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Márcio Catunda


 

Estigma


Por mais que te desdobres em controles,
inspeções, suspeitas, ameaças, espionagens,
não poderás apagar o estigma.
Por mais que exerças arbítrio sobre os excluidos,
submetidos, algemados,
não poderás apagar o estigma.
Por mais que argumentes com estratégias,
calcomanias, supremacias, invulnerabilidades,
agressões, transgressões e desvarios,
não poderás apagar o estigma.
Por mais que espanques, abuses, violentes, esfoles,
que apliques choques elétricos,
que arranques unhas e olhos,
que globalizes a intolerância e a hemorragia,
não poderás apagar o estigma.
Por mais que proliferes feras, pragas, dragões,
por mais que multipliques espadas de fogo,
tentáculos, abominações, garras de fúria e mentiras
nunca poderás apagar o estigma.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Rinaldo e Armida

 

 

 

 

 

Márcio Catunda


 

Incitação ao não-combate


Sabes tu, soldado néscio,
que essa metralhadora te tornará um homicida?
Sabes o que colherás por matares os teus próprios irmãos?
Sabes tu, soldado néscio,
que com cada tiros que disparas
assumes a condição de assassino?
Sabes que foste treinado para cometer crimes,
para ser um infrator de códigos penais,
réu perante as leis humanas e divinas?
Não te envergonha, soldado néscio,
carregar essa metralhadora com que privarás de viver
um semelhante teu?
Que a morte da tua vítima pode ser a morte de órfãos
que padecerão fome e desespero?
Que pagarás por todo sofrimento causado às famílias enlutadas, [cuja dor
com igual intensidade sentirás um dia?
Não te impressiona o choro convulsivo das viúvas e mães
por causa de teus disparos?
Não desconfias de que o teu gesto produzirá miséria e doença
e que és responsável pelos cadáveres que forjares,
pela infâmia que semearás com tuas tristes mãos,
essas mesmas mãos que deram pão e vida a teus filhos,
à tua mulher, aos teus irmãos?
Não te comove a expectativa de que te matem
e seja tua família relegada ao abandono e à pobreza,
que teus filhos ou tua mãe estejam rezando ou chorando,
Ó insensato imbecil?
Acaso não tens sentimento, és uma máquina,
uma máquina de matar?
Mas se tens a mínima consciência
de que produzes a tua própria desgraça,
de que é uma tragédia partires do teu lar
rumo a uma terra ensanguentada,
em obediência a monstros odientos,
e se te reconheces um pária louco,
manipulado por megalômanos idiotas,
submisso a esses enganadores,
livra-te dessa escravidão maldita,
permite a ti mesmo a trégua definitiva,
volta-te a teu próprio juízo,
pára de proceder alucinadamente!
Verás quanto alívio em despojar-te de tão miserável fardo!
Verás que o teu maior triunfo poder ser a deserção!
Teu mais inteligente ato, recusar a violência!
Teu único heroísmo será abominar as armas,
e com a vitoriosa coragem de deixar viver,
ajudarás a repartir víveres
e abraçarás os que costumavas ver como inimigos.
E só então vencerás verdadeiramente,
pois desempenharás a missão mais alta
de cuidar das feridas que provocaste.
Consolarás os que afligiste,
e te perdoarás pelos crimes que perpetraste.
Depois, regressarás gloriosamente ao teu país,
guardando uma recordação da terra inóspita
onde te mandaram guerrar.
E já não serás um soldado néscio.
Serás um herói da paz.
 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Admiration Maternelle

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Adail Sobral

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jornal de Filosofia

 

 

 

 

 

Márcio Catunda


 

A síndrome de Caim


Vê como nós compramos a ouro
essa carnificina de alhures!
(A televisão mostra um homem ensopado de sangue,
que rola no chão e grita,
enquanto explode um fogo ao redor de uma Igreja).
Mataram índios, massacraram negros,
aniquilam corpos e almas.
E aqui se macaqueia a psicose fascínora.
Assimilemos a paranóia deles,
o sado-masoquismo.
Querem que o mundo aprecie a horripilância,
abominação insana.
Não há um só filme sem tiroteio e espancamento.
Ou que não seja história de corno,
de prostituta e de sindicatos do crime...
E aqui semeiam cizânia e disseminam peçonha.
Querem que nos imbecilizemos,
que nos destroçemos uns aos outros
em guerras fomentadas pela loucura deles.
Vê como milhões de criaturas são assassinadas.
Eles financiam o fratricídio:
perigosíssimos débeis mentais,
estam enfermos.
A doença?
A síndrome de Caim.
 

 

 

Michelangelo, Pietá

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Deise Assumpção

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ingres, 1780-1867, La Grande Odalisque

 

 

 

 

 

Márcio Catunda


 

Conclamação


Até quando suportaremos o império da violência?
A humanidade se desvairou?
Prevalece a força bruta,
o desmando, a cegueira espiritual?
Estamos no labirinto da inconsciência.
O intolerável caos em que imergimos.
Quem tem coragem de dizer não a essa desordem?
Tristeza imensa ver o planeta arrebatado por farsantes.
O mundo rendido à desgraça,
multidões sem emprego, sem terra, sem teto!
O crime como revolta dos ignorantes.
Pior é a situação dos que não podemos nos revoltar
e nem nos conformar.
Assistimos à tragédia com a parcimônia dos imbecis.
Uma cachorrada de proporções mundiais.
Nessa inércia forjada a ferro e fogo,
nesse consenso absurdo de opressão,
diante da perversidade, da usura diabólica,
da soberba exploradora,
vale a pena acreditar na união dos marginalizados?
Quem expandirá luz sobre o oceano de treva?
Erguer o gládio da instrução contra o vampiro.
Frear esse atrevimento de tentáculos e garras.
Raça de hipócritas, canalhas! Biltres!
Quando veremos a derrocada desses monstrengos abomináveis?
Quem profetiza a transmutação do povo amesquinhado,
a metamorfose da consciência?
Quem proclama o aniquilamento da calhordice,
em nome de um objetivo superior?
 

 

 

Rafael, Escola de Atenas, detalhes

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Nicodemos Sena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Thomas Colle,  The Return, 1837

 

 

 

 

Márcio Catunda


 

Desmantelos


Embora não haja uma guerra civil declarada,
a cada minuto são assassinadas dezenas de pessoas.
A criminalidade, seqüela fatal do sistema político mundial,
tem nas elites a conivência mais ambiciosa.
Crianças pedindo esmola, sem instrução, sem lar,
sociedades sem cultura,
dói na alma ver a injustiça e calar.
Dói ver chacina e falcatrua.
Quem ditou essa desordem?
Quem vem desfazer o malfeito?
Quando é que se poderá andar nas ruas sem medo?
Quando é que acabará o tiroteio?
Todo homicídio é um crime duplo:
o assassino, ao matar, mata a si mesmo,
exceto quando mata Ghandi, Lennon, Lorca,
espiritos infinitamente superiores.
Nesses casos é como se matassem a própria humanidade.
 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, David, detalhe

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Ronaldo Cagiano

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Morte de César, detalhe

 

 

 

 

 

Márcio Catunda


 

Mercado


Não há poesia nos jornais.
A poesia não tem valor no mercado.
Não há literatura na televisão.
Só o dinheiro tem lugar na mídia.
Violência dá dinheiro.
Tortura e terror dão dinheiro, são competitivos.
Quando o tempo não for mais abstrato
hão de anunciá-lo nas bolsas,
privatizá-lo e levá-lo ao tribunal das controvérsias
para que algum energúmeno pretenda ser dono da patente.
 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), The Pipelighter

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José Valgode

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Frederic Leighton (British, 1830-1896), Antigona,detail

 

 

 

 

Márcio Catunda


 

Circo


Que prodígio! Que fenômeno!
Venham assisitr ao idiota inteligente.
Venham ver o oráculo demente,
o mágico que, travestido de morto, saboreia o coveiro.
O manhoso palhaço mutreteiro,
bufão que se crê preponderante.
Venham ver o tropel de especialistas
em desobedecer à natureza!
Venham ver a oligarquia de aduladores.
O nepotismo disfraçado de vezo aristocrático.
A intriga como empuxo ascensional.
 

 

 

Aurora, William Bouguereau (French, 1825-1905)

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Luiz Edmundo Alves