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Rubenio Marcelo


 

Soneto moderno

 

Não venha contar as sílabas
Dos versos do meu poema;
Não venha medir com a trena,
Com a régua ou com a escala.

Poupe-me dessa empreitada;
Empregue seus teoremas,
Seus lemas e seus anátemas
Em “coisas estilizadas”...

Meus versos não ligam elos,
Não obedecem modelos:
Não têm essa finalidade.

O meu poema antiestético
Apenas afaga o espírito
E traz sensibilidade!

 

 

 

John William Waterhouse , 1849-1917 -The Lady of Shalott

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Rubens Ricupero

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Thomas Colle,  The Return, 1837

 

 

 

 

 

Rubenio Marcelo


 

O "Homo Futurus"



Preparem-se para conhecer brevemente
Uma nova e sofisticada espécie humana.
Será o "Homo futurus", certamente,
Que virá comandar nossa espécie tirana.

É que a evolução genética sente
A necessidade de uma mutação insana.
Por isso produzirá essa supergente,
Dotada de mentalidade pura e soberana.

E nós, Homo sapiens, espécie ultrapassada,
Cumpriremos tudo que o "Homo futurus" ordenar.
Teremos que respeitá-lo (oh sorte desgraçada!)

... Se os dias já eram amargos, serão mais duros;
Porém, pouco a pouco, tudo se transmudará,
E os débeis cérebros acatarão o "Homo futurus"!


*(Do Livro "Estigmas do Tempo", de Rubênio Marcelo)

 

 

 

Da Vinci, Madona Litta_detalhe.jpg

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Myriam Fraga

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Morte de César, detalhe

 

 

 

 

 

Rubenio Marcelo


 

Sonhos da beira do mar

 

 

Tocando os dedos nas cordas plangentes
Do meu violão, antigo companheiro,
Relembro meu vulto-menino fagueiro,
Brincando nas praias de areias ardentes...

Saudosos instantes, distantes, ausentes,
Que me inquietam e me deixam sem jeito;
Machucam, maltratam, martelam meu peito,
Torturam minh’alma com rijos tridentes.

É só nostalgia, cilícios medonhos,
Que hoje acompanham o meu caminhar;
E nessa agonia, meu ser-avatar

Palmilha, sem lar, caminhos tristonhos;
Cantando elegias que às vezes componho,
Lembrando meus sonhos da beira do mar!

 

 

 

Soares Feitosa, dez anos

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Ivan, 2003

 

 

 

 

 

 

 

 

Delaroche, Hemiciclo da Escola de Belas Artes

 

 

 

 

 

Rubenio Marcelo


 

A cruz de um adeus
(Soneto Inglês)


Já é madrugada. Estou pela rua...
Na trilha dourada dos olhos da lua.
No meu desvario, na minha tristeza,
Ainda aprecio a grã Natureza.

E assim, pervagando tal qual vaga-lume,
Aos entes sagrados faço meus queixumes.
Ao longe, o clarão dos astros em prumo...
E o meu coração errante, sem rumo.

A brisa vadia soprando com jeito...
E uma agonia tomando meu peito.
Estrelas cadentes brincando no céu...

E eu, decadente, andando ao léu.
Cometas pulsando pertinho de Deus...
E eu carregando a cruz de um adeus!

 

 

 

Ticiano, Flora

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Gustavo Dourado

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Rinaldo e Armida

 

 

 

 

 

Rubenio Marcelo


 

Êxtase


Na turgidez dos teus seios,
Minhas mãos encontram guarida...
Minha boca vaga, perdida
Em mil volúpias e enleios...

E nesse mar de anseios,
Tua boca esplêndida, cálida,
Desliza em mim e ainda
Sussurra, em devaneios,

Dizendo coisas sem nexo
- Na culminância do sexo -
Num frenesi muito louco!...

... E nossos corpos suados
Relaxam: enfim, saciados,
Pra descansarem, um pouco!...

 

 

 

Bernini_Apollo_and_Daphne_detail

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Aricy Curvello

 

 

31/08/2005