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Soares Feitosa
soaresfeitosa@uol.com.br
O Círculo Hermenêutico Periférico
Capítulo III
O teste em torno da verdade
Por favor, não me
venham perguntar o que é a Verdade. Muito menos como achá-la
ou escondê-la. Afinal, a Hermenêutica, para mim, não
visa a encontrar a Verdade, apenas. Há quem a utilize para esconder.
Donde, definição mais barata:
— A Hermenêutica é uma viagem em torno da Verdade.
Anotem bem anotado, por obséquio: disse "em torno".
Pode ser que alguém já veja no afirmado uma confusão
com a Linguagem. A Linguagem, em minhas contas sertanejas, é apenas
o meio, a mídia. Se compreensível ou não é
outra história; tarefa da Hermenêutica decifrá-la ou
escamoteá-la.
É também mecanismo de sobrevivência mandar mensagens
falsas. A cortina de fumaça na navegação de guerra;
o pó de alumínio para cegar o radar argentino na guerra das
Malvinas, etc., etc. E um pássaro africano que voa de aleijado,
como se de asa quebrada, cai não cai, de modo a enganar a cobra
que lhe ronda o ninho — ver no Discovery, ou no National Geographic,
uma beleza de programa de fim de tarde. Como vêem, Comadre Cobra
precisa fazer um curso de Hermenêutica com o professor Glauco, urgente!
Era de tarde, um dia, há muitos anos. Rua Senador Jaguaribe, nº
que não lembro mais, aqui, Fortaleza, no hotel onde almoçávamos
(éramos uma tropa de executivos, eu, o mais novo deles que sempre
tive que trabalhar desde cedo). O dono, um velhote distinto, sério,
de tão sério que o apelidamos Zé-Moral — que Deus
o tenha! — gente finíssima, contava-nos sobre um acordar súbito,
altamente "hermeneutizado".
Intentona Comunista, 1935, guarnição militar de Natal, Brasil,
onde, jovem, o sr. José servia. [Como é que ele conseguira
escapar, nunca nos atrevemos a perguntar, muito menos de que lado brigara,
mas ele contava justamente sobre os que haviam morrido].
Altas horas da noite, a soldadesca dormindo, os rebelados acordando os
companheiros, baioneta no bucho da vítima, arma engatilhada, ríspido:
— De que lado tu
"tá"?
[Por favor, caro leitor, responda de que lado
"tu-tá", altas horas
da noite, dormindo, acordando, zonzo de problemas. Do lado de Deus? Do
Papa? De Exu? Do Bush? Vamos, urgente! Desembuche! Responda!].
— Hã?!
Isto mesmo! Quem disse “hã?!” acordou e, acordado “interpretou”
na direção deste caminho:
— Do seu lado!
[E, sob uma nova interpretação, rápida, rapidíssima]:
— Do seu lado, camarada!
[E então, confiante, aceito, este lance da melhor "hermenêutica",
firme e resoluto, a salvo]:
— Do seu lado, meu camarada! Viva a revolução do proletariado!
Ou, meio zonzo, ou zonzo e burro, ou zonzo e burro e teimoso, ou sei mais
o que lhe dera na cabeça, dizem alguns que de puro heroísmo:
— Do lado do Governo!
E então, o senhor José me encalcava o dedo na barriga, como
se fosse com a metralhadora; eu dava um salto bem acolá como se
fosse um boneco de melancia, todo envergado e com apendicite, no gesto
justo de quem levara os tiros, e ele, bruto — só por fora, claro
— bradava:
— Pol! Pol!
Rebaixava a vista, sacudia a imaginária vítima com o pé
e dizia:
— Morreu!
O sangue? Claro que todo o sangue do mundo — uma linguagem a mais! — jorrava
(só por dentro), quase a lhe explodir a jugular, lá nele.
Em tempo:
Se a história de seu José [ou a minha versão] é
verdadeira? Por favor, me anotem a resposta que o Coronel dá ao
bibliotecário Djalma, em Salomão,
dentro de uma cela do Carandiru, em pleno Século Cem de Ésquilo:
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—
Djalma, não sei de história nenhuma, nem quero saber. Não
tenho nenhum compromisso com a história nem com a verdade. Este
assunto sempre o deixei com os historiadores e muito me divirto às
custas deles, que nunca estão de acordo. Meu compromisso é
com o mito, afinal sou hoje apenas um Cantador e antigo senhor de negreiros.
Dessas coisas do tempo da escravidão oficial, nem eu mesmo lembro
direito. Enfim, Bibliotecário Djalma, num pergaminho do início
das eras, os Manuscritos do Mar Morto, um sábio desconhecido escreveu:
— Homem algum sabe a história completa.
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E
então, seu José nos contava sobre outro José, grande amigo dele, que,
mal-acordando não soube dizer direito o que deveria dizer (um problema
hermenêutico certamente, não ter sabido interpretar a mensagem súbita)
e disse umas palavras mal-amanhadas, umas bobagens, parece que vacilou,
ninguém sabia explicar muito bem o que lhe acontecera:
—
Pol! Pol!
E
aí a voz de seu José, de pura brabeza anterior, agora, como se fosse num
embargo seco e cavo:
—
Ele morreu!
O
sangue? Como se um campo de algodão em maio e flor, era então a palidez
de José à lembrança de José, toda a palidez do mundo.
Não,
não. Nunca tive certeza de que José, ainda que anistiado, tenha morto o
outro à mensagem mal decifrada.
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J. Romero Antonialli comenta este capítulo
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