Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

 

 

 

 

 

 

 

Albrecht Dürer, Germany, Study of praying hands

 

Mary Wollstonecraft, by John Opie, 1797

 

 

 

 

 

 

 

 

Allan R. Banks (USA) - Hanna

 

 

 

 

 

 

Mantovanni Colares


 

Impressões impressas de “Títeres de Ninguém”

 

 

Correr os olhos por TÍTERES DE NINGUÉM, de Valdir Rocha, não só impõe o alumbramento pela trincheira das palavras devidamente encadeadas – embora mui a propósito o estilo de sua poesia concreta possa induzir o leitor a uma falsa percepção do emaranhado de letras desconexas –, como também nos dá a sensação de que, para ser poeta, é necessário fazer-se a partir das entranhas.

As frases introdutórias representam a tesoura afiada a cortar sem maiores traumas os fios que porventura suspendam a cabeça, mãos, joelhos e pés de um boneco articulado que possa vir a ser o leitor. Sim, porque o substantivo títere quer dizer justamente fantoche, marionete. E ser títere de ninguém é abandonar as linhas condutoras do vício dos manejos de quem guia. Afinal, ser poeta é negar a possibilidade de não ter posições próprias; não se é  impunemente poeta sem liberdade.

Cortamos os fios com imenso sabor, ao assimilarmos que  “ninguém sabe o que é. O que se sabe não se diz. O que se diz não se vê.” (Lindolf Bell), ou  que “em prosa é mais difícil de se outrar.” (Fernando Pessoa), e mesmo quando aprendemos que  “as coisas já nascem com um nome. Nós é que o descobrimos...” (Carlos Nejar)

São muitas as sensações nesse caleidoscópio ritmado que Valdir Rocha, de modo sorrateiro, nos faz perceber, anunciando que “falta a palavra rara/ e que virá ou veio/ - com certeza –/ qualquer dia” (Adivinho), e soltando ao vento o grito de liberdade, ao suspirar que “sou praticante infiel e assíduo/ do desescutar” (¿Palavras?).

Os enigmas correm soltos pelo delicioso caminho poético,  e quase sentimos a perfeição de nossa finita paciência e infinda procura das sensações correntes, quando o poeta diz “Soube a palavra certa,/ exata,/ mágica,/ poderosa,/ abridora./ Guardei-a com todo zelo:/ fiz o melhor que pude,/ para esquecê-la,/ completamente” (Boca cerrada).

Então Valdir Rocha é isso; um isone que se põe “aceso no meio da noite” e não dorme porque não quer. Lapida a palavra rude, e não tem medo de afirmar que “ninguém respira e instala a aliança dos contrários”. O notívago percebe que “na noite escura e alta,/ enxerga-se melhor/ o que não é de ser olhado”.

O Prisioneiro do espelho é um dos momentos sublimes do poeta que não se aceita fantoche dos fios por vezes emaranhados das circunstâncias. Não vale transcrever aqui o poema. O leitor terá que saborear os versos com o impacto da primeira miragem no espelho cristalino das neo-emoções. E de preferência, ainda sob a respiração presa do verso recém-deleitado, recomenda-se a leitura imediata de Resignado.

No final – a lamentar que toda viagem chega ao fim, até a surreal no mundo aprisionador da poesia –, o leitor poderá entender melhor o nascedoiro de tantos versos. Marola Omartem conta a história de como a idéia do artista se fez prenhe de lirismo.

Em paz com a versão oficial, ainda assim meus olhos batem naquele que talvez seja o escrito-germe dessa cachoeira de emoções. Refiro-me a Tradutor, que desnuda a alma desse magnífico melhorador de vinhos e fatos, aguçando os sabores da moderação com o devido exagero. Ele diz que coisa o nada, e tira para acrescentar. Só aí entendemos que, imantados de forma despercebida pelos seus versos, nos tornamos os títeres de alguém chamado Valdir.

 

Valdir Rocha

Link para Valdir Rocha

 

 

Helena Armond

 

Maria Azenha

 

 

 

 

 

 

 

 

Riviere Briton, 1840-1920, UK, Una e o leão

 

 

 

 

 

 

Mantovanni Colares



DESAFIO

Amiga, teu corpo é como uma sombra quente
Vinícius de Moraes


Há um muro
E é preciso transpô-lo, inda que alto

É impossível ver o que existe
Por detrás do muro, e mesmo assim
Sinto o perfume de descobertas mil
A redobrar meus ávidos sentidos

Não há vozes na retidão emparedada

Ouço porém gargalhadas sonoras e vivas
Chegando a mim como dádivas anunciadas
No frescor de uma intensa primavera

E quando me dou conta da horizontal
Posição em que me encontro,
Muda o significado do que vejo, pois
Percebo que deitado estou, deitado no chão

E ao mirar aquela vertical parede
Só então compreendo que o muro não é
Assim tão alto, na verdade basta
Erguer-me e será fácil passar além

Para ficar de pé, entretanto, vacilo

Há sabor de transgressão no súbito gesto,
Como se o desejo e o medo fossem cúmplices
Até o instante em que eu me decida soerguer

Há um muro
E é preciso transpô-lo, mas eu
Necessito de um sinal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jacques-Louis David (França, 1748-1825), A morte de Sócrates

 

 

 

 

 

 

Mantovanni Colares



IN VERSO

“Decerto, os homens resistem em vão;
rangem os dentes, mas seguem
inteiramente nus para o túmulo”

João Calvino – segundo sermão acerca de Jó.


Chegamos nus ao mundo
E dele nos despedimos
Em vestes, quando o inverso
Talvez fosse mais legítimo

Começaríamos esta existência
Adornados em galas de anunciar
O viver, e findaríamos
Nossa jornada sem pretensão
Alguma de levar trajos da vida
Ao eterno e despido silêncio.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Winterhalter Franz Xavier, Alemanha, Florinda

 

 

 

 

 

 

Mantovanni Colares



ENTRELINHAS

“I see friends shaking hands
saying “how do you do!”
They’re really saying “I love you”
(Eu vejo os amigos a se cumprimentar,
dizendo “tudo bem?”, mas na verdade
eles querem dizer é “eu amo você”)
What a Wonderful World
Lyrics and music by Thiele Weiss


O amor está nas entrelinhas

Contido em versos não escritos
Vazado em poemas nunca ditos
Espremido em sons indecifráveis

Quando você for à rua, esqueça
Esse seu pobre olhar objetivo
Aquele que só enxerga
Formas e cores, e passe a
Sentir as abstratas mensagens que
Inundam a vontade do amor corrente

É o amor que escorre nos gestos
Mínimos, em acenos econômicos de amigos
Nos cantos dos lábios que aos poucos sorriem
Nas mãos que se empolgam com espaços vazios
E quase sempre se recolhem no auto-abraço

Porque o amor não exige palavras vãs
E se molda aos contornos das experiências
Transformando o simples olhar meigo
Na mais profunda sensação de desejo

E esse amor está presente em cada dia
Basta procurar seus caminhos vários

Amor de entrelinhas
Entre gestos
Entre espaços
No meio da vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mantovanni Colares



RELÓGICO

¡Ay qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!

(La Cogida y la Muerte. García Lorca)


Quando menino
Às três horas da tarde, me parecia que
O mundo inteiro estava feliz

Nessa hora, achava-me geralmente no
Quintal da casa da infância, a
Brincar na lavanderia, que me
Parecia um enorme oceano onde
Barcos singravam sem rumo ou destino

Sempre às três horas da tarde
Eu sentia ali a própria felicidade, e o
Engraçado é que sequer portava relógio

Porque nesse tempo o adorno de pulso
Era privilégio dos já crescidos

Sabia eu, porém, a exata hora, eis que
O sol me anunciava a mediação
Entre o início e o fim do entardecer - era
U’a sensação única aquele calor nas
Costas a não incomodar; um afago de
Saudação do astro-rei

Três horas da tarde, dizia então sorrindo

E porque eu me encontrava invariavelmente
Feliz, achava por bem que assim todo
O mundo se pensava naquele instante

É que, para mim, o relógio marcava a
Felicidade, a chegar sempre às três horas
Da tarde. Era lógico, tão lógico que
Nem duvidava da óbvia certeza

Só muito tempo depois, quando
Três horas da tarde passou a ser mero
Referencial de pesarosos compromissos
No enfadonho mundo dos adultos,
Descobri que a felicidade não é
Transportada por relógios

Senão o medidor de felicidade seria um
Relógico, onde os ponteiros só marcariam,
Invariavelmente, três horas da tarde.


 

 

 

 

 

 

09.01.2006