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Soares Feitosa
soaresfeitosa@uol.com.br
O Círculo Hermenêutico Periférico
Capítulo I
Os hermeneutas
ou
Os domadores de cavalos
Acenei, no prólogo,
com a idéia algo maluca de que todos os seres vivos, desde o mais
insignificante vírus até a mais espetacular sequóia
gigante, interpretam mensagens. E, mais grave, presa à interpretação,
em pleno risco, a vida ou a morte.
Sabemos, lá no sertão, que uma melancia em cima de um estrado
de madeira, bem alta do chão e bem distante das paredes, é
capaz de durar uma eternidade, se comparada com outra melancia colocada
diretamente no piso da casa, num canto de paredes, junto dos potes de beber,
à cantareira. Na melancia do estrado de madeira, parece, as sementes
fazem uma leitura — com que instrumentos “lêem”? — de que as condições
de germinar não seriam adequadas. Diferentemente daquela outra,
do chão, em contato com a terra — fazendo terra?, eletricamente
fazendo terra? — as sementes, parece, “lêem” a mensagem “Geo”, terra,
e, vapt!, pernas para que te quero!, e detonam o mecanismo de germinação
que, obviamente passa pelo apodrecimento da fruta para liberá-las,
pretinhas, miudinhas, milhares.
Somente quem nunca viu uma doma de burros ou de bois de carro é
capaz de imaginar que o homem não se comunica com os animais. E
vice-versa — e bem! Um domador de cães? Já repararam
como eles, cão e domador, se “conhecem” e se entendem como se fossem
velhos camaradas de ginásio e quartel? Arquétipos? Nada disso.
Competência, sim: "hermenêutica"!
Em suma: comunicamo-nos. A mensagem. A interpretação. O intérprete.
E as senhas, onde as senhas?
Soares Feitosa, em Psi,
a Penúltima, retrata o momento em que o Chico — um hermeneuta,
com certeza, um hermeneuta — dirige-se ao sertão ressequido pela
seca do 1993, no propósito de amenizar o sofrimento da raposa, que,
sem ter onde beber, doida de fome e sede, ataca as cacimbas dos humanos.
Então, o hermeneuta grita em grego (alopex - alopex -
Esopo), em
latim (vulpes, Fedro), finalmente em francês (renard,
La Fontaine), mas a raposa não responde. Quase desistindo da missão,
dirige-se à basílica de Canindé que, por coincidência
se avista de lá do alto do Maciço do Baturité, local
da tragédia, e o santo, Francisco, lhe dá a senha:
—
Fale simples,
chame a “Comadre”
(disse o Santo),
é a senha,
batei, abrir-se-vos-á!
—
Comadre Raposa,
oi de casa, sou de paz!
—
Diga lá, compadre Chico,
irmão Francisco já avisou...
escutei o compadre chamar
Helade, Latium, Gallia
[sem a senha, jamais responderia...]
muito prazer,
sua criada,
a Comadre.
Então, a comunicação
pressupõe senhas? Como assim? Um texto não seria uma coisa
aberta, cartesiana, em que bastaria botar para cima dele uma boa gramática,
alguns dicionários, uma enciclopédia, um tratado de lógica
e uns livros de história, quando muito a situá-lo e, prontamente,
tê-lo devidamente interpretado? Senhas, por que senhas?
Dizem que um dos momentos mais altos de toda a Arte do Homem é quando
um cego descreve o encontro de uma mulher (com o filho pequeno) com um
guerreiro (o marido), às muralhas de Ílion. O casal, conta
o cego, naquela mínima pausa à tragédia (o marido
desencontrando-se inicialmente da mulher, pois fora antes procurá-la
no antigo lar; ela, simultânea, em busca dele, em pleno campo de
luta): reencontra-se. E, num átimo, a felicidade toma conta dos
três: marido, mulher e filho pequeno.
Ante os cavalos domados (afinal, por que o cego nos deixa essa revelação
aparentemente banal para o fim?), vem o filósofo Wittgenstein a
nos ensinar que, se o leão pudesse falar, não o compreenderíamos.
Parece que esse senhor não entendia de tragédias, desculpem,
de melancias. Simples solução de rima e metro? Ou...ou o
quê?). As senhas, onde as senhas?
[Na historinha do cego, o marido,
cerimoniosamente, faz uma prece
a Zeus e aos outros deuses em intenção do filho e, após,
despede-se da mulher, Andrômaca. Não sei porque o tal cego,
no fim do livro, conta-nos que o guerreiro, um certo Heitor, era domador
de cavalos].
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