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Henrique Marques Samyn
Notas Poéticas: Pietà, de
Dante Milano
Henrique Marques Samyn
[publicado em 02/02/2006 na revista Speculum (http://www.speculum.art.br)]
Essa Mulher causa piedade
Com o filho morto no regaço
Como se ainda o embalasse.
Não ergue os olhos para o céu
À espera de algum milagre,
Mas baixa as pálpebras pesadas
Sobre o adorado cadáver.
Ressuscitá-lo ela não pode,
Ressuscitá-lo ela não sabe.
Curva-se toda sobre o filho
Para no seio guardá-lo,
Apertando-o contra o ventre
Com dor maior que a do parto.
Mãe, de Dor te vejo grávida,
Oh, mãe do filho morto!
Em 1987, Carlos Drummond de Andrade
referiu-se, em uma entrevista, a um “grandíssimo poeta”, “de
extraordinária qualidade” que ninguém conhecia, embora tivesse
“quase noventa anos”. Quase vinte anos depois, Dante Milano -- este
grandíssimo poeta -- continua pouquíssimo conhecido, embora a
recente publicação de sua “Obra reunida” (Academia Brasileira de
Letras, 2004) dê uma nova chance, aos leitores da melhor poesia, de
conhecer a esplêndida obra milaniana.
Poeta de precisão clássica e de
lucidez implacável, muitas vezes agônica, Dante Milano construiu uma
obra de solidez exemplar, erigida sobre a tríplice base da morte, do
amor e do sonho, como analisou Ivan Junqueira em seu atinado ensaio
sobre a obra milaniana (“Dante Milano: o pensamento emocionado”).
Uma poesia sempre avessa a quaisquer concessões ao trivial ou ao
vulgar, capaz de desvelar, em meio à marginalidade mais brutal -- os
bêbados, mendigos e vagabundos que vez por outra despontam em seus
versos -- , a imponderável dignidade das criaturas que acolhem,
fiéis, o peso da existência dolorosa, mesmo sabendo-se incapazes de
sustentá-lo; a dignidade, enfim, dos que caminham por “Essa rua
cuspida / E por todos pisada, / Que é a verdadeira estrada / Por
onde passa a vida”.
Em Pietà, o olhar milaniano
debruça-se sobre o tema da morte crística, motivo que levou à
criação de algumas das mais belas obras de arte de todos os tempos;
basta pensar na escultura de Michelangelo ou nas pinturas de Bellini
ou El Greco. Dante Milano concentra-se na experiência psicológica da
mãe que tem, entre os braços, o filho morto, opção já ressaltada nos
três primeiros versos da composição: “Essa Mulher causa piedade /
Com o filho morto no regaço / Como se ainda o embalasse”. A inicial
maiúscula em “Mulher”, note-se bem, aponta para uma dupla direção:
de um lado, para a condição superior de Maria, mulher eleita por
Deus, consoante uma perspectiva cristã; de outro lado, segundo uma
visão mais alegórica, para a percepção daquela mulher como sendo, na
verdade, uma representação de todas as mulheres -- leitura
sem dúvida pertinente, uma vez que o poema trata da desolação
perante a perda definitiva de um ente querido; experiência,
portanto, intrinsecamente humana.
A centralidade da dor é ressaltada, no
poema, tanto por sua dimensão descritiva -- a mãe que “Não ergue os
olhos para o céu / À espera de algum milagre”; que se curva sobre o
cadáver e, tomada pela dor, aperta-o contra o ventre -- quanto por
sua dimensão formal; no tocante a esta, à guisa de exemplo, note-se
a belíssima passagem do verso “À espera de algum milagre” para “Mas
baixa as pálpebras pesadas”: no primeiro, a acentuação destaca
consoantes foneticamente oclusivas (p, g), fechando o verso
uma constritiva (l), além de uma alternância de vogais
abertas e fechadas (e, u, a), o que sugere uma situação de
incerteza e expectativa, tanto por conta da respiração exigida pelas
oclusivas, algo aliviada no final pela presença da constritiva,
quanto por conta da já mencionada inconstância da sonoridade
vocálica; já no segundo verso, note-se o destaque concedido pela
acentuação à vogal a, gerando uma continuidade sonora que não se
fazia presente no verso anterior, além da forte repetição das
oclusivas bilabiais p e b, o que altera o sentido da
expectação: esta sonoridade, associada à dimensão semântica do
verso, intensifica a idéia de pesar e dissolução da esperança
sugerida no verso anterior, tanto por conta da força da coliteração
quanto por conta da monotonia fonética das vogais. Nos versos
finais, Dante Milano abandona a atitude descritiva para assumir a
atitude empática que já fora sugerida no verso inicial, de modo a
fechar o poema ressaltando sua humanidade; a repetição do termo
“Mãe” em momentos capitais dos versos -- abrindo o ritmo trocaico do
penúltimo verso e o iâmbico do verso final -- intensifica a
afetividade desta relação com a padecente mulher.
A Pietà milaniana é, enfim, um
poema que trata, de modo singular, da dor -- não da dor de uma
santa, mas da dor de uma mulher; vivência que, radicalizada,
torna-se uma suprema representação de uma experiência humana,
demasiado humana.
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