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Tânia Alice Feix
Corpos de homens, perspectivas de
mulheres:
da exclusão literária de um mundo estereotipado a uma nova forma de
representação erótica.
Prof. Dra. Tânia Alice Feix
Invertendo os
esquemas tradicionais da representação do corpo da mulher pelos
homens, as artistas tomaram definitivamente em mãos as rédeas da
criação artística no setor da literatura como das artes plásticas. A
arte contemporânea possibilita uma redefinição das polaridades e uma
nova maneira de conceber os eixos da representação do relacionamento
masculino / feminino. De que maneira determinados artistas
ocidentais contemporâneos, como Camille Laurens, Sophie Calle,
Louise Bourgeois ou Annette Messager inscrevem o masculino /
feminino no quadro da criação contemporânea ? Como representar o
masculino, com a pesada herança da tradição representativa que tende
a valorizar a produção masculina, sobretudo quando o seu objeto de
representação é o feminino? Trata-se, no quadro desta nova
representação do corpo do homem pela mulher, de uma simples inversão
dos estereótipos elaborados pelos artistas do sexo masculino ou,
pelo contrário, as mulheres chegaram finalmente a inventar pouco a
pouco uma nova maneira de descrever o corpo e, a fortiori, o corpo
masculino? A meio caminho entre uma representação mercantil da
sexualidade e um romantismo exacerbado, emerge, pouco a pouco, uma
nova maneira de “contar” o homem – no sentido masculino do termo. Os
pólos se invertem, a mulher atinge o nível de criadora, de artista
reconhecida não na sua qualidade de mulher artista, mas sim de
artista. Cai, assim, pouco a pouco, a fortaleza principal levantada
pela linguagem crítica, qualificando esta criação de “feminina”,
como para colocá-la num gueto. E a mulher acaba assumindo o estatuto
de criadora, tentando “contar” o corpo, contar o homem – no sentido
masculino, más também genérico do termo.
Assim, em 2002,
uma publicidade das “Guerrilha Girls” - equivalente norte-americano
das “Chiennes de Garde”, movimento feminista francês -, aposta nos
muros de Nova York, questionava a noção de paridade no mundo
artístico da maneira seguinte: “As mulheres deveriam estar nuas
para entrar no Metropolitan Museu?” - recordando que quando se
aborda a representação erótica do corpo, na maioria dos casos, é o
corpo da mulher que é objeto da representação. « Masculino,
feminino, artistas e modelos, a causa é clara: o artista é o homem,
o modelo é a mulher », nota Francis Vanoye em « Artistas e
modelos »
I. A mulher é o objeto, o homem o sujeito. Qual é a razão
deste tímido aparecimento da mulher sujeito?
Da « mulher modelo » à « mulher sujeito »
Não há dúvida
nenhuma de que o papel e a situação da mulher artista, até meados do
século XX, condicionaram amplamente as representações unilaterais.
Reduzida à “eterna conspiração do silêncio e das mamadeiras
impecáveis” – retomando a formulação de Virginia Woolf
II –, a mulher
artista encontrava-se confrontada a uma dupla exclusão: « à das
mulheres na sociedade e à as mulheres artistas no mundo do
território masculino»
III . Tomar em mãos as rédeas da criação foi um
dos desafios do combate social, cuja expressão foi proteiforme. No
setor das artes plásticas, na década de 70, Françoise Janicot
apresenta a obra Encoconnage, na qual ela enrolava lentamente um fim
de ferro ao redor de uma mulher, símbolo da prisão nos cabrestos
machistas. Ao mesmo momento, Jeanne Dielman de Chantal Ackermann
coloca em cena a opressão sofrida pela mulher nos trabalhos
caseiros, apresentando-a na cozinha durante três horas em seguida.
No setor da literatura, a integração da psicanálise no processo da
criação permitiu uma liberação ocasionada pela conscientização da
possibilidade de se liberar de cabrestos predeterminados. Françoise
Mallet-Joris, Madeleine Chapsal ou Marie Cardinal, continuando na
linha do Deuxième Sexe (1949) de Simone de Beauvoir, foram entre as
primeiras a introduzir o dispositivo analítico consciente na obra
literária, sempre na ótica de liberar a mulher dos cabrestos
predeterminados, possibilitando-lhe o acesso à uma representação
livre de si mesma e de seus desejos.
Ao cabresto social acrescenta-se a formação de gueto no mundo
artístico defendido por pessoas detentoras de armas de primeira
categoria. A pedra visível do edifício? O conceito célebre da “arte
feminina”. Uma publicação humorística intitulada “As vantagens de
ser artista-mulher”, apareceu recentemente na Internet. Entre as
vantagens apresentadas figura de maneira muito irônica “Ter a
garantia de que independentemente do estilo de nossas obras, as
nossas obras serão sempre arte feminina”… ».
IV Resposta anacrônica a Barbey d’Aurevilly que escrevera a respeito da arte feminina :
«
Estudem as obras delas, abram por acaso ! Na décima linha, sem saber
de quem se trata, vocês já estarão advertidos, vocês sentirão o odor
feminino: Odor di femina ! »
V ?
Romper este qualificativo, abolir a noção de “escrita feminina” -
fortaleza arcaica da linguagem crítica, felizmente, em fase de
extinção - significa abrir espaço de expressão, no qual será
possível falar do “outro”, ou seja, do homem, em sua dimensão
ontológica como corporal. Anne Garréta, no seu romance Sphinx
(1986), conseguiu dar a vira-volta ao escrever um romance no qual a
indeterminação sexual dos personagens permanece sem ser revelada,
evidenciando « a inanidade da sacralização da diferença metafísica»
VI
. Mediante este approach, que recorda o de Andy Warhol, produtor em
1981 do Self portrait in drag, Anne Garréta questiona a espessura da
fronteira entre a diferença entre os sexos.
A escolha de um pseudônimo epiceno apresenta-se como a afirmação de
uma vontade de se liberar dos estereótipos e dos pressupostos no
referente às letras chamadas femininas. Este desejo permite, sem
dúvida, explicar parcialmente a escolha de numerosos pseudônimos
masculinos, ou pelo mínimo, epicenos, de um certo número de mulheres
artistas: George Sand, Colette, escrevendo com o nome de seu esposo,
depois com o nome de seu pai, incluindo-se, nesta linha, também os
artistas contemporâneos, como Dominique Gonzales-Forrester ou
Camille Laurens. Béatrice Didier, critica, mais pragmática nota que
« assinado com um nome de homem, poder-se-ia vender melhor o livro,
o que representaria uma tentação maior para o editor»
VII , evidenciando
assim o machismo ambiente quando se trata de questionar a criação
feminina e – a fortiori quando o seu objeto de representação é o
masculino e, (pior!), o corpo masculino.
Abortar os a priori : após romper o cabresto, trata-se de não
somente colocar em cena a liberação, mas também de começar,
finalmente, a representar o homem em sua dimensão sexual, erótica.
Acabar de falar de cabresto estigmatizando o homem e seu corpo –
como poderia fazê-lo Gina Pane, lacerando-se as mãos no momento da
realização de uma obra
VIII – e mais ainda de o representar de maneira
valorizadora? Vai-se talvez, ao encontro dum lugar comum que
pretende que o corpo masculino apresente menos atributos sensuais
que o corpo feminino...
Representações femininas do corpo masculino
Louise Bourgeois é, sem dúvida, uma dos artistas que levou ao máximo
a valorização do corpo masculino, e seguramente uma das únicas
escultoras a realçar o corpo do homem, chegando mesmo a consagrar
uma escultura representando o sexo em ereção – questionando
diretamente a representação do corpo do homem pela mulher. Uma série
de desenhos, realizados de maneira catártica dia após dia, evidencia
a força do desejo da mulher pelo sexo oposto. As doze variações de
São Sebastião (1990-1993, ponta seca com acréscimos de aguada,
aquarela e lápis) evidenciam uma mulher sensual, opulenta,
atravessada pelas flechas do amor, evocando a dimensão mitológica
referindo-se a Cupido e a totalidade da tradição da pintura de São
Sebastião. As polaridades são invertidas ; apesar de tudo, o desejo
é estigmatizado, mal assumido. « Ela tenta se valorizar e assim (…)
suscita a hostilidade sem querer », explica Louise Bourgeois a
respeito de sua escultura – mesmo que não fique claro que esta frase
se relacione com a própria artista, que exprimindo o seu desejo,
acabe provocando ciúmes.
Nesta mesma tradição de representação positiva, e, sempre na ótica
de aproximar o homem mediante o vetor da arte, conta-se também
Annette Messager no explicar que o fenômeno de guetização, com o
qual se encontram confrontadas as mulheres artistas, conduziram-na a
elaborar um relacionamento diferente no referente aos objetos e aos
humanos IX . Numa das séries Annette Messager colecionadora, intitulada
« Aproximações 1971-1972 », a artista tirou uma série de clichês
fotográficos sempre mais aproximados da fechadura das calças de um
homem, acabando tudo com um enquadramento bem preciso, sempre com o
objetivo de aproximar-se de maneira mais íntima da alteridade, vetor
do corpo.
Num approach original, Sophie Calle, realiza representações não
menos valorizadoras. No sex last night, uma longa metragem realizada
por ocasião de um périplo do casal Greg Shepard / Sophie Calle na
América em 1992, encerra-se cronicamente com a frase despeitada da
protagonista que filma todos os dias de manhã as camas dos diversos
motéis « No sex last night! ». Por ocasião da “Nuit Blanche” (“Noite
Branca” – Noite da Arte Contemporânea) em Paris, grande noite
dedicada à arte contemporânea na capital, no ano de 2003, instalada
num colchão de penas no cimo Torre de Eiffel, Sophie Calle deixava
todos os homens voluntários tomar conta dela durante uns 5
minutos... Evidenciando a perenidade dos esquemas tradicionais – a
princesa, passiva, no cume de sua torre, esperando os príncipes
potenciais, todos decepcionantes porque todos demasiadamente
idealizados? Entre a representação do corpo do homem pela mulher e a
contemplação desta representação pelo homem: uma fossa geradora de
separação social. Nina Bouraoui, autora argelina, descreve, em La
Voyeuse interdite (1991), a dificuldade sentida pela mulher de
representar o homem, quando o arsenal de condicionamento social,
vetor da dominação masculina – para retomar o título do ensaio de
Pierre Bourdieu – encontra-se armado. A beleza do gesto artístico
sendo - para Nina Bouraoui como para Sophie Calle - que a
reivindicação nunca se torna mais importante que o amor do outro,
quando se trata de representar a alteridade, mesmo, e, sobretudo,
deveríamos dizer, quando ela é masculina.
Sexos e sexualidades
Sob o ponto de vista da literatura, a reflexão sobre o
relacionamento com o corpo e mais especialmente, com o corpo
masculino, encontra-se no centro da problemática de Camille Laurens,
especialmente nos romances Dans ces bras-là (2000) e L’amour, roman
(2003). Dans ces bras-là descreve os encontros sucessivos da
narradora com os homens de sua vida: o pai, o psicanalista, o
marido, o amante, o desconhecido...Trata-se de abordar o « o
continente peludo », retomando a expressão de Fabrice Gaignault
X , na
tentativa de compreender o mistério do masculino eterno.
A investigação avança mais no
L’amour, roman, no qual a narradora
tenta encontrar uma resposta à questão « De onde vem o amor em mim?
», subindo na árvore genealógica. Levando em conta ao mesmo tempo a
dimensão sociológica e psicanalítica para tentar definir a sua
maneira de conceber o homem, o amor, a sexualidade, o relacionamento
com o outro, Camille Laurens apóia-se no passado para tentar
compreender o presente e a relação amorosa com o seu esposo Yves.
Assinado com o pseudônimo declarado de Camille Laurens, L’amour,
roman cita o verdadeiro nome de seu marido na vida “real”, fazendo
aparecer o nome do autor no estado civil na última página.
Resultado: trata-se de um approach praticamente autobiográfico,
mesmo que o “pacto” - empregando a terminologia de Philippe Lejeune
– não tenha sido validado. O resultado foi uma ação judicial
intentada por seu esposo. O processo foi julgado num Tribunal de
Primeira Instância no dia 12 de Abril de 2003 e ainda não foi
decidido sobre o fundo da questão. Entre outras palavras, a
representação do masculino, num “romance” que relata o corpo a corpo
erótico entre a narradora e seu amante, não é um combate ganho
antecipadamente.
Trata-se para as mulheres artistas, de movimentar-se na orla situada
entre a evocação autêntica e uma arrematação sexual, as vezes
manobrada sob a ótica de marketing. Para os artistas gays a ambição
é idêntica, mesmo se o caminho seja, sem dúvidas, menos sinuoso
comparado com as compatriotas heterossexuais.
No início do século XX, Hector Guimard, arquiteto e designer, criou
monumentos arquiteturais fálicos em homenagem ao sexo masculino, o
qual foi seguido, nos dias de hoje, por Keith Haring que apresenta a
figura de sexos potentes e agitados, donde emerge a vida.
As fotografias de Mapplethorpe, por sua vez, apresentam-se como uma
exaltação do sexo masculino: o enquadramento e os efeitos da
contextura fornecem uma dimensão claramente erótica para a
fotografia. Para Eric de Kuyper, a maioria das representações -
sejam heterossexuais ou homossexuais – estão longe de fornecer uma
inovação sob o ponto de vista artístico. Elas contribuem, na sua
opinião a perpetuar os estereótipos, realizando a inversão dos
mesmos
XI . A vida sexual de Catherine M. (2001) de Catherine Millet,
por exemplo, apresenta uma sexualidade desencarnada, des-erotizada,
um tipo de “mecânica de mulheres” - para retomar o título de um
romance de Louis Calaferte – a partir do momento em que ela se
submete à lógica masculina, mesmo sob o manto da liberação sexual.
Reencontramos o mesmo tipo de representação para Virginie Despentes
no Baise-moi (2000), no qual o homem é o objeto da representação
como do desejo: a relação interpessoal, do humano, torna-se
mecânica, animal. Em vez de afrontar os cabrestos machistas e as
formas de representação que os condicionam, constata-se uma simples
inversão dos clichês.
A inversão dos estereótipos
Esta inversão dos estereótipos constitui o argumento retórico
principal da lógica mercantil no momento em que a mesma é utilizada
na publicidade ou nas revistas masculinas como M Magazine ou
Men’s
health . O corpo ideal feminino não se substitui pela beleza interna
de cada ser, mas pela noção de corpo ideal masculino. As mulheres
artistas contemporâneas que colocam o homem no centro de suas
representações também não fogem destes clichês. Camille Laurens, por
exemplo, exalta os corpos magros, atléticos, colocando em cena uma
semiologia do corpo, permitindo uma certa forma de transcendência a
partir de determinados dados corporais. No Romance, segundo volume
da tetralogia de Camille Laurens, a forma fálica do cigarro, leva
Lise, a protagonista, a deduzir que os fumantes tem um potencial
erótico, contrariamente as estipulações da publicidade. No Dans ces
bras-là, são os atletas, que, pelo fato de serem submetidos a
esforços, a tensões, pressupõem a presença de erotismo. O ideal
atlético é o leitmotiv na obra dos romances de Camille Laurens, na
qual o avô, figura mítica de jogador de rúgbi, pelo fato de ter
combatido os All Blacks, figura como o masculino eterno. No A imagem
do homem – a invenção da virilidade
XII , George Mosse dedica-se, mais
de perto, sobre os atributos físicos e morais dos homens, tentando
analisar de maneira mais precisa como os estereótipos evoluíram com
o decorrer dos tempos. Segundo Mosse, « vontade de dominar,
potencia, honra e coragem » são as virtudes principais que
contribuíram para lapidar a imagem do homem ideal. Explorados no
quadro das sociedades fascistas por meio dos desvios do pensamento
de Nietzsche estes modelos – sobre os quais se dedica Pascal Quignard no
O Sexo e o Espanto – contribuem para criar o andaime
fantasmático contemporâneo.
O modelo atlético grego, continuado na sociedade romana, assumido e
conscientizado durante o século XIX pela sociedade burguesa que
exalta os valores da honra, encontra-se em vigor em nossos dias na
medida em que a referência é feita à aparência externa. No que se
refere aos valores comportamentais, a “era do vazio” – para utilizar
o título de uma obra de Lipovetsky – chegou mesmo a produzir um
narcisismo crescente no aspecto corporal que parece assumir uma
importância superior aos valores internos. Sob o ponto de vista da
sociedade, a passagem da época moderna - historicistas, contendo no
seu seio a fé no progresso – à pós-modernidade, período do fim dos
“Grandes Enredos” – a expressão é de Lyotard – ocasionou uma tomada
de consciência diferente não só dos valores humanos como dos valores
corporais.
O resultado é que o relacional com o corpo do outro é vivido numa
dimensão mais narcisista, menos centrada na alteridade. Cada corpo
permanece na sua bola, no seu campo. O que acontece, então, com a
representação do corpo masculino? Michel Houellebecq, no Plataforma
(2001), defende a idéia seguinte, segundo a qual a sexualidade SM (sado-masoquista)
– citemos, a respeito, o romance Historia de I (2001) de Gaëtanne,
contraparte simétrica d’Historia de O (1954) de Pauline Réage – é a
sexualidade do amanhã, simplesmente porque a relação com o outro é
reduzida ao mínimo. O contato corporal é substituído pelo contato de
matérias e acessórios ; a relação erótica é reduzida à realização de
fantasmas pessoais, sem nenhuma consideração de um para o outro.
A tentação pornográfica
A dimensão sociológica completa a inversão dos estereótipos e
precisa que as mulheres abordem a representação do corpo sob o
ângulo pornográfico. Susie Bright abre esta perspectiva, afirmando
que o seu sonho é de « entregar a pornografia às mulheres para que
elas passem do papel de objeto para o papel de sujeito»
XIII . Graças à
sua iniciativa, foi publicado o primeiro compêndio de contos
eróticos escritos exclusivamente por mulheres, Herotica, publicado
em 1988 no Reino Unido. Na França, a feminização da representação
pornográfica com a produção de uma representação « bruta » do homem
foi realizada por Régine Deforges : do Obscuro objeto do desejo de Buñuel, passou-se para
Sublimos objetos do desejo, numa inversão do
título particularmente eloqüente. O compêndio Trouble de femmes
constitui uma espécie de contrapartida francesa da Herotica. Dez
autoras femininas, de Muriel Cerf a Françoise Rey, passando por
Nathalie Perreau ou Calixthe Beyala, produzem, cada uma, um conto
erótico novo. A apresentação do corpo do homem pela mulher descreve
uma evidência, por exemplo, no conto « Câblez-moi » de Katherine
Quenot, consagrado às fantasias de uma mulher que giram ao redor do
instalador de televisão a cabo vindo a seu domicílio. Invertem-se as
representações da fantasia : do fantasma masculino passa-se ao
fantasma feminino. Afasta-se, contudo, dos estereótipos ? A visão
mais propagada é a visão masculina ; os filmes eróticos, atualmente
produzidos pelas mulheres como Ovidie ou Laetitia, não escapam desta
visão unilateral. Sob a coberta de marketing, a imagem das relações
propagada é a mesma que transparência nos filmes realizados por
homens. Pode-se falar de progresso?
Os leitores não se deixam enganar tão facilmente por esta inversão
de representações. Christophe Bourseiller, no Os furiosos do desejo,
chega a falar de «autores carnais, que abrem as pernas com a mesma
facilidade de Annie Sprinkle », criando um gênero literário no qual
faz entrar Christine Angot, Virginie Despentes, Alina Reyes, Claire
Legendre, Françoise Rey ou mesmo Lorette Nobécourt
XIV . A descrição das
relações carnais por uma mulher é, segundo ele, um argumento de
vendas em termos de marketing literário. «Ser discreto no século XX
é uma escolha», sublinha Paul Ardenne no Corpus eroticus : «Como um
gesto de prevenção, a gente teria a tentação de declarar, gesto
contra o tédio, chamado cedo ou tarde a emudecer a orgia dos sinais
de sexo»
XV . Para Paul Ardenne, a passagem de um aspecto mais sádico
da descrição da sexualidade a um approach mais objetivo
XVI poderá ser
datado pelos anos 60 mais especialmente que surge a prosa de Alain Robbe-Grillet : um dos filmes de Robbe-Grillet intitula-se, não por
acaso, de exatamente, Deslizamentos progressivos do amor
XVII ? E Robbe-Grillet, em seus romances, procura distinguir claramente entre
erotismo, valorização do amor carnal e a pornografia, assimilada à
desvalorização das ligações carnais. Começando a colocar em cena o
erotismo de uma maneira diferente, o “Nouveau Roman”, nas produções
da década de 60-70 já tinha afirmado a necessidade de uma certa
distância ou pelo menos de um questionamento em relação às
modalidades da exposição do corpo; a meio caminho entre os livros
“limpos, referentes a um classicismo sem nenhum risco”, como
descreve Marguerite Duras no Escrever, e a exposição bruta.
Obtém-se, na produção de Duras O Amante, depois de O Amante da China
do Norte – como reação a colocação em imagem de J.J. Annaud – e o
romance do erotismo latente Moderato Cantabile.
Entre reivindicação e gesto artístico, entre exposição carnal e
sublimação, quando a aliança se realiza, quando o tom e a voz
corretos são encontrados a mulher consegue « contar » o homem: na
sua dimensão masculina e também ontológica, sobretudo quando a
descrição evoca o erotismo no relacionamento homem/mulher, como
realizou Anaïs Nin no seu Diário, quando ela apresenta a sua própria
versão dos acontecimentos bem, e como também realizou June com o
objetivo de restabelecer a sua versão dos fatos em relação às
figuras apresentadas por Henry Miller na Crucifixão Cor de Rosa.
O corpo masculino, quando ele é apresentado com amor -
«escrever é
um ato de amor; e quando não é, trata-se de simplesmente escrever»,
relata-nos Jean Cocteau no A dificuldade de ser – trata-se de um
vetor de transcendência porque o mesmo gera a aproximação das almas,
induzida pela aproximação dos corpos: « O nu é metafísico, ele expõe
o ser, no seio do acontecimento de alguém mais visível, completando
a visão realizando, isto é a visão contemplando-se a si mesmo uma
identidade de essência», explicita Dominique Weber no « O Nu »
XVIII
. No
L’amour, roman de Camille Laurens, a cena original na qual a avó
descobre a sua neta numa cena de felação com um homem « que se
assemelhava a Cristo » é a cena que coloca a questão: o que é o
amor? O verbo « conhecer » é assumido em sua concepção bíblica.
Conhecer o Homem, conhecê-lo no nível intelectual e sensual, por uma
transcendência partilhada: objetivo último, senão sublime, da arte?
I Francis Vanoye, «
Artistas e modelos », in Vertigo – Estética e história do cinema, n°
dedicado à temática« Feminino / masculino », Paris : Jean-Michel
Place, 1996.
II
Virginia Woolf, O quarto de Jacob (1925) in Obras romanescas, vol.
I, tradução de S. David, Paris, Stock, p. 9.
III
Sarah Wilson, « Transmissão, transição, feminismo e arte na França,
1970 – 1997 », in “Catálogo da exposição« Verdadeiramente –
feminismo e arte », Centre National d’Art Contemporain de Grenoble,
5 de abril a 25 de maio 1997, p. 40 – 41.
IV
Cf. site Internet : http//www.voyagerco.com/gg/gg.html.
V Barbey d’Aurevilly,
Les Bas Bleus (1878).
VI
Anne Garréta, entrevista realizada por Eva Domeneghini, 13 de
outubro de 2000, visível no site Internet
http://cosmogonie.free.fr/interview.html.
VII Béatrice Didier,
L’Ecriture-femme, PUF Ecriture, 3a edição, 1999,
Paris, p. 15.
VIII
François Pluchard dedicou um artigo a esta performance de Gina Pane
: « Le coup de poignard de Gina Pane », in Arte, um ato de
participação no mundo, Nîmes : Jacqueline Chambon (Critiques d’art),
2002, p. 210.
IX Cf. entrevista com Elise Vion-Delphin no site Internet : http://slhs.univfcomte.fr/corpsinventes/pages/artistes/AnnetteMessager/p1.html.
X Cf. Fabrice Gaignault, entrevista dada a
Elle , 4 de setembro de
2000.
XI
Cf. Éric de Kuyper, « A guerra dos sexos : corpos femininos e corpos
masculinos », in Stars au féminin – naissance, apogée et décadence
du star system, Paris, Ed. do Centre Pompidou, 2000, p. 33.
XII
Cf. George L. Mosse,A imagem do homem – a invenção da virilidade
moderna, 1996, coleção Pocket (Agora).
XIII
Citação de Christophe Bourseiller, Os furiosos do desejo, Paris, Denoël Impacts, 2000, p.217.
XIV
Ibid., p. 140.
XV Cf. Paul Ardenne, « Corpus eroticus », in
A imagen corpo – figuras
do humano na arte do século XX, Paris, Ed. du Regard, Paris, 2001,
p. 296.
XVI O aspecto sádico é definido com base da idéia da transgressão e do
proibido, usando o mundo de imagens sexuais como instrumento de
profanação.
XVII
Cf. Alain Robbe-Grillet, Glissements progressifs du plaisir,
ciné-roman, Paris, Minuit, 1974.
XVIII
Cf. Dominique Weber, « O Nu », in Magazine littéraire, dossiê sobre
o tema: « Filosofia e arte: o fim da estética?», n°414, novembro de
2002.
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