Amigo Leitor,
os dias
De hoje são diferentes.
Ainda temos repentes,
Ainda temos Cordel.
Ainda existe alegria
De se ler boa poesia
Escrita em bom papel.
Porém, o que tem mudado
Eu falo aqui, sem temor,
Não é o som, nem a cor
Da arte de antigamente.
É a ferramenta, Doutor
O tal do
computador
Que faz as coisas pra gente!
Não se escreve mais à mão,
Nem com Datilografia.
Findou-se, pois, a magia
Do artesão-escritor!
Por um bom tempo eu lutei
E quase que recusei
O tal do computador!
Mas, enfim, ele venceu
E eu me rendi, conformado.
E um Cordel - digitado! -
Escrevo, neste momento.
Pois estaria isolado
Se tivesse recusado
Utilizar este invento.
Portanto, eu me assento
Em frente ao computador,
Com a missão de expor
Uma estória verdadeira.
Peço a Deus proteção
E também a inspiração
Pra minha rima rasteira.
E a tarefa é pesada,
De responsabilidade.
Precisa seriedade,
Pra não mentir, na missão.
Pra dizer bem a verdade,
Mentira é calamidade
De que não faço questão.
Mas eu começo com fé
Que dou conta do recado.
Já rezei, “tou” preparado
Para “o que dé e vié”.
Vou falar do afamado
Poeta, que foi chamado
“Patativa do Assaré”.
Começando do começo
Quando nasceu
Patativa?
Sua fama inda é viva,
Ser verso é o melhor!
Sua poesia é tão linda,
Que o povo se lembra ainda!...
E menino sabe de cor!
Foi na
Serra de Santana,
Município de
Assaré
Que esse poeta de fé
Saltou pra luz, nun repente.
O estado do
Ceará
Muito se orgulhará
Do poeta, eternamente!
No dia cinco de março
De mil novecentos e nove.
O povo, então se comove
Com o brilho daquele dia.
Mas não podia saber
Que estava vendo nascer
Um Menestrel da Poesia!
Naquele dia nasceu
Um forte e belo menino.
Na igreja tocou sino,
Como fosse dia santo!
E no choro, parecia
Que o menino dizia:
“Escutem todos, meu canto!”.
“Eu acabei de chegar
Nascido nesse Nordeste.
E sou um cabra da peste!
Uma promessa eu faço:
O mundo que me aprove,
Pois a vida me comove...
Vou ser poeta, no braço!”
“Eu vou cantar o sertão
Com a força do meu verso!
E o Rei do Universo
Me ajude, por caridade.
Vou cantar em verso nobre
A desventura do pobre
Sem faltar com a Verdade!”
Antônio Gonçalves da Silva
Foi na Pia batizado.
O padre disse, assustado,
Para a mãe de Patativa:
Eita, que choro danado!
Vai ser poeta, o safado,
De poesia criativa!
O pai, de nome
Seu Pedro,
Não ficou muito contente:
“Vai ser poeta? Ô xente!
Mió sê trabaiadô!
Essa vida é uma briga
Poesia não enche barriga
Isso é coisa de dotô.”
Mas a mãe,
Dona Maria
Disse: “Deus sabe o que faz
Deixa o menino em paz
Móde sê o qui quisé.”
Selava assim o destino
Daquele feliz menino
Patativa do Assaré!...
E o Antonio menino
Cresceu ajudando os pais.
Não recusando jamais
O seu duro dia-a-dia.
Trabalhava ele na roça,
Morava em uma palhoça,
Mas sempre com alegria!
Aos quatro anos de idade,
O nosso pequeno artista
Fica cego de uma vista,
De um mal chamado
“dordói”.
Mas a tudo ele resiste
Pois da lida não desiste
Quem já nasceu pra herói.
Continua seu trabalho,
Sua vidinha na roça.
Porem sua língua coça
De vontade de versar.
“Se óio pra qui pra li
Vejo um verso se buli”,
Viria ele a cantar.
Mil novecentos e dezessete
Ele, com oito anos,
Passa por desenganos
Da sorte e triste vai,
Com a mãe e os irmãos,
Todos, juntando as mãos,
Ao enterro de seu pai.
Falecia, assim, Seu Pedro
De quem tanto ele gostava.
E Patativa chorava,
Tomado de emoção.
Ao mesmo tempo, rezava
E ao povo todo ele dava
Exemplo de bom cristão.
Logo depois, a má sorte
Novamente lhe alcança.
Ele, ainda criança...
E a mãe, morreu de repente.
Saudosa
Dona Maria!...
Mas eles, com valentia,
Tocaram a vida pra frente!
O Nordestino é assim:
Um forte, por natureza.
Mesmo em grande tristeza
Não se abate, e vai com fé.
A força mais se aviva!
E assim foi com Patativa,
O Poeta do Assaré.
Os doze anos contava
Quando na escola entrou.
Só quatro meses ficou,
Devido sua pobreza.
Pois nem à escola primária
A classe minoritária
Tem direito, com certeza.
Mas esse tempo de estudo
Foi, pra ele, de valia.
Rapidamente aprendia
As letras do ABC.
Nesse tempo, ele já faz
Alguns versinhos banais,
Para a professora ver!
E ele, pra conseguir
Um sucesso tão marcante,
Teve um bom ajudante,
Facilitando o trabalho.
Estudou e deu valor
Ao livro do
Professor
Felisberto de Carvalho.
Começa assim, nesse tempo,
A carreira do poeta.
Sua alma inquieta
Sempre buscando a Poesia.
Nas festas da redondeza
Declamava, com beleza,
Já dando ao povo alegria.
Nesse tempo ele já lia
Poesia de Cordel.
“Na casa dos Coronel
Lia tudo o que achava”.
“Apois, então, muito bem
Eu posso fazer também!”
Já Patativa pensava.
E começou a escrever
Guardando o seu rabisco
Para não correr o risco
De sua obra perder.
Escrevia com emoção,
Falando sobre o sertão,
Onde adorava viver.
Só pra citar um exemplo,
Num poema, ele dizia:
“Eu sei que minha poesia
Já nasce do coração.
Não canto as coisa impussive,
Eu canto as coisa visive
Do meu querido sertão”.
E continua o poeta,
Com sua simplicidade
Dizendo só a verdade,
Pois quem não mente, não erra:
“Assim que eu óio pra cima
Vejo um dilúvio de rima
Caindo in riba da terra”
No ano de vinte e cinco,
Ele, já quase homem feito,
Fez um negócio direito
E ficou todo pachola.
Vendeu uma cabra, um dia,
Apurou uma quantia
E comprou uma viola!
E começou a cantar!
Com a violinha na mão,
Percorria a região,
Fazendo e cantando verso.
Viajava sempre a pé,
Contando com sua fé
No
Criador do Universo.
Nesse tempo ele faz
Sua primeira viagem.
Conhece nova paisagem
Que jamais esquecerá.
Com o primo
Zé Montoril,
Vai conhecer o Brasil
Lá em
Belém do Pará!
Ficando por cinco meses
Naquelas terras do Norte,
Conhece, com muita sorte,
Zé Carvalho,
um jornalista.
Que lhe diz com voz ativa:
“Você nasceu
Patativa
É o seu nome de artista!”
Patativa logo aceita
E muito gosta do nome.
No entanto, ele diz: “Home,
Não esqueço meu lugar.
O nome bonito é...
Mas,
Patativa do Assaré
Eu passo a me chamar.”
E assim, nosso poeta
Em todo lugar chegava.
E o povo o aclamava
Dizendo: “Esse é que é
O poeta arretado,
Que pelo povo é chamado
Patativa do Assaré!”
Nesse tempo também,
Se bem me lembro e não erro,
Ele anda de trem de ferro,
Alegre, feito criança.
Pra percorrer o Estado,
Ele vai aboletado
No trem da
Belém-Bragança!
De volta ao Ceará
Continua a sua luta.
Na roça, tem a labuta.
À noite, escreve poesia.
Conhece, ainda pequeno,
A um Juvenal Galeno,
Poeta, que lhe auxilia.
É citado em um livro
Pelo seu belo trabalho.
O mesmo José Carvalho,
Lá do Belém do Pará,
Escreve bela missiva
Dizendo que Patativa
Grande poeta será!
No dia seis de janeiro
Do ano de trinta e seis
Chega a hora e a vez
De Patativa casar.
Casa-se, então, com Belinha,
Uma linda moreninha,
E a família vai formar.
Desse belo casamento
Quatorze filhos nasceram.
Só sete sobreviveram...
Outros sete, Deus levou.
Mas os dois não protestavam.
Humildemente acatavam
Aquilo que Deus mandou.
E Deus mandou ao Poeta
Nunca esquecer a Poesia.
Patativa então seguia
Sempre, sua vocação.
Na roça, durante o dia
E à noite ele fazia
Seus versos, de coração!
E sempre fiel à terra
Nordestina, que amava.
Em seus poemas falava
Das coisas do seu Sertão.
Observando, escrevia
O que de belo havia
Entre o céu e o chão.
Amava também contar,
Dizendo sempre a verdade,
Toda a dificuldade
Da vida de quem é pobre.
Descrevendo, com amor,
A vida do agricultor
Em verso simples, mas nobre!
Junto com João Alexandre,
Que era um grande violeiro,
Roda o Sertão inteiro
Levando sua poesia.
Onde quer que ele chegava
O povo já o aclamava
E ele, contente, sorria!
No ano cinqüenta e cinco
Conhece
José Arraes
Que, impressionado demais
Pega seus versos e bota
Nun livro de um escritor
Que lhe faz grande louvor!
Seu nome:
Moacir Mota.
No ano cinqüenta e seis,
Cumprindo a sua sina
“Inspiração Nordestina”
Patativa então publica.
Poesia que dá e sobra!
Era o começo da obra
Que viria a ser tão rica!
Já em sessenta e dois,
E tendo um certo cacife,
Vai cantar lá no
Recife
Em um
São João Popular.
Miguel Arraes
patrocina
A Poesia Nordestina
Para o povo admirar!
Dois anos depois, somente
O grande
Luiz Gonzaga,
Encantado com a saga
Contada em
“Triste Partida”,
Pega o poema e grava.
Essa obra, aonde chegava,
Por todos era aplaudida!
Esse fato por si só
De tal forma projeta
Patativa, o poeta,
Por todo nosso país.
Mas sua simplicidade
Não lhe permite vaidade
E humildemente, ele diz:
“A minha rima é rasteira
É fruita de jatobá.
É fulô de trapiá
É canto de passarinho.
É fulô de gamilêra,
É gente humilde, na feira,
E na puêra do caminho!”
E assim nosso poeta
Seguia sempre em frente.
Escrevendo humildemente
Sem nunca ligar pra fama.
“Eu escrevo porque gosto
Se nun escrevesse, eu aposto,
Morria in riba da cama!”
Porém dois anos mais tarde
- Mil novecentos sessenta e
seis -,
Usando mais uma vez
Sua veia criativa,
Ele lança um livro novo
E entrega a seu povo
Os
“Cantos de Patativa”
Já em mil novecentos setenta
J. Figueiredo Filho
Lança, com muito brilho,
Os
“Poemas Comentados”
São versos de Patativa
Comentados, em voz viva
E grandemente exaltados.
No ano setenta e dois
Raimundo Fagner,
cantor,
Que é também compositor,
Faz uma coisa malina:
Com música de sua autoria
Encantado com a poesia,
Grava o poema
“Sina”.
Mas no encarte do disco,
Esquece, sem ter má fé,
De registrar de quem é
O poema que gravou.
Patativa não reclama
Mas logo Fagner lhe chama
Reconhecendo que errou.
Ficam, então, amigos
Sem guardar nenhum rancor.
Patativa, o professor,
Ensinando humildade.
E Fagner, reconhecendo
A ele disse: “Pretendo
Te mostrar lá na cidade!
Alguns anos mais tarde
Isso iria acontecer.
Nós ainda vamos ver
Patativa em grande show
Mostrando sua verdade
Com toda a simplicidade
Que nunca lhe abandonou!
Mas prossegue o poeta
Cada dia, a criar mais
Aparece nos jornais
Sua fama se espalha.
Enquanto o mundo comenta
Patativa não esquenta.
E simplesmente... trabalha!
E a sua produção
Vai ficando numerosa.
A poesia, talentosa,
A muita gente comove.
Ele não se envaidece.
“Não sou aranha, que tece,
Quem gostar... que me aprove!”
No ano setenta e três
Um fato inesperado:
Patativa é atropelado
Andando em Fortaleza.
Perna mecânica ganhou
Até o fim da vida, usou.
Mas não chorava tristeza
Dizia ele, brincando:
Chorar, por que, meu irmão?
Eu escrevo é com a mão
Obedeço o que Deus qué.
Não tenham pena de mim.
Sou poeta até o fim
Não faço verso com o pé!”
Chegando setenta e oito
Conformado com o acidente
O Poeta, diligente,
Continua a trabalhar.
E publica, sem problema
O seu mais lindo poema:
“Cante Lá, Que Eu Canto
Cá”.
Um ano depois se muda
Indo morar na cidade.
Pois já tá com certa idade
E se vai, todo feliz.
Residir no Assaré.
Porque é homem de fé,
Bem na Praça da Matriz.
Nesse ano acontecem
Inúmeras homenagens
Onde grandes personagens
Se rendem ao seu talento.
Entre participações,
Faz
“Poemas e Canções”
Em disco, nesse momento.
Na Campanha da
Anistia
Ampla, Geral, Irrestrita,
Sua poesia bonita
Comove o Brasil inteiro.
Fizeram um filme, até
E Patativa do Assaré
Participou, bem faceiro.
Do Show
Massafeira Livre,
“Theatro José de Alencar”,
Ele foi participar
Nesse ano produtivo.
Sua obra, conhecida!
E ele, feliz da vida,
Um poeta sempre ativo.
No ano seguinte, oitenta
Fagner de novo estava
Com ele, e assim grava
“Vaca Estrela e Boi Fubá”.
E sem correr qualquer risco
Patativa grava o disco
“A Terra é Naturá”.
Tinha um programa na
Globo
Chamado de “Som Brasil”.
O poeta então se viu
Convidado a apresentar.
Foi o
Rolando Boldrin
Quem lhe chamou e, assim,
Não podeia recusar.
Foi um sucesso da gota!
Foi um show de Patativa!
O povo, gritando “Viva
O nosso Poeta Maior!”
E Patativa seguia,
Humilde, como se via,
Sem querer ser o melhor.
Já no ano oitenta e quatro
As multidões, inquietas
Lutavam pela
Diretas
E a História registrou.
Patativa, convidado,
Participou e, aclamado
Ao povo assim falou:
“Eu sou home lá da roça
Mais respondo meu presente
E junto com minha gente
Quero tomém falá.
Ao Governo Brasileiro
Que este povo ordeiro
Só qué as Direta Já”.
Não vai ter revolução
Queremos paz, nessa terra.
Somos todos contra a guerra!
A gente só qué votá.
É um direito da gente
Votar para presidente.
Queremos Direta Já!”
O seu verso assim ajuda
Ao sucesso da Campanha.
Patativa assim ganha
Mais respeito popular.
Vídeo e filme são lançados
Para os fatos detalhados
De sua vida contar.
Mas Patativa, humilde
Nada disso lhe envaidece.
Volta ao Sertão e esquece
Toda essa homenagem.
Como roceiro que é
Só quer viver no Assaré,
Em sua bela paisagem.
Mas
Jefferson de Albuquerque
E
Rosemberg Cariry,
Dois cineastas dali,
Fazem um filme novo.
Para mostrar como é
Patativa do Assaré
Filmam
“O Poeta do Povo”.
Nesse tempo, grande enchente
Se abate sobre o Sertão.
Patativa, com emoção,
Ajuda ao povo carente.
Pra consolar tanta mágoa
Faz a música
“Seca Dágua”
E ao povo dá, de presente!
Ajudando, dessa forma,
Ao flagelado Nordeste!
Vai socorrendo o Agreste
Com chuva ou sol a pino!
O Sertão lhe agradece.
Por isso ninguém lhe esquece
Nesse solo nordestino.
Nesse ano ainda grava
Novo disco, que encerra
Poesia de sua terra
E grande sucesso fará.
O disco é , por sinal
Um projeto cultural
Do
Banco do Ceará.
Em oitenta e seis apóia
E da campanha faz parte,
Doutor Tasso Jereisati
Ajudando a eleger.
E Patativa, na hora,
Diz: “Dotô, tu agora
Que faça por merecer!”
E já no ano seguinte,
Trabalhando, sem parar,
Vem ele a publicar
Mais um poema de amor.
Se revelando romântico
Escreve um belo cântico
Chamado
“Espinho e Fulô”.
No mesmo ano, porém
Já quase sem poder ver,
É obrigado a fazer
Uma grave cirurgia.
Em São Paulo, em Campinas
Operou-se das retinas
E a vista quase perdia.
Chega a oitenta e nove
Comemora oitenta anos.
O fato então dá panos
Pras mangas de toda a
Imprensa.
São muitas as homenagens
Recebe tantas mensagens
Que refletindo, ele pensa:
“Meu Padin Ciço, me
diga
Como é que pode, um roceiro
Desse sertão brasileiro
Ser querido, desse jeito?
Eu não sou nada, sou pobre
E esse povo, tão nobre
Dizendo que sou perfeito?...”
O Senhor que me perdoe
Se eu tô dizendo besteira.
Mas penso dessa maneira
O bom aqui não sou eu!
O Senhor, que é meu Padin
Foi quem fez isso por mim...
Isso é milagre seu!”