Vicente de Carvalho

Pequenino Morto

Tange o sino, tange, numa voz de choro Numa voz de choro... tão desconsolado... No caixão dourado, como em berço de ouro, Pequenino, levam-te dormindo... Acorda! Olha que te levam para o mesmo lado De onde o sino tange numa voz de choro... Pequenino, acorda! Como o sono apaga o teu olhar inerte Sob a luz da tarde tão macia e grata! Pequenino, é pena que não possas ver-te... Como vais bonito, de vestido novo Todo azul celeste com debruns de prata! Pequenino, acorda! E gostarás de ver-te De vestido novo. Como aquela imagem de Jesus, tão lindo Que até vai levado em cima dos andores, Sobre a fronde loura um resplendor fulgindo — Com a grinalda feita de botões de rosas Trazes na cabeça um resplendor de flores... Pequenino, acorda! E te acharás tão lindo Florescido em rosas! Tange o sino, tange, numa voz de choro, Numa voz de choro... tão desconsolado... No caixão dourado, como em berço de ouro, Pequenino, levam-te dormindo... Acorda! Olha que te levam para o mesmo lado De onde o sino tange numa voz de choro... Pequenino, acorda! Que caminho triste, e que viagem! Alas De ciprestes negros a gemer no vento; Tanta boca aberta de famintas valas A pedir que as fartem, a esperar que as encham... Pequenino, acorda! Recupera o alento, Foge das cobiças dessas fundas valas. Vai chegando a hora, vai chegando a hora Em que a mãe ao seio chama o filho... A espaços, Badalando, o sino diz adeus, e chora Na melancolia do cair da noite; Por aqui só cruzes com seus magros braços Que jamais se fecham, hirtos sempre... É a hora Do cair da noite... Pela Ave-Maria, como procuravas Tua mãe!... Num eco de sua voz piedosa, Que suaves coisas que tu murmuravas, De mãozinhas postas, a rezar com ela... Pequenino, em casa, tua mãe saudosa Reza a sós... É a hora quando a procuravas... Vai rezar com ela! Depois... teu quarto era tão lindo! Havia Na janela jarras onde abriam rosas; E no meio a cama, toda alvor, macia, De lençóis de linho no colchão de penas. Que acordar alegre nas manhãs cheirosas! Que dormir suave, pela noite fria, No colchão de penas... Tange o sino, tange, numa voz de choro, Numa voz de choro... tão desconsolado... No caixão dourado, como em berço de ouro, Pequenino, levam-te dormindo... Acorda! Olha que te levam para o mesmo lado De onde o sino tange numa voz de choro... Pequenino, acorda! Por que estacam todos dessa cova à beira? Que é que diz o padre numa língua estranha? Por que assim te entregas a essa mão grosseira Que te agarra e leva para a cova funda? Por que assim cada homem um punhado apanha De caliça e espalha-a, debruçado à beira Dessa cova funda? Vais ficar sozinho no caixão fechado... Não será bastante para que te guarde? Para que essa terra que jazia ao lado Pouco a pouco rola, vai desmoronando? Pequenino, acorda! — Pequenino!... É tarde!... Sobre ti cai todo esse montão que ao lado Vai desmoronando... Eis fechada a cova. Lá ficaste... A enorme Noite sem aurora todo amortalhou-te. Nem caminho deixam para quem lá dorme, Para quem lá fica e que não volta nunca... Tão sozinho sempre por tamanha noite!... Pequenino, dorme! Pequenino dorme... Nem acordes nunca!


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