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Soares Feitosa

 

O Círculo Hermenêutico Periférico

Capítulo V

Das soleiras e das portas

 

Seja dado o seguinte problema: Qual o tamanho de uma porta? A porta do seu gabinete, caro leitor, de sua sala, de seu quarto — que altura deve ter?

Contam os almanaques de antigamente que, um dia, o grande sábio Isaac Newton, amante de gatos, se disse cansado com os miaus da gata e seus gatinhos "pedindo" para entrar; ele, gentil, a lhes abrir a porta; pouco depois, a gatarada miando para sair; logo em seguida, aborrecendo para entrar outra vez; miando, por fim, mais alto para escapulir. Então, o sábio pediu ao pedreiro que fizesse dois buracos na parede do escritório, de modo que os gatos entrassem e saíssem quando bem quisessem.

O pedreiro — não há informações que fosse sertanejo e cearense, talvez fosse — deu um quinau no sábio, explicando que pelo buraco grande tanto passariam a gata velha como os gatos novos.

— Um buraco só, "seu" Newton, é suficiente! — teria dito. Mediu a altura da gata, protegendo-lhe o rabo, alto e fagueiro: uns dois palmos; mediu-lhe também a barriga, crescida a uma nova ninhada: um quase palmo. E, rápido, cavou. E então, a gata, os gatos miúdos, o sábio e o pedreiro [o gato da rua incluso, pai de todos os gatos] foram felizes para sempre.

Por igual, na casa do Homem a medida da porta deve ser tal que por ela passe o homem, a mulher, as crianças e os animais da casa. A presumir que não se criem, domésticos, elefantes, orcas, cachalotes e rinocerontes, as portas da domus deverão ter, digamos, altura suficiente para que lhe transponha o homem sem se despentear. Transponham-na a mulher, ainda que de salto alto e chapéu, sem outras aflições que não sejam à sedução e elegância. 

É padrão no Brasil atual que as portas tenham entre 2,05m a 2,10m. Contudo, neste Nordeste, terra de homens miúdos no tamanho e grandalhões na coragem, a arqueologia nos conta que as portas tinham, no máximo, 1,80m. Estão maiores, sim, agora. É que, registram as estatísticas, o Homem está em "crescimento", crescimento físico, pelo menos; do outro crescimento — a maioria nega-o — cuidaremos mais adiante. Os recordes esportivos estão batidos um atrás do outro. [Um brinde às pernas altas das jogadoras de vôlei]. Os adolescentes, pelo menos por fora, estão maiores que os pais. [Por dentro, talvez; mas isto é outra história].

Até um dia destes, a altura do brasileiro de sexo masculino andava pelo 1,70m; hoje é mais. O pé calçava 39/40; hoje, os sapatos masculinos são 40/42. A fome, uma infância difícil, de muitas doenças-de-pobre — verminose, subnutrição, desidratação, bichos-de-pé e outras endemias menores —, ficávamos, nordestinos, mirrados, encruados, pequenos. Razoável, pois, as portas fossem baixinhas como os donos.

A arqueologia dos sítios futuros — uma feliz expressão do poeta Ruy Vasconcelos — indicará que as portas da casa de morar já foram menores que 1,80m. Basta conferir às ruínas: choupanas, palafitas, casebres e camarinhas de antanho. Hoje estão em torno de 2,10m, mas, por certo, hão de ser mais altas. Em suma, as portas são a medida do dono. [Porque grande, grandiosa, imensa, já foi a "nossa casa" — que aqui dizemos "lá em casa" — lá, quando fôramos pequenos, um dia].

Assim, se o Homem cresce de alto e largo, o que há de lhe dizer o intérprete? Dirá que se lhe reduzam os gramas do pacote de biscoitos, os metros do papel higiênico, o conteúdo das sardinhas da lata? Dizem que o Príncipe está com algumas dificuldades para "enquadrar" fabricantes que reduziram os conteúdos sem lhes reduzir os preços. 

Tragédia: Brasil, agosto de 2001, sob a notícia de que o papel higiênico, que era de 40m, foi reduzido para apenas 30m; bem como alguns biscoitos que se mudaram de 200g para 180g. [E um profundo mal-estar em todas as esquinas]. E mais muitos outros reduzidos: cerveja, leite em pó, caldo de galinha, sabonete, etc. [É bom conferir, conferir todos, sempre; quebraram-nos a confiança].

Dizem que o problema é que a partir da Constituição de 1988, adotamos — isto mesmo, adotamos, no plural, afinal votamos neles — a globalização que, se boa ou má, é outra história. Acabaram, em nome do livre mercado, o tabelamento e a intervenção. 

Extintas Sunab e CIP, Sua Majestade, o Mercado, ao amparo da não-intervenção no domínio econômico, ditará as regras. Só os melhores sobreviverão – dizem.

O que fizeram então alguns fabricantes de papel higiênico? Reduziram o tamanho do papel. Nem menciono o fato de não terem, ao mesmo tempo que reduziam o conteúdo, reduzido o preço. Veremos que a coisa, ainda que o preço tivesse sido reduzido, encerra um problema hermenêutico da maior profundidade. 

Dizem os fabricantes que, do ponto de vista da lei, não há problemas. Justamente porque não teriam violado lei alguma. De que lei falam? Da lei posta, daquela que dava sustentação às tabelas e desabastecimentos? Então, teria sido justa, razoável e salutar a redução do papel higiênico, dos biscoitos e das sardinhas? Ainda que fosse para baixar os preços, que não foi?!

Não, não poderiam reduzir, demonstrar-se-á. Praticaram um ato feio, antiestético. Porque se o Homem cresce em volume, a proporção (estética) exige que suas coisas também lhe cresçam e acresçam. Da feiúra do ato, a agressão à ética, portanto.

Se o procedimento destinou-se, como dizem a imprensa e o Governo, a camuflar um aumento, por certo, no próximo aumento — e aqui dizemos que quem faz um "cesto" faz cem —, reduzirão o papel para 20,0m. Uns três ou quatro aumentos seguidos, o rolo de higiênico estará reduzido a quê? A um dedal? De dedo inteiro? Ao mindinho? Ao da mão esquerda, que, regra geral é mais magrinho?

Retornemos ao Homem: Aqui, Nordeste, até bem pouco, as casas não tinham banheiro. No máximo, uma "casinha" lá no fim do quintal, com um suporte para os pés, uma telha estratégica embaixo, correndo de bica em direção ao coprófago [um porco, isto mesmo, um suíno], do lado de fora, igualmente estratégico. 

Só os mais ricos faziam um bojo, eliminando o porco, coitado. Era a sentina, uma fedentina terrível. A fossa, do modelo da OMS (Organização Mundial de Saúde), é coisa bem mais moderna. Nem é necessário mencionar que adoecíamos todos. O porco e o dono do porco: ao xistosoma e sob variegada fauna intestinal. Por isto mesmo, duplamente miúdos, na idéia e no tamanho. Ah, o porco, comendo o que comia, também era ralo. A carne — ai do que incauto que se atravesse a lhe comer a carne! — como se não fossem suficientes os perigos sanitários, fedia por todas as cloacas do mundo. Em suma, tudo muito antiestético, demasiado feio.

Todavia, aquilo era tão "normal" e tão "lógico", que dizíamos do imprevidente: "Veio do mato cagar em casa!". Porque "obrar" no mato, sob boa moita, o "paciente", desde que dominando perfeitamente flora e fauna, de modo a evitar às pudendas as folhas espinhentas e as urtigas, bem como as cobras, as peçonhas e as lagartas-de-fogo, é que era, o mato, o local adequado. De cócoras.

Dizemos também: "Antigo como o cagar de cócoras", aliás, de "coca" — nada a ver com o refrigerante nem com a erva, mero erro de pronúncia do sertão.

Passamos por isto tudo! Dizem alguns, com razão, parece, que um dia teríamos descido das copas das árvores. Em suma, uma escalada, o caminho do Homem. Pois agora o fabricante de papel nos sinaliza que devemos voltar! 

O que essas empresas usufruirão com a "sabedoria"? Esperteza? Por certo, terão a nódoa de imundos e a desconfiança. Nos tempos antigos, o profeta, adivinho ou hermeneuta que praticasse um erro desse teor — devolver o Homem à copa das árvores e remeter ao brejo uma confiabilidade que é fundamental na relação com o cliente — teria o pescoço a prêmio. 

Um hermeneuta de boa estirpe, bom marqueteiro naturalmente, da concorrência, imediatamente anunciará, contra eles, que sua fábrica acredita que o Homem está a caminho. [A caminho de quê, meu Deus?]. No regime da ampla competição de mercado, darwinista por excelência, melhor que se arrebentem os"sabidos". A feiúra e a burrice igualmente feia, de mãos dadas! 

Desconfio sinceramente que um fabricante ousado que venha a fazer um marketing sobre um rolo de papel maior ou sobre mais gramas de sua lata de sardinhas terá amplo sucesso. [Seria assim, incrível, que os grandes negócios, os grandes impérios, o "Reich de Mil Anos", a "Revolução Permanente", quebraram e quebram: um erro fatal no círculo hermenêutico periférico?].

A pergunta agora, depois de transposto o problema do feio para o antiético, é como colocar sob antijuridicidade o procedimento que reduz o Homem. Positivista, o hermeneuta dirá que o fabricante dos produtos maus está a salvo justamente porque SUNAB e CIP foram extintas. Todavia, o que está em jogo aqui não é apenas uma relação de mercado, fabricante versus cliente. 

Não se discute tão-só o aumento de preço que, em si mesmo, é cruel. Discute-se, aqui, a legitimidade de reduzir o tamanho do sabonete quando a mão e o corpo do Homem cresceram fisicamente em centímetros cúbicos. Ainda que fosse para baixar o preço do sabonete, a mudança atentaria contra a lei física das proporções de peso e volume.

Existiria, acima da Constituição, pairando até mesmo alguns palmos acima dela, alguma "Lei" suficientemente forte para repelir a imundície? Desconfio que sim. Parece-me, a única Lei possível seria unicamente o Homem. Porque tudo que o rebaixar aviltará a única lei, ele mesmo Lei, em si, o Homem. 

Mesmo no estado de anarquia, o procedimento, por feio e asqueroso, independentemente de ser antijurídico, haveria de ser repelido.

[Teria sido, cá para nós, esse falar pelo Homem e em nome dele, a verdadeira voz que o homem, independentemente de tamanho, sexo, fome e verminose, bem que poderia ter levantado, em sua caminhada de rastejos, à fácies da tirania?]. Só rastejamos, parece. Legítima não seria a lei; legítimo é o Homem. Porque ao Homem, afinal, é feio [também indigno] reduzi-lo:

 

"Bem dentro dos teus olhos,
homem, eu te olharei, Homem.

Teu rosto,
teus pés, tuas mãos — côvado e cúbito —
serão minha medida.
Única!

Soares Feitosa"


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