Jornal de Poesia

 

 

 

 

 

 

 

Rubenio Marcelo


 



O Livro, a poesia impressa e a web-poemática


 



 

A Poesia é uma das mais antigas formas de expressão do ser humano. O exercício poético é milenar e tem sobrevivido, sobreexistido altaneiro, testemunhando os tempos, materializando rebentos da supra-realidade, recriando sonhos e transcendendo os acontecimentos, inclusive as grandes guerras e outras catástrofes. Assim, entendo que, mesmo com todos os seus percalços, a boa Poesia sempre ostentará o seu lugar de realce (tomara que eu esteja certo!).

A verdade é que os leitores de poesia nunca foram muitos (e não vamos aqui discorrer sobre os motivos geradores deste fato). Mas enquanto existir na nossa humanidade grãos de percepção e polens de sensibilidade, a Poesia será eterna (queira Deus que eu não esteja enganado).

Minhas primeiras lembranças lítero-poéticas são várias. E vão desde as histórias, cantos e imagens dos meus pais, ou dos Irmãos Maristas cearenses que me recitaram os primeiros versos religiosos (quando estudava em regime de internato), passando pelas fábulas de Esopo e de La Fontaine, os singelos folhetos populares de cordel, até a poesia de Jader de Carvalho, Sânzio de Azevedo, José Alcides Pinto, Gerardo Mello Mourão e Yêda Estergilda (regionais), e Augusto dos Anjos, Castro Alves, Olavo Bilac, Gonçalves Dias, Bandeira, Pessoa, Drummond, Patativa do Assaré (universais) e tantos outros.

O meu ‘encontro’ com a arte poética surgiu naturalmente, revestido de uma espontânea tautocronia, que talvez tenha se estabelecido em mim – numa simbiose congênita – ainda muito antes da minha verdadeira percepção de Poesia. Assim, quando notamos, já estávamos ali – lado a lado – eu e ela, em integrações harmônicas nos desvãos da essência e em transcendentais périplos pelas sensações mais sublimes, ao sol-nascente das parábolas.

E os livros... Ah, os livros... Como poderia eu não destacá-los!? Se me vi convivendo com eles desde que me entendi por gente: numa época ainda não afeita à magia dos impulsos infoeletrônicos da web-hipertextualidade de hoje; se cresci junto com eles, no meio deles, numa empatia inata, aprazível e arrebatadora que me seduziu ainda menino, e – assim, quase sem querer (querendo!) – tornei-me um aficionado da leitura e um fiel admirador do delírio e magnetismo contido no substractum humanístico-filosófico dos impressos bibliográficos.

Eu, que desde cedo senti uma propensão muito forte pela poesia (mais até do que pela música, que veio posteriormente) posso garantir que os livros palpáveis me fascinam, pois fizeram (e fazem) parte do meu ser, preencheram meus dias, ampliaram meus horizontes, enfeitaram meu mundo e iluminaram minh’alma. E neste particular, eu estou plenamente com o escritor mexicano Carlos Fuentes: “O livro é um ser de carne e osso”, e fico sempre a lembrar Emily Dickinson: “Não há melhor fragata que um livro para nos levar a terras distantes”.

... Mas estamos no Terceiro Milênio, e não podemos deixar de reconhecer a importância atual dessa intersemiótica e hipermidiática tecno-poesia, essa desenfreada arte verbi-voco-visual que circula nos ‘sites culturais’ da internet. A grande vantagem dessa tal poesia virtual é a rapidez e a abrangência da sua divulgação, além do enriquecimento da sua apresentação e da interação ciberespacial dos poenautas, que conseguem ser lidos sem gastar quase nada.

Ao lado dessa ubíqua “linkeratura”, estamos vivenciando também, nesta era pós-moderna, os efeitos frenéticos e tecnossurreais da revolução da imagem, fenômeno este que eu encaro por dois prismas diferentes.

No primeiro caso, particularizando, pura e simplesmente, a fria expansão genérica das imagens – com as novas tecnologias que re/organizam feixes de elétrons através dos desvãos mutáveis dos cabos de fibra óptica e sintetizam inúmeros efeitos colaterais – vislumbro mais um obstáculo para a afirmação da poesia, devido à multiplicidade de opções de comodismo criadas e impostas ao alcance de muitos, e também em sintonia com aquele pensamento de Hugo Mauerhofer: “As imagens que enganam são fascinantes, mas nos transformam apenas transitoriamente; elas aliviam o fardo da vida cotidiana e servem de alimento à nossa mente empobrecida”.

Por outro lado, quando estas vigorosas técnicas visuais, cada vez mais aperfeiçoadas, aproximam-se e interagem com o universo das palavras e da arte (especialmente a poesia), podemos experimentar uma nova estrutura poética, tanto em nível prático como estético. Vale-se ressaltar também a possibilidade da criação de lumisignos polidimensionais edificadores de holopoemas e outros efeitos epistemológicos de linguagem literária.

Roland Barthes afirmou que “a ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir esta distância que a literatura nos importa.” Entretanto, não temos dúvida de que, a cada dia, a ciência mais se aproxima da arte (a nossa arte cotidiana do século XXI).

Portanto, não há negar-se a relevância desta livre e multifacetada Infopoesia (ou web-poemática) que ocupa atualmente um considerável espaço no cenário literário mundial. Só não devemos deslembrar é que no mundo da internet tem de tudo, trigo e joio, e também e-book.

O certo é que precisamos escrever. Precisamos escrever, buscando – com espírito iluminado e nobreza de caráter – manter a vitalidade da Poesia e a sua importância na Educação e no desenvolvimento da criatividade lingüística. Escrever para este público seleto e fiel, que anseia por palavras de afago espiritual e por plectros fecundos de beleza e primazia. Escrever com naturalidade, originalidade, precisão, harmonia, e com o maior respeito possível pelos desígnios ecléticos da arte-poesia e pelas plataformas inconvencionais das palavras.

Claro que necessitamos também de inspiração e técnicas para que possamos aflorar em versos aquelas profundas emoções que repousam latentes nas fronteiras do íntimo. E, assim, exercitar nos poemas a síntese da hermenêutica dos modos de ver, sentir, pensar e estar nesse mundo moderno e globa(na)lizado. O mais importante na função do ser que escreve não é a sua maneira de escrever ou o veículo da sua escrita, mas sim a profundidade da mensagem deixada, a justa conscientização voltada para a eqüidade, a ética e a humanização perfeita.
 

 

 

 

 

 

30/08/2005