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Gizelda Morais
Sobre IBIRADIÔ em 2ª. edição brasileira, 2003. (livro recomendado pela
Universidade Federal de Sergipe para o vestibular ). :
A reedição de IBIRADIÔ, mais do que necessária, era urgente,
especialmente após a versão francesa por Philippe Meilhac, publicação a cargo de
Éditions du Petit Véhicule (1999), de boa apresentação gráfica. É justamente
neste aspecto que residia o calcanhar-de-Aquiles da edição vernacular (1990),
cuja feição da obra, como um todo (capa, mancha tipográfica, margens,
entrelinhas, tipo de letra, etc.), empanava o plurifacetado universo fabulatório
de Gizelda Morais. Agora, sim, o leitor pode e vai usufruir com gosto a leitura
do romance, que é, não só um marco no trajeto ficcional da autora, mas também da
própria ficção brasileira, pelas inovações artesanais postas em prática, como
está dito no prefácio do livro. Poucas foram as mudanças, e restritas ao campo
da gramática, daí IBIRADIÔ, como texto narrativo, manter-se praticamente
intacto, com as mesmas características de treze anos atrás, facilitando, deste
modo, o estudo interpretativo atualizado do périplo romanesco gizeldeano.
De lá para cá (1990-2003), seguiram-se outros romances de nomeada: Preparem os
agogôs (1996), Absolvo E Condeno (2000) e Feliz Aventureiro (2001), este último
premiado em 2002, pela União Brasileira de Escritores, com o Especial do Júri,
sendo ainda os dois outros agraciados com Menção Honrosa, respectivamente, em
Concurso no Paraná e pela referida UBE. Cada um desses novos romances constitui
uma inusitada experiência narratória, com enredos e processos elaboracionais
diversificados, que revelam o labor diuturno de GM na difícil aprendizagem de
textualizar situações e sentimentos, ou seja, realidades concretas e subjetivas,
do mundo e da alma humana. Aparentemente, Jane, em Jane Brasil, Cristóvão
(homônimo do cineasta), em Ibiradiô, Tomás, em Preparem os agogôs, Doutor João,
em Absolvo e Condeno, e Alberto, em Feliz Aventureiro, apresentam-se com o mesmo
perfil psicológico, mas, na verdade, são tipos autônomos graças à trama
narrativa e ao tratamento fabulatório dado pela autora, pluralizando a maneira
de narrar, de romance para romance.
O que mais chama a atenção em GM é a sua constante busca de novos caminhos
estéticos personalizados, num esforço de dicção narratória renovadora,
emprestando a cada nova experiência ficcionista uma diferenciada técnica de
estruturação do enredo. Poucos escritores brasileiros tiveram ou têm esse
mérito, pois a tendência generalizada é a repetição dos elementos elaboracionais
básicos, aprisionando o ato de romancear numa f(ô)rma comum previamente
conhecida, em que os textos produzidos são semelhantes, como se fossem produtos
industrializados. O conteúdo varia, mas a forma não. Esta é a regra geral.E
Gizelda Morais sinaliza na direção fecunda: cada novo texto embasado com uma
forma narratória própria. A insatisfação artística a faz perseguir novos
horizontes estéticos, no propósito consciente de novas formas de expressão e
urdidura romanesca.
Jackson da Silva Lima – escritor e crítico literário.
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