Francisco, Heráclito vive!
O catálogo das mãos
é inesgotável
porque as mãos dos novos
hão de garantir as nossas mãos
[Soares Feitosa] |
Por sobre, sempre por sobre; assim
tem sido.
Sua entrevista é um tour de force vivificante, igual a tomar banho
de rio. E dada a impossibilidade de banharmo-nos duas vezes no
mesmo rio, não nos surpreende saber que a chuva de opiniões que
vem caindo sobre o extenso curso de sua conversa com o trio de
poetas goianos se apresenta múltipla, diversa, variegada. Apois,
seguem aqui mais algumas gotas. Outras. As mesmas.
* * *
Gostei... Fiquei impressionada com o
alto nível das perguntas... das perguntas desses meninos danados.
Noutra margem achei a turma que te entrevistou muito fraca. Penso
que não estava à altura de entrevistar um poeta do teu nível.
Enfim, não há pergunta ruim para tanta resposta gostosa, rica,
burilada e acrescentadora.
Alguém distraído que ainda não tenha
tomado ciência da entrevista e que por alguma hetorodoxia comece a
fazê-lo pelo eco, isto é, comentários, talvez não fique convencido
de que eles se referem ao mesmo colóquio. Outro alguém mais atento
já não seria tão cético: nem os rios, nem os homens se repetem. E
ainda assim, por sobre, sendo sempre outros, sãos também os
mesmos, mãos e pés.
Não sou religioso... Castro Alves lá em cima emparelhado com Nosso
Senhor Jesus Cristo. <Eu glorifico, comadre! Eu glorifico, só
isto!>... nem leio a Bíblia em nome da fé. Deus me defenda!
Presumo que mais fácil seja para quem freqüenta os dois lados ao
mesmo tempo. Em suma, o olhar, a visada: os elementos de fora; em
paralelo, a introspecção a trazê-los para dentro. Einstein e
outros monstros do saber puseram abaixo todas as certezas... Acho
que não tem meio termo.
Toda a herança espiritual da
humanidade tem uma força avassaladora e tudo o mais é nota de
roda-pé. Poeta, desculpe-me ter metido os pés pelas mãos. Estou
aqui a ler-te e rir muito... O humor vem sendo um aroma pouco
cultivado entre nós, mas tu não nos deixa sem respirá-lo mesmo
quando abordas questões da maior gravidade. Todavia tua
entrevista, ou bate-papo, ou coisa que o valha, me deixou
arrepiada ao se reportar ao homicídio ocorrido em Sobral,
sobretudo ao ver que você acrescentou à galeria do JP - tão
sobejamente bela - duas fotos do velório da vítima. Mas, meu Deus,
que horrível história é essa do assassinato do pobre homem? Não,
não me conte, não desse modo. Não acho que deveria ter misturado o
crime hediondo de Sobral com poesia... penso que aquilo
comprometerá a atualidade futura da tua erudita fala. Você tem
autoridade jurídica, filosófica e poética para abordar o caso, e
creio que deva fazê-lo, mas não desse modo, enxertando o assunto
num diálogo entre poetas, cultivando cansanções que noticiários e
jornais nos ofertam diariamente a mão cheia. Penso que alguém -
distraído ou atento - procura o JP pela rosa. E não falo da rosa
mística. Pura e pétalas, sim. Por eles, abrace e beije. Agora,
quanto a essas urtigas de espinho... Não, acho-as de gosto
duvidoso embora até entenda que o fato deva estar mobilizando o
Ceará, especialmente. Na minha opinião, elas desviam o leitor da
poesia que ele se propõe encontrar quando acessa o JP. Não creio
que o leitor deseje fotografias de arder e ferir os olhos.
Veja, Coronel, se já não fosse
suficiente a nossa esquizofrenia que insiste em pôr o corpo num
altar e de lá não o retirar mais, provocando tanto o desconforto
de cirurgiões plásticos – há anos sem férias – quanto o deleite do
clero de acólitos do consumismo, modismo e outras seitas do mesmo
calibre, se já não fosse suficiente tudo isso, ainda vemos a nossa
quase civilidade impor a esse mesmo corpo um outro dano. Não o da
eterna juventude, mas o da morte eternizada sendo que, nos dois
casos, o corpo é envolto num engano atroz. É sabido que nenhum
desses “mandamentos” foi destinado ao homem. O corpo não nos foi
dado para uma vida (nem morte) eterna. Ao tentar cristalizá-lo
compulsoriamente, negamos sim, nossa eterna mutabilidade. Talvez
por estarmos desaprendendo a história natural da qual o homem faz
parte é que venhamos nos distanciamos daquilo que o transcende, o
espírito. Enquanto isso, nós não cansamos de multiplicar
mausoléus, carnes de silicone, estátuas, botox, monumentos... Esse
culto ao corpo (vivo ou morto) tem nos levado a uma coisificação
de tudo o que eleva e enleva o Ser, inclusive a Arte e seus
acendimentos e ascendimentos. E um só é o infortúnio: quando há
espírito, os olhos se voltam estrabicamente para o corpo. Quando
só há corpo, por alguma hipermetropia, procuramos enxergar nele
algum “espírito”, talvez um “pantasma”. Mais que paradoxo, temos
visto, sim, nos seqüestrarem o direito de viver (e morrer) com
dignidade.
Causa aflição acompanhar em o “O
papa de Hitler” o relato de John Cornwel sobre o funeral de Pio
XII. Um velório extenso. Parece que o nariz do pontífice não
agüentou e caiu antes do sepultamento. Não, Coronel, não tenho
medo daqueles que matam o corpo, mas que, estando morto, não o
deixam morrer. Em nome de uma estranha liberdade - estranha porque
não respeita a liberdade de outrem – alguns esquecem a ética e os
bons costumes, mas nunca a audiência. Sim, não é contumaz que
compareçamos ao velório de algum amigo ou parente portando uma
máquina fotográfica. Levamos flores e orações. Creio que certas
fotografias são diabólicas, especialmente as que expõem corpos
(vivos e mortos) por uma objetiva focada no grotesco, no apelativo
e trágico. Infelizmente é isso que vende bilhetes de circo. É essa
a palavra mágica: vendere. Abracadabra não comove quase mais
ninguém. A meu ver nada legitima esse olhar de urubu-rei sobre
tragédias e infortúnios que passa por cima da ética e do respeito
ao humano em nome de uma liberdade que em última instância vem
aprisionar nossos olhos em manchetes escritas com o próprio sangue
do imolado.
Sempre me intrigaram os critérios
que determinam um acontecimento se tornar notícia. Ainda este ano
ocorrerá no mundo pelo menos mais um “tsunami” porém é muito
provável que nenhum jornal o anuncie. E se, será como a notícia da
senhora Raposa. Quem a enxergará a notinha senão um poeta? Muito
mais que trezentas mil crianças morrerão pelas águas. Elas não
irão inundar seus corpos, mas deixá-los. Vômitos e diarréia. Veja
só. Desde quando a foto de um cueiro ensopado de dejeções líquidas
é coisa para a primeira página?
Assim Francisco, permita que o corpo do José Renato - pois que ele
tinha um nome antes de se tornar o “vigilante que o juiz matou” -
possa ser sepultado como é direito de todos. Não deixe que uma
fotografia continue prorrogando sua morte ao expô-la
permanentemente numa página de um site muito procurado. E veja:
estou pedindo que você não permita a exposição do corpo desse
homem, não sua memória. Deixe-a viva e à vista de todos. E faça
isso como o poeta Soares Feitosa e sua têmpera “auroral” o faria
porque, meu amigo, não vejo nada mais crepuscular do que fotos
assim. Uma coisa triste, acho que ele não devia tê-la exposto
sofrida, velha e caída. Escreva, pois, poema e prosa e tudo mais
que - de lá de dentro, faca bem afiada - você escreve e sempre com
um jeito muito peculiar de dizer as coisas, numa linguagem cheia
de movimento, de plasticidade, de recursos interiores à frase que
reflete teu modo sempre bonito de ser. Escreva sim, a respeito do
assassinato de um homem por um outro que esqueceu de sê-lo como
tantos, hoje também mortos. Digo, os corpos visto que as almas
andam todas entoando um psalmo de ressurreições. Mas é como você
disse: nem sempre nos damos conta de que escrevemos para isso,
quer dizer, para descobrir a aurora no final da noite.
* * *
Também nem sempre nos damos conta
com quantos mandacarus se faz um candelabro ou com quantos
palavrões não se faz um poema. Ou sim. O que importa é a Poesia,
não é mesmo? Não existe palavrão ou não palavrão. Existe boa ou má
poesia. Não sou favorável à gratuidade com que o palavrão vem
sendo usado por muito escritor. Enfim sabem os bois, seus nomes.
Por outro lado, palavrão é mais uma palavra e com palavras todos
os textos são escritos, inclusive os poemas. De todo modo, poesia
não se faz com palavras, mas com a ausência delas e mais um
‘sentimento’ que ‘chega’ aos ‘emboléus’. É o lado mágico da Arte
Poética. Um poeta diante do inominável é sempre um criador, um
inventor de versos, como diz Valéry, utilizando a poesia como
instrumento elevado dessa nomeação cujo poema (e as palavras que o
compõem) é veículo, nunca destino.
Coronel, ao concordar com você, sem
tirar nem pôr que há na poesia um lado mágico é que vejo com muita
reserva qualquer atitude científica com a qual se pretenda tratar
a arte de compor em prosa e verso. Literatura - graças a Deus e às
Musas – não é ciência e nem deve ser tratada como tal. Sabemos,
nós e os alunos que respondem às questões de literatura dos exames
vestibulares, o quanto isso é maléfico. Quantos transtornos há
quando impomos a um texto, a um poema ou qualquer obra literária -
que desde a inauguração do mundo tem e sempre terá um caráter
subjetivo, -uma moldura de gesso de objetividades, uma mesurada
“interpretação científica”. Não surpreende que um certo autor
convidado a responder a questões que abordavam uma determinada
obra de seu punho não acertou o mínimo que a academia consideraria
necessário para freqüentar seus assentos. Borboletas não são
lepidópteros. Não para Quintana. Não para um poeta. Que os
entomologistas as chamem assim em seus laboratórios entre uma
sessão e outra de dissecação. Quanto à literatura, penso que ela
não sai de balanças analíticas ou pipetas graduadas e portanto não
deve, a meu ver, voltar para elas.
Também - devo concluir - ao olhar de
Gerardo Mello Mourão que nos diz que o conhecimento lógico, que se
limita e se esgota na epiderme conceitual da realidade, não
consegue pisar aquelas zonas medulares do conhecimento mágico,
intuitivo, onde dorme a fremente beleza de todas as coisas vivas,
rastro dos tempos aurorais do mito, esquecidos pela história, mas
lembrados subitamente pelo meticuloso entusiasmo do poeta, curador
da memória genealógica da criação. Nesse mesmo ensaio Mello Mourão
ainda nos lembra que a Gramática de Dionísio, a mais antiga do
Ocidente, aponta a leitura e a crítica da poesia como “a coisa
mais difícil para o estudioso que trata com as letras” porque “a
poesia é coisa de um sopro”. Hélio, neônio, argônio, criptônio ou
qualquer outro gás nobre? Não, não existe químico capaz de
determiná-lo.
Por isso, sobre a Arte poética, cabe
esses olhares múltiplos e todas as idiossincrasias. Existem as
gerações... Não existe a geração... A pergunta (e que Renoir não
tenha se ofendido com isso) possui tanto um teor impressionista
quanto um alto nível. Ela mesma depõe contra o próprio enunciado:
nada mais criativo do que colocar gerações, crise criativa e
internet no mesmo centímetro quadrado de uma só interrogação. Ora,
ora! Não, Francisco, não sei a resposta. Vou perguntar a Dante.
Claro que tem muitos outros... Não dá pra fazer lista... Lista pra
quê? Deus me defenda! Não sou religioso...
Sim, Coronel, diga ao Rogério que
você é religioso. Fi Alah! Diga-lhe também que não - Ma
Fi Alah! - porque antes de tudo é um poeta, acima do poeta, um
homem falando de seus princípios, de suas observações, de seu
aprendizado ao longo da vida. Daí, você não tem receio em misturar
tudo em um mesmo balaio. O que não pode prevalecer, em hipótese
alguma é a intolerância e dela você tem guardado para nossa
alegria uma lonjura imensa. Também por isso o leitor – crítico
verdadeiro – te descobre tão perto.
O tempo – crítico derradeiro – será
o senhor de todas as opiniões desde o mito até o século Cem de
Esquilo e do que vier depois. Por enquanto, a opinião pública.
Enquanto isso, prossigamos lendo “pra dentro e pra fora” o texto
feito ou de outrem, que poesia é como dizem o Pessoa (“o que em
mim sente está pensando”), o Gullar (“barulho que rumoreja ao
sopro da leitura”), o Cabral (“coisa mental”) e o Tolentino (“um
tremor da linguagem”), que tem de ser captada pelos sete sentidos.
E a propósito, leiamos pra dentro e pra fora o provocante poema do
Izacyl assim como fez o Antônio Abujamra, domingo último, no
noético “Provocações” da TV Cultura de São Paulo.
|
Ah! a opinião pública!
Segundo as mais recentes pesquisas,
25% querem, 25% não querem,
25% não sabem
e 25% não querem saber.
É certo que 33,33% têm medo,
que 33,33% não têm medo
e que 33,33% emudeceram.
Apurou-se também que
36,4% acreditam em parte, enquanto 33,7% não acreditam em
nada,
29,4% querem crer, não importa no que,
23,2% são absolutamente céticos,
28,6% são absolutamente crédulos e 39,5% dão respostas
múltiplas desesperadas.
Sabe-se hoje que 38% já foram antes,
32% nunca foram,
19% não lembram como era,
24% ainda não esqueceram,
47% não faziam a menor idéia e 76% ficaram perplexos.
Podemos concluir que:
X% estão certos
Y% estão fartos
N% estão mortos |
Sim, Francisco, Heráclito vive.
Beijo grande.
Ana
P.S. Ah, devo dizer obrigada a
Izacyl Guimarães Ferreira, Micheliny Verunschk, Ricardo Sylveira,
Carlos Figueiredo, Leônidas Arruda, Belvedere, Vicente Franz
Cecim, Gerardo Mello Mourão, Ronaldo de Castro, Valdir Rocha, Cida
Torneros, Aila Magalhães, Elizabeth Lorenzetti, Luiz Paulo
Santana, Carlos Roberto Lacerda, Nicolau Saião, Ricardo Suttana,
Lau Siqueira, Luiz de Lucca, Gustavo Dourado, Cláudio Portella,
José Inácio... Deve estar faltando nomes... Para que, meu Deus,
fui-me meter a citar nome?! Mas enfim, agradeço a todos - citados
ou não - que me deram uma mão, muitas mãos, ao escrever o texto.
Ana