Jornal de Poesia

 

 

 

 

 

 

 

Rubenio Marcelo


 

A nossa cultura popular

 

A Cultura possui bens inigualáveis,
Arraigados com valores infinitos...
Nosso nobre Populário e seus ritos
Representam expoentes mais louváveis!

Suas celebrações inesgotáveis,
Seus cordéis, cantorias e os mitos...
Suas lendas, seus fabulosos ditos,
As canções, de movimentos notáveis,

São os pilares criativos, a raiz
Da memória genuína do país,
Cultuada pela nossa tradição.

E tudo é sabedoria de um povo;
Flama ardente emanada do renovo
Que habita nosso espírito em profusão!
 

A Cultura Popular é um magnífico tesouro que enobrece a alma do nosso país, encantando e dando lenitivo aos nossos corações. Ela abrange um elenco de manifestações que fazem parte do cotidiano do povo; um relicário de valores expressivos que vão se perpetuando através das gerações, e alimentando a memória viva da nação. Aqui, daremos enfoque especial a uma das principais expressões culturais da nossa população, a Literatura Popular.

No riquíssimo elenco destas produções artísticas distinguem-se dois gêneros muito comuns no Nordeste do Brasil e nas cidades para onde migraram filhos desta importante região. Neste contexto temos “a cantoria de violeiros”, que é a poesia oral, cantada e improvisada de repente, acompanhada pela viola-plangente-nordestina dos cantadores repentistas; e a “literatura de cordel”, ou simplesmente cordel, que é a versão escrita dos versos populares.

Esta literatura popular expressa em versos apresenta-se – desde a sua origem no nosso país – no formato de livretes, conhecidos como folhetos ou romances ou ainda folhetos de trovador. O nome Cordel foi originado pelo fato de os autores, os poetas populares, exporem originalmente essas suas obras – os singelos opúsculos de poesia narrativa, com capas ilustradas pelo processo artesanal da xilogravura – pendurados em cordões, cordas ou barbantes, nos mercados, praças e feiras. Atualmente, com o avanço da tecnologia e a grande aceitação da literatura de cordel, esta prática está quase fora de uso e podemos já encontrar esses folhetos, compostos de maneira bem mais sofisticada, até em renomadas livrarias do nosso país. É a feliz constatação da cultura de massas eliminando as separações entre os estratos sociais e interagindo harmonicamente o simples-belo-popular com a cultura de elite (o público aburguesado); o Brasil caboclo em consonância com o Brasil intelectualizado (a exigente tradição letrada).

Atualmente, acompanhando o processo de globalização e de abertura do modelo cultural, o Cordel é estudado e pesquisado, com grande interesse, nos meios acadêmicos; debatido em ciclos literários e até em conferências mundiais de folkcomunicação. Renomadas universidades, como a Sorbonne (da França) e a UCLA (Califórnia), têm o Cordel como tema de estudo.

A literatura de cordel, que existe desde os tempos medievais na Península Ibérica, começou a ser divulgada na região Nordeste do Brasil nos séculos XVI e XVII, trazida pelos portugueses. Em Portugal, esta categoria literária era conhecida como folhas soltas ou volantes. Na Espanha, era chamada pliegos sueltos. Na França, littèratue de colportage. E na Inglaterra, chapbook.

Tendo sido transplantada para o nosso país pelos colonizadores lusitanos, esta manifestação popular, de universo semiótico multiface – o Cordel – evoluiu independente e diversamente, num fecundo processo de mestiçagem cultural, originando uma literatura com características marcantes e próprias – a nossa literatura de folhetos. Este cordel brasileiro, que se fixou no Nordeste com o aparecimento das pequenas tipografias, firmou-se efetivamente – juntamente com a cantoria –, segundo os pesquisadores, no final do século XIX, definindo peculiaridades admiráveis, como o capricho pela métrica, rima e oração (desenvolvimento coerente de um assunto), além da diversidade de temas escritos, na maioria das vezes, em sextilhas (estrofes de seis versos ou linhas), setilhas (sete versos) ou em décimas. Nos dois primeiros casos (sextilhas e setilhas) as linhas são formadas geralmente por versos de sete sílabas poéticas (cada verso aqui é chamado de redondilha maior); já nas décimas ou glosas, temos versos decassílabos (heróicos: dez sílabas poéticas), versos de onze sílabas (arte maior) e, raramente, versos dodecassílabos (alexandrinos: doze sílabas).

Podemos mencionar como pioneiros nesta tradição, no nosso país, os poetas populares nordestinos Agostinho Nunes, Ugulino de Sabugi, Silvino Pirauá Lima, José Duda, Francisco das Chagas Batista, João Martins de Athayde e Leandro Gomes de Barros (paraibano – de Pombal – que faleceu em 1918, deixando uma incrível produção de mais de mil títulos de cordéis).

Não podemos falar de Cultura Popular sem destacarmos uma referência especial para Antônio Gonçalves da Silva, o “Patativa do Assaré”.

Mesmo com os constantes progressos tecnológicos do terceiro milênio e o avanço incansável dos meios de comunicação, o Cordel tradicional continua – em pleno século XXI – como uma produção editorial firme e forte, presente de Norte a Sul do nosso país, e conquistando cada dia mais a admiração e o respeito do público em geral (inclusive estudiosos e colecionadores eruditos). Atualmente, a Internet também propicia um maior espaço e dinamismo para a divulgação de trabalhos de grandes e modernos poetas/cordelistas, servindo, assim, como fonte imediata de ampla difusão da apreciadíssima arte cordeliana.
 

 

A SAGA HERÓICA DO CORDEL
(Ou “O Cordel em Cordel”)

                                                                 *RUBENIO MARCELO

Está com mais de cem anos
A nossa Literatura
De Cordel, que no Brasil
Já é parte da Cultura;
Seu legado traz renovo
À alma do nosso povo,
Qual chama ardente e pura!

Está vivinho da silva
O nosso belo Cordel;
Já é tema de mestrado,
Estudado com laurel;
Cada dia, aumentam mais
Os prestígios triunfais
Do cantador-menestrel!

Cordel é luz, é paixão,
É uma réstia de paz!
É esta grande alegria,
Magia de encanto assaz;
Cordel é flama-canção
Que brota do coração
E flui em tons divinais...

Tem um luso parentesco
Este canto popular.
A Escola Gil Vicente
Ficou famosa além-mar;
Dela cito Afonso Álvares
Com o Ribeiro Tavares
E o cego Baltasar.

Lá, na Corte Portuguesa,
O El-Rei, grande senhor,
Foi, do nobre populário,
Ilustre admirador;
Sendo, assim, leitor fiel
Dos folhetos de Cordel
E das sagas de amor.

Em Provença, sul da França,
Trovadores e jograis
Já recitavam cordéis
Para os senhores feudais.
E o Monarca Dom Diniz
Foi um discípulo feliz
Dos vates provinciais.

É também dos Colportage,
– Literatura Francesa –
E inda dos pliegos sueltos
Ibéricos, com certeza,
A fonte inspiradora,
Energia geradora
Do Cordel da nossa mesa.

Aqui, no nosso país,
Os primeiros cordelistas
Foram Leandro de Barros
E o Francisco Batista;
Também devo ressaltar
O Silvino Pirauá,
Que foi também grande artista.

Foram esses nordestinos,
Com outros lá do sertão,
Que difundiram Cordel
Para toda a Região.
Depois, pra São Paulo, a mil...
Enfim, pra todo Brasil:
Celeiro de tradição!

Cordel, folheto ou romance:
Popular Literatura!
Comunicação de massa
Que até hoje fulgura;
Páginas em parcos papéis;
E as capas, artes fiéis:
Clichês ou xilogravuras.

Vou agora relembrar,
Numa pungente emoção,
Títulos de alguns cordéis
Que formavam a coleção
De Nenzinha Oliveira,
- Cantadora brasileira -
Mãezinha, do coração!

Lembro quando ela cantava
“A Sina de Lampião”;
“Pelé na Copa do Mundo”
e “Brasil, Tri-campeão”;
“Bocage em Disparate”,
“Camões e o Grande Debate”,
“Juvenal e o Dragão”.

“A Donzela Teodora”
e “O Sofrimento de Alzira”;
“Posseiros do Maranhão”
e “A Bela Índia Potira”;
“Peleja de Riachão
Com o Diabo no Sertão”
e “A Origem da Mentira”.

“As Proezas de João Grilo”;
“O Nordeste sem Inverno”.
“O Príncipe do Barro Branco”
e “Paraíso Moderno”;
“A Princesa Encantada”
e ainda “A Chegada
De Lampião no Inferno”.

Sempre disse e reafirmo:
Respeito o bom cantador!
Pois carrego nas artérias
O escarlate licor
Da Cultura Popular,
Que é meu mel, meu manjar,
Imuniza-me da dor!

Qual sangue na minha veia,
O Cordel nutre meu ser.
Seus matizes pueris
Presentes no meu viver,
Sublimam meu coração.
Mostram-me sempre o perdão
Em cada amanhecer.

O Cordel é relicário
Que guarda reais valores;
Seu universo acalanta
Artistas e Cantadores
Altivos, cheios de brio,
Versando horas a fio
Em repentes multicores.

A Cultura Popular
Com sua desenvoltura
Já deu ao mundo das artes
Iluminadas molduras...
Por isto, em motes celestes,
Aplaudo e saúdo os mestres
Da Folk-Literatura.

Os enlevos cordelinos
Habitam a nossa essência;
Desafiam os tratados
E os desígnios da Ciência.
O menestrel-genuíno
É, com o seu dom divino,
Herdeiro da Providência!

Ó Divino Rei do Estro,
Jesus, ó Supremo Artista,
Iluminai os caminhos
De cada um cordelista;
Amparai seu galardão,
Seu plectro, sua criação:
Condão, Cordel altruísta!
 

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(R) RUBENIO MARCELO
(Membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras)
rubmarcelo@bol.com.br

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OBS:
Obra constante do Livro “O Reino Encantado do Cordel – A Cultura Popular na Educação”, de Rubenio Marcelo, e registrada na Fundação Biblioteca Nacional (Ministério da Cultura - Escritório de Direitos Autorais) sob o nº 332.220 – Livro: 609 – Folha: 380 .
ISBN 85.87452-20-7


 

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14.09.2005