, se entalava em muitas espinhas de
um peixe que ninguém comera. Serviram, sim, os salgadinhos de praxe;
não, peixe, não].
Com
outras senhas igualmente corporais, consegui fazer a chefe intuir o
patológico. Em suma, entre mortos e feridos, o bolo da noiva, que alguns
comeram, outros não, o bolo, evidentemente. O noivo comeu, sim.
Nem
preciso lhes contar da tragédia administrativa — porque a tragédia
"passional", vamos chamá-la assim, ali, naquela hora grave,
minutos, microssegundos, contornara-a sob senhas quase-surdas. Se era para
ter havido mortes? Quem é que sabe? No mínimo, a prisão do Ferreira,
que os tempos à época eram sombrios, plena e brutal a Revolução de
1964. Da outra tragédia, no day-after, lá na empresa, as
seqüelas ficaram, pelos tempos: a não-amizade.
Afinal,
passados todos esses muitos anos, que lição podemos tirar, no campo
hermenêutico, de episódio tão comum e banal, de um subordinado a
desacatar a chefe?
Cabe
ponderar que Ferreira era (tido como) pessoa normal, de finíssimo trato,
a gentil e prestimoso. Como teria sido capaz de uma desfeita daquele
tamanho, logo contra a chefe, pessoa até bem pouco da maior estima dele?
Logo contra uma mulher, numa solenidade de colegas, no recinto de um
tribunal, em franco desrespeito a tudo e a todos?! Enlouquecera o
Ferreira?
Agora
a prometida, não sei se bem aceita, segunda historinha, para, no final,
num bolo só, surgirem umas conclusões meio esquisitas: os posicionais.
Posicionais de quê, meu Deus?
Os
posicionais, sim, porque a qualquer posicionamento, o Homem há de se
apoiar prévio em algo, como se fosse num canto de paredes firme, num
moirão de aroeira, coisa assim, rija, inabalável, indiscutível. Se boa,
se má, a coisa em que se apóia, é mais um tema que há de ficar, por
enquanto, em dívida.
Abstraiamos
os "valores". Um posicional, aquele moirão de aço em que se
amarrara o Ferreira, da historinha anterior, ele, gentil, educado, fino,
distinto. Não obstante, quase chegando às vias de fato, um destempero,
sabe-se lá o que, à cara da chefe, mulher, uma loucura, já vimos.
Se
ele era um louco? Nem um pouco! Apenas movera-se, naquele caso e
certamente noutros mais, sob um "valor diferente", isto é, de
nenhum valor, ou de todo o valor, o VALOR DELE, lá nele, o posicional
dele, só dele, absoluto e imperativo, coisa bem diversa, que muito
dificulta qualquer tentativa de compará-lo (interpretá-lo e julgá-lo)
sob o(s) nosso(s) posicionais.
Uma
pausa, por favor. Quantos são os posicionais? Sabemos o quê, deles? A
gênese — como e por onde surgiram? Desculpe-me o leitor paciente, mas
vou entremear esta história com outra historinha, igualmente verdadeira.
Aliás, esqueci de avisar: aqui só conto histórias verdadeiras.
Era
uma vez um velhote, médico, o Doutor Genaro, dermatologista famoso no
trecho, altura normal de nordestino, baixo, entroncado, mas nada
atlético, presa preferencial para qualquer assaltante de rua, de
trombadinha a trombadão. Pacífico, sempre andou desarmado — e
contou-nos, a mim e ao Ferreira — que se programava permanentemente para
não reagir. Doutor Genaro, o pacífico.
Contou-nos
que um vizinho, também médico, cardiologista, bem mais jovem, atlético,
nadador cheio de medalhas e lutador de artes marciais, um dia,
comentara-lhe que estava preparado para reagir a qualquer agressão.
Armara-se. Uma pistola no mocotó, outra no sovaco, em aparatos de fino
acabamento em couro assovelado pelo melhor armeiro, mestre Fulgêncio, lá
de Cachoeirinha; uma terceira arma, automática, 9mm, de 12 tiros, mais um
na agulha, engatilhada, disfarçada num embrulho de chocolates, em cima do
banco do passageiro, no carro. Em suma, Doutor Nathan, o arsenal, armas e
valentia.
Pois
um dia, ali num estacionamento da Rua da Concórdia, doutor Nathan
preparava-se para abrir a porta do automóvel, quando um amigo, presepeiro,
foi-lhe tirar uma prosa. Pelas costas, espetou-lhe o dedo no espinhaço e,
voz adequada (existiria, caro leitor, uma "voz adequada" para
tão esquisita missão?), anunciou o assalto. Claro que foi uma
imprudência! Bem que Nathan, treinadíssimo em tiros, engastes,
pontarias, caratês e rapidez, num segundo, poderia ter mandado o
irresponsável desta para a melhor. Quem disse!
Um
pânico súbito, sabe-se lá o quê! Nathan mumificou. Paralisado,
travado, empacado. Agora aquele homem, tão bem treinado para reagir e
matar, estava ali à míngua e à mercê! Os sais, os calmantes, um pouco
de vento, abanaram-no, sopraram-no — até que enfim, falou.
Disse,
sob voz vacilada, que um colega, o Doutor Genaro, o advertira. Elogiou o
amigo e, ali mesmo, ainda no quente, jurou que estava a desistir da
carreira de "valiente".
No
mesmo dia, nessas coincidências estranhíssimas, Doutor Genaro, o frouxo,
o prudente, o desarmado, ia chegando em casa, no bairro do Jóquei ou era
em Casa Forte. Lá, o ladrão, dentro da moita de gerânios e pitangas,
cortada rente, na altura adequada de esconder e espreitar.
Genaro,
baixinho, atarracado, cabeça baixa, o pensamento lá longe, descendo do
carro, um monte livros (catedrático) debaixo do braço, quando, senão
quando, a espetada bem nas costas, fria e rija, a boca do cano e, por
trás, a voz dura a abafada:
—
Num se bula! Um assalto! É um assalto! Mãos pra cima! Num se vire! É um
assal...
Quem
disse que o cabra terminou a ladainha!? Doutor Genaro, o frouxo, o
pacífico, deu um salto bem acolá, girou os graus que havia de girar, e
frente a frente com o ladrão, plantou-lhe os livros bem na cara,
desferiu-lhe um chute nas canelas (mas a direção seria outra, pelo menos
foi assim que ele contou), concluiu tudo com um empurrão e um "Vá
roubar a mãe, safado!", mas o ladrão era novo e forte e largou
chumbo nos peitos do doutor.
Um
bode novo, um bodete, em bom inverno de pastos, lá no sertão dos
Inhamuns, teria sido mais lerdo: Genaro, na "juventude" de seus
sessenta e tantos, saltou feito um raio de dentro do colete azul, jogou-se
lá longe de uma camisa creme; a gravata borboleta nem vimo-la quando
tirou, e, peito desnudo, espetava os furos com o dedo, lá nele, de
quantas balas o ladrão lhas enfiara.
Ele,
Genaro, ali, vivinho da silva, ufa!, graças a Deus!O ladrão? Quem é que
sabe de ladrão!? Fugira, de assombro!
Então,
calmamente, recompondo as vestes, o ancião nos dizia que o Homem é um
bicho que quase nada sabemos dele.
Naquele
dia, um dia longínquo, dei-me conta dos posicionais, a força absoluta,
anterior aos posicionamentos. Seriam uma figura muito anterior ao Pai,
algo como um supremo pai fundador, um papão-bicho, um sênior-arquétipo.
Assim provaram-nos os médicos Genaro, o frouxo-valente, e Nathan, o
valente-frouxo. [Livre arbítrio? Voltaremos ao assunto].
Seriam
o tais "posicionais" a fonte do "heroísmo absoluto",
daquelas ações decididamente impossíveis e mais impossíveis ainda
porque partidas de quem jamais se supunha que pudessem partir? A
resistência de Churchill (um alcoólatra), contra tudo e contra todos, à
máquina de Hitler, às propostas (de irrecusável vantagem naquele
contexto) da paz em separado para os ingleses? Donde, desculpem a
divagação, o posicional pode (e deve!) ser bom. Também pode ser mau,
muito mau, como o fora quando da reação selvagem de Ferreira, o
distinto, contra a chefe, mulher.
Façamos
um pausa e já lhes conto a outra historinha, a da professora.
Quer participar?
Escreva-nos
soaresfeitosa@uol.com.br
Próximo capítulo (VII)
O posicional da professora
Capítulo anterior (V)
Das soleiras e das portas
[Índice geral]
|