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Paulo Franchetti 

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Thomas Colle,  The Return, 1837

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Slave market

 

Titian, Noli me tangere

 

 

 

 

 

 

 

Alessandro Allori, 1535-1607, Vênus e Cupido

 

 

 

 

 

Paulo Franchetti



Boca da noite


A tarde é enevoada e indistinta.
(Muito enevoada, muito indistinta.)
Contudo há nela imagens,
(Contudo há nela vultos,
Que se agitam e brilham.
Sob a luz opaca,
Sob a luz difusa.)
Uma após outra vêm, e vão --
E não se sabe de onde,
Não se imagina para onde
Ou para quê:
Um velho
Chupando espinhas de peixe,
Um homem velho, um homem
Muito velho
Coberto de pó escuro
No fundo da minha mente
(Onde as palavras naufragam
E sobre elas se abate
Um sopro de lua gelada).

A lembrança agora
É apenas confusa
Agitação de entranhas.
E assim como o vento
Passa debaixo da porta,
Pelo caixilho da janela,
(Entre os vidros, levantando
Uma quase invisível poeira)
Assim o corpo respira,
Aqui e ali suspeita,
Imagina ou entrevê:
O que pode ser falado
Ainda não é o que devia
Ser pensado.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Vinci, La Scapigliata, detail

 

 

 

 

 

Paulo Franchetti



O quase-morto


Com um longo esforço, pode ver o quarto.
Sem a inflexão do imaginário, molhado de saliva,
Escuta os passos rangendo no ladrilho.

Talvez a lua seja o halo na janela,
familiar e branco,
enquanto o som dos pratos e talheres
se estende como artigos de inventário.

Todos os dias, várias vezes por dia,
o desejo daquela hora,
aquela dor pequena, e volúpia.

Acha que agora está feliz, branco de poeira,
imóvel numa estepe necessária e obscura.
O cômodo mergulha na penumbra.

Os animais são nomes que viajam pelas plantações.
 

 

 

 

William Blake (British, 1757-1827), Christ in the Sepulchre, Guarded by Angels

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Alberto da Costa e Silva

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caravagio, Tentação de São Tomé, detalhe

 

 

 

 

 

Paulo Franchetti



epitagmata epitattein


estes poucos cabelos,
este gesto,
esta úlcera
e as coisas de praxe:
uma fita, este brilhante
palavras,
discos, móveis,
automóvel,
óculos
e o que quiser mais
desde que de novo
abaixe
docemente
o rosto
a nuca fique em abandono
a carne em desmaiada espera
fingindo
embora ou a valer
que a mesma dor
é o prazer
de dar prazer:
volúpia de perder,
vibrando apenas,
por um instante,
sob o rápido
e amoroso
golpe.
 

 

 

 

William Blake (British, 1757-1827), The Ancient of Days

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Raquel Naveira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Franz Xaver Winterhalter. Portrait of Mme. Rimsky-Korsakova, detail

 

 

 

 

 

Paulo Franchetti



Acteon – eleição de um sepulcro
 

(por um trecho de Pound)


Água partida junto à foz do arroio,
Calcanhares brancos sobre a areia.
Água empoçada, vaga-lumes,
Ruído de passos percorrendo a noite.

Estrelas, luzes sobre luzes,
Lua fluindo pra dentro da água.
Pinheiros e ciprestes na colina,
Árvores que fugiam pelo ar.
 

 

 

 

Soares Feitosa, dez anos

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Claudio Willer

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Delaroche, Hemiciclo da Escola de Belas Artes

 

 

 

 

 

Paulo Franchetti



Leda

(por um poema de Yeats)
 

Enquanto o bico corta a carne da nuca
E o sangue colore o fio da coluna,
Os rins se erguem numa entrega inerte
E as pernas se separam, já dormentes.
Seio contra as penas, mal as membranas lhe tocam
A pele da barriga.
As grandes asas prefiguram num momento
A glória de Tróia e as tardes de outono sobre os campos e os trigais
E de súbito se afastam,
Agitando as folhas do carvalho,
Enquanto ela dorme, lacerada e confundida,
As mãos inúteis jazendo sobre o chão.
 

 

 

 

Da Vinci, Cabeça de mulher, estudo

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Clotilde Tavares

 

 

02/02/2005