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Paulo Franchetti


 

 Beleza maculada

(por um poema de Hopkins)


Glória ao Criador pelas coisas machucadas,
Pelas veias partidas nos casais de ocasião,
Pela mancha rosa, toda pontilhada
De pequeninos sulcos, chagas em botão ‑‑
Pelo vago rubro vergão na carne clara,
Pela unha que arranha a coxa fugitiva,
Um peixe a fugir, surpreendido, sob anáguas ‑‑
Pela pele rompida, logo remendada,
E por toda ferida de amor,
Incendida e acariciada.
Todas as coisas em excesso, vulgares, interditas
(Sangue doce, restos de saliva,
Dobras nítidas do ventre envelhecido),
Quem produziu isso tudo foi Aquele
       Cuja beleza é imutável:
       Que a glória seja d'Ele!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Venus with Organist and Cupid

 

 

 

 

 

Paulo Franchetti


 

Conímbriga


Desde longe agora esse telhado de metal
Submetendo os campos;
À calma cor das oliveiras sucede o gesto novo.
E nos tijolos vermelhos
A velha pachorra dos mortos
Vai esquecendo o tempo angustiado,
Em que ao longe o alarido,
E cada vez mais perto,
O fim.

Sob o céu azul de uma tarde de maio.

 

 

 

Leonardo da Vinci, Embrião

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Alvaro Seiça Neves

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Bathsheba

 

 

 

 

 

Paulo Franchetti


 

Pound


As palavras brutalmente combinadas,
Em fúria se estendendo ao fim da linha,
Voltando à esquerda, rugindo em diagonal,
Ó infâmia, avareza, confusão imunda dos leitores de jornal!
O ódio com que tudo se chocava contra as paisagens do oriente,
As margens do passado, ó China,
Andanças, menestréis: pilhagem aos tesouros.

Você sempre orgulhoso, como um bom selvagem exibindo despojos de saque e de matança:
palavras como marteladas, juízos como execuções.

E tudo isso tinha de o levar por fim (feliz e constrangido)
aos braços também enormes, calorosos,
de Walt Whitman.

 

 

 

Octavio Paz, Nobel

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Donizete Galvão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Empire of Flora

 

 

 

 

 

Paulo Franchetti


 

Alba


Entre os lençóis os seios,
Erguem na penumbra os seus dois sóis rosados.
Nos cabelos, os úmidos da noite.
E o resto é sombra
Que se mistura noutras sombras.

Num canto, sobre um móvel,
A forma vazia do sutiã,
Aérea e alvacenta,
É o único testemunho
Da chegada da manhã.
 

 

 

John William Godward (British, 1861-1922),  A Classical Beauty

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Ana Peluso

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Nurture of Bacchus

 

 

 

 

 

Paulo Franchetti


 

Manhã


Lentamente, foi se afastando da praia.
Estava amarrado, e depois, em um segundo,
Oscilava livre e ia sendo recolhido pela maré vazante.
Era um bote pequeno,
Mas mesmo assim teria demorado até que desaparecesse.

No alto mar, ao sabor das correntes que o arrastaram por dias, deve ter recolhido a chuva
E deve ter secado ao sol,
E a água que foi penetrando pela borda
Ao meio‑dia deve ter deixado um rastro brilhante de sal sobre os dois bancos
E nas dobras da madeira velha do fundo.
Depois, talvez numa noite de chuva,
Primeiro uma onda o alagou até o meio.
Em seguida, balançando mais lento, foi aos poucos coberto pela água.
Como não afundasse, assim ficou vagando,
Até que se desfez em partes,
Uma das quais é esta, que agora
Está quase enterrada na areia.

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Mignon Pensive

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Márcio Catunda

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Rinaldo e Armida

 

 

 

 

 

Paulo Franchetti


 

Parede


As ruas desta cidade são poucas.
O mar, logo ali, é um muro frio.
De manhã cedo, gaivotas.
E noite alta, alguns velhos
Que se amparam ao sair do bar.
Como ontem, hoje é lua cheia.
Ao deixar a rua principal,
Caminhando de volta para casa,
Ela é uma grande lanterna
Contra a qual se estendem
As árvores já secas.

 

 

 

Rafael, Escola de Atenas, detalhes

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Efer Cilas dos Santos Jr