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Soares Feitosa

 

O Círculo Hermenêutico Periférico

Capítulo IV

O decifrador de senhas

 

Afinal, vivemos ou não vivemos sob uma montanha de senhas, desde o instante da fecundação ou até mesmo de antes da fecundação — estupros, namoro dos pais; quem sabe, um chão do jardim, onde, numa noite, nos jogaram que nem sabemos quem?

Senhas até a morte... ou até a vida (feliz de quem acredita nela), "lá", do lado de lá? Ou, mais amplo, um suceder de senhas... até... até... até onde mesmo? Deus? [Vida?, o que isso?] Que sabemos sobre a Vida? Deixemos essas indagações suspensas, por enquanto.

Guardo um susto da juventude, e grande, com o livro do Mário Puzzo, O Poderoso Chefão (que deu origem ao filme nº1 de igual nome), quando o Coronel, desculpem, Don Corleone, diz que lá no céu já estava tudo pronto, arranjado à salvação do filho morto.

Haveria alguém imune de senhas? Paulo, apóstolo, quando de uma prensa — se justa ou injusta, é outra história —, deu um salto bem acolá e foi logo dizendo:

— Sou cidadão romano!

Como responder a pergunta mais terrível:

— O senhor sabe com quem está falando? [O leitor já foi torturado? Quem não foi?]

 

[...][...]
                — O que direi, de que me defendo?

resposta de fogo, se é que existe, 
como ousá-la 
se o interlocutor é terrível e impaciente 
e parece 
zombar e sabe balançar 
horizontal a cabeça 
— e os olhos fixos — à direita e à esquerda, 
a cabeça e o sorriso,
enquanto aos lábios trêmulos 
tuas palavras e as respostas 
medram medo 
e se afogam no soluço.

                [O que te garante que eEle te acreditou?] 

Recusarias 
               o alicate, a unha, 
                             o desterro e a tenaz?!
[...]

[Penúltimo Canto, texto integral em
http://www.secrel.com.br/jpoesia/feito31.html]

Paulo disse que era cidadão romano, de nascimento. [E se me perguntarem, de chofre, com quem estou falando e desagradando, por isto mesmo interpelado?] Como haverei de saber, justo porque não recebi as senhas de quem me pergunta sobre si?! Daí o perigo. E se for o filho mais novo do patrão, a mulher do chefe, o justiceiro do trecho?!

Seria mesmo razoável correr este tipo de risco? Existiria alguém totalmente despojado de senha, mínima que seja? Imune a senhas? Como decifrá-las? Freud, o decifrador de sonhos, ou, diferente, o decifrador de senhas?

Enfim, como se formam, no Homem, as senhas? Em tempo: vou continuar com o vocábulo Homem no sentido de pessoa humana. Que me desculpem as feministas, mas sou fanático deste substantivo, Homem, neutro, de nossa imagem e semelhança.

Senhas primitivas, do animal (de antes de descer das árvores, ou de antes da Graça), inatas? As outras, sociais? De que tanto podemos mudá-las, crescê-las, acrescê-las, apagá-las? Como separá-las, do homem e do animal?

Neste instante, já me chega uma reflexão. Homem, seria esta a senha verdadeira, a senha-mestra: Homem? Ou, diferente, esta outra: filho de Deus? Ou, descrente, apenas esta: cidadão do mundo? Ou, melhor não seria: cidadão romano, desculpem, "US-americano", com os bolsos cheio de dólares?

Contam de um advogado brasileiro — e que advogado!, Sobral Pinto! —, no tempo da ditadura de Vargas, impetrando um habeas-corpus em nome de um cachorro, desculpem, em nome de Carlos Prestes, ao fundamento da Lei de Proteção aos Animais. Reflita sobre a montanha de senhas que "viajam" "anexas" num pedido de habeas-corpus ao fundamento da Lei de Proteção aos Animais. .

Pois o habeas foi concedido, justamente pelo impacto de senhas que carregou. Por outra, foi motivo de grandes galhofas quando um ministro do governo metido a trapalhão, para não dizer o pior, um certo Magri, disse que a cachorrinha de lá casa dele também era gente. Ora, dizer que o Prestes era cachorro para soltá-lo, valeu; tanto valeu que foi solto. Dizer que a cachorra era gente, para tratá-la com regalias, não valeu. Como decifrar? Em suma, há linguagens e linguagens. Mas, no meio desta babel, a pergunta inquietante:

— Qual é mesmo a senha-mestra, a senha das senhas?

Comecemos pela senha "filho de Deus". É uma senha perigosíssima, demonstrar-se-á.

Primeiro problema é decifrar qual o Deus de que o portador da senha se diz filho. O Cristo? Se disser que é o Cristo, lá na Indonésia estará morto, assim noticiam os jornais. Se disser que é Iahweh, melhor salmodiar sobre Auschwitz-Bikernau. Se invocar o nome de Jesus, cuidado, não esqueça, se protestante, a Noite de São Bartolomeu, nem as passeatas em Nova Russas, eu, por lá menino, o padre coadjutor, católico, botando os moleques para atirar pedras no culto de Mr. Kent. [Não, eu não joguei].

Quer encrencas? Senhe-se (pronto, já inventei o verbo: se-nhar), senhe-se, pois, com o nome de Deus. Parece que esta tem sido, ao longo dos séculos, a pior senha.

A pior? Sim, parece que sim. É a única senha que permite matar.

Justamente em nome de d'Ele, a morte. Ao nome de Deus, o perigo absoluto. A pátria, também outra senha terrível, a da pátria.

 


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