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Wladimir Saldanha
Carta ao Soares:
Caro Poeta Soares Feitosa,
se quem "não tem padrinho morre pagão", já este Wladimir Saldanha,
que agora se encoraja a falar-lhe, não vai mais para o Limbo, mas
diretamente para o Inferno, se afinal não lhe couber um cantinho do
Céu.
Sou eu, finalmente, o "afilhado" de Renato
Suttana; na verdade,o caso é que eu tinha comentado com ele a
vontade de ter o meu cantinho aí, no seu JP, que é o Céu do Poetas,
mesmo antes de me ver estampado em livro (que isso é para
não-sei-quando). Se não o procurei antes? Já, sim, timidamente
embora; ou não se lembra de um poeminha, sobre uns chineses,
brincando na neve?
Mas aí você me pediu o meu endereço, que
eu mandei, e depois não mais nos falamos...
Há muito tempo (tenho 27 anos, e qualquer
coisa para mim é "muito tempo"), eu também lhe havia mandado um
sonetinho, que começava assim:
Não sinto meus braços, pernas. Não
sinto
Meu corpo, à exceção do lábio seco.
Palerma, fui entrar por este beco,
Como esse cão que enxoto. Por instinto.
Lembra? Era sobre um garçom. No tempo em
que eu queria "sonetizar" o mundo...
Mas acho mesmo bom que não tenha ocorrido
nada, porque agora me sinto mais senhor de meu beco, vamos dizer:
menos "palerma". E queria mais é me sentir aí, com vocês todos, os
grandes, os médios, os pequenos, o grãozinho e a estrela portentosa.
Advirto que não tenho biografia no sentido
literário, mas uma antibiobibliografia (espero que não tenha
hífen!): não sou professor de literatura, não faço mestrado sobre
a obra de gênio algum, tampouco publiquei qualquer livro; tive,
somente, 4 poeminhas na Revista "Iararana", daqui da Bahia (porque
sou baiano, afinal), por um concurso em que tirei 3º lugar. Antes, a
poesia só me rendera uma caixa de chocolate na infância, prêmio de
biblioteca pública. Enfim, sou formado em Direito, como vossa mercê;
mas não advogo, e só porque vivo de intimar e arrestar e penhorar -
sou oficial de justiça, o maldito meirinho. Não é lá muito
poético, hein? Mas vou lhe confessar que a esse trabalho devo muito
poema, apesar.
Mas vivo aqui num isolamento muito grande
com essa minha poesia, isolamento este só em parte quebrado pelas
generosidade de Renato, e que aliás devo a você, porque o conheci
por meio do Jornal. Confesso que é mais por isso - por querer
estabelecer um contato, quem sabe até com poetas de minha cidade, ou
até de minha rua - que busco o JP, porque me parece que essa
agregação é bem o espírito de sua iniciativa, e talvez a razão de
tanto sucesso.
Enfim, veja se aprecia alguma coisa. Os
poemas são do meu livro, "Fardo Sutil". Guardo aqui também contos, e
muitos, muitos outros poemas, caso não goste de algum, ou tenha
ressalvas quanto ao tamanho (tenho às vezes a língua meio solta...)
E desculpe o mau jeito, porque de maneira nenhuma achei má idéia
tratar com você, diretamente - e até me sinto bem feliz por isso.
Um abraço do
Wladimir Saldanha.
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