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Wilson Martins

Prosa & Verso,
21.10.2000
Aprendizagem
Pode-se pensar que, aos 35 anos, era
cedo para que Miguel Sanches Neto se dedicasse ao romance
autobiográfico, mas ele escreve para se libertar das memórias, como
um exercício de exorcismo ("Chove sobre minha infância". Rio:
Record, 2000). Aniquilar o passado de desajustamentos, humilhações e
injustiças tornou-se uma obsessão que só veio a superar, já adulto,
pelas catarse da literatura, ainda assim reabrindo as feridas para
curá-las. Os seus anos de aprendizagem da vida teriam destruído
qualquer temperamento menos vigoroso.
Tudo estava programado desde tempos
imemoriais: "Sempre tive que pagar o preço de ter um sobrenome
espanhol. Minha ascendência explicava todos os meus defeitos de
caráter. Briguento, irritadiço, violento, orgulhoso, teimoso. Tudo
era sinônimo de espanhol e estava em meu sobrenome. (...) Fiz-me
espanhol, mais espanhol do que de fato sou". O "país obscuro" de
onde provinha, dirá no livro de poesia ("Venho de um país obscuro".
Curitiba: Travessa dos Editores, 2000), era "uma infância repleta de
muros"; escrever é, agora, um processo de sucessivas mutilações
sentimentais, é "caçar caranguejos pelo método do guaxinim", que
saboreia a presa "com a memória da dor em carne viva".
A morte do pai deixou-lhe um trauma
incurável, transformando-lhe a existência numa vingança contra o
destino: "O pai é a grande figura até meus quatro anos.
Supersticioso, alegre, animado, bêbado, fracassado, amigável e
irritadiço, ele foi um pouco de tudo para o menino, que muitas vezes
era carregado para os bares. Passava a maior parte de seu tempo em
conversas fiadas (...)". Assim, o menino construiu na imaginação a
figura paterna, tanto mais idealizada quanto contrastava com o
realismo brutal do padrasto que lhe tomou o lugar, estabelecendo-se
entre os dois a inevitável rede de incompreensões recíprocas em que
acabarão por mutuamente destruir-se.
Nesse ambiente de paixões
incontroláveis, o maior mistério é o tropismo irresistível que
conduziu o menino Miguel para a literatura, transformando-o num dos
grandes escritores brasileiros do nosso tempo, o que é preciso
reconhecer desde logo sem hesitação. Vindo de um meio rústico e de
uma família de analfabetos, ele é hoje o crítico literário mais
destacado de sua geração (e de algumas outras...), assumindo a mesma
posição de primeiro plano no que se refere à arte da prosa de
ficção. A máquina de escrever, diz ele, foi a sua primeira namorada.
Sua poesia está ligada às mesmas camadas tectônicas, se assim me
posso exprimir: "Eu me sinto poeta apenas no momento em que estou
escrevendo poesia, o que é uma coisa que acontece com pouco
freqüência (...). Nos demais momentos de minha vida, sou outra
pessoa, escrevo crítica, faço ficção e principalmente vivo, trabalho
e leio" ("Rascunho", Curitiba, nº 1, maio de 2000).
A obsessão da leitura foi o sinal mais
imperioso da vocação de escritor (contra todas as circunstâncias
adversas) e que o salvou do desespero nos trabalhos grosseiros
impostos pelo padrasto: "Todos os dias vou à biblioteca, falando pra
mãe que tenho que estudar. (...) No segundo dia das férias já estou
na biblioteca, lendo o tempo todo. (...) Deixaram-me quieto com os
livros, principalmente porque lendo me acalma (...) e no fim todo
mundo lucra com isso, porque não dou despesa, os livros são da
biblioteca. (...) Fico horas em silêncio acompanhando o que acontece
em um romance, lendo poemas, aceitando ser o influenciado".
Ei-lo, afinal, encontrando-se consigo
mesmo: "Estou numa Faculdade de Letras local e descubro que este
curso é o lugar onde menos se lê (...)". De certa forma, e nas suas
palavras, "este livro é pra tentar responder a esta pergunta (‘qual
o sentido de gastar a vida com a literatura?’), respondê-la por mim
mesmo, que é o que importa. Mas também é pra dar um fundo de verdade
ao que minha mãe fala. Agora poderá dizer pros amigos e parentes que
tem um filho escritor. (...) Vindo de um povo basicamente iletrado,
recebi a tarefa de ser seu porta-voz. Escrevo por isso, pra fazer
com que falem estes entes sem discursos".
O mal-entendido profundo da
irreparável tragédia que foi a sua infância é revelado pela irmã
Carmen na carta que lhe dirigiu após a leitura do manuscrito. No seu
entender, a "grande falha" do livro está, por um lado, em ignorar
que a aparente hostilidade do padrasto era apenas a forma inábil de
exprimir os sentimentos, e, por outro, na sublimação do pai, que
estava longe do que o menino idealizava. Quando o padrasto tentava
arrastá-lo para o seu próprio mundo, "era uma forma de amar, de
ensinar o que sabia". Quanto ao pai, no segredo afinal revelado, era
um irresponsável: "Ele também teve várias amantes" e fez da esposa
uma sofredora silenciosa. Na visão de Carmen, o padrasto era um tipo
superior, "homem que leva a sério a honestidade, tanto nos negócios
como na família (...)".
O epílogo é uma visão de mundos
mortos, desaparecidos com a infância do autor: "Quando é que morreu
esta cidade que insiste em viver em mim?". Não só nele, mas também
na permanência da obra de arte, nessas memórias que agora se
incorporam para sempre entre os grandes momentos de nossa
literatura.

Leia
a obra de Miguel Sanches Neto
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