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Do
Círculo Hermenêutico Periférico
ou
Da
Introdução aos Símbolos
Soares Feitosa
11.
Ascensão e queda
de Roberto Jefferson.
Os símbolos: o
riso, as palmas e o silêncio
Roberto Jefferson é um grande orador. Um estupendo orador. Como
poucos, domina a voz, o corpo, o gesto. Paralisou a Nação no seu
primeiro depoimento na Comissão de Ética. De forma ainda mais
retumbante, quando depôs pela segunda vez (CPMI dos Correios), de
olho roxo, o filete de sangue escorrendo, todo o tempo atendido pelo
serviço médico.

Foi um passeio! No
final, num ambiente de plena confraternização, dois senadores da
melhor expressão de seriedade, Peres e Simon, demonstraram todo o
empenho em lutar pela não cassação de Jefferson, não obstante ter-se
ele assumido da prática de procedimentos que, em tese, lhe garantiam
a cassação. Um terceiro senador, Suplicy, antigo desafeto de
Jefferson, estabeleceu com ele um diálogo de franca cordialidade e
reconciliação. Pronto, tudo marchava para o perdão e a glória de
Jefferson, a assumir a patente de grande tribuno, um dos maiores do
Brasil.
Antes porém que a
reunião se encerrasse, Suplicy externou a curiosidade, que era
geral, sobre o hematoma no olho de Jefferson, boatos de que teria
sido um soco do adversário, o ex-ministro José Dirceu.
Jefferson contou
que fora uma queda e, por cima dele um armário muito pesado. É que
fora pegar uma caixa de CD de cima de um armário, caíra do
banquinho, agarrara-se com o armário, pufo! no chão, com o
tal armário, imenso, pesado, por cima. Um acidente grave que quase o
matou, disse.
Outro senador,
Heráclito, perguntou, em cima das buchas:
— Qual é a música?
Toda a Nação quer saber!
Jefferson disse:
— De Lupicínio
Rodrigues, Nervos de aço!
Até aí tudo bem,
se Jefferson não detonasse, na resposta, um símbolo terrível, o riso
solto, desbragado, a gargalhada a plenos pulmões. À medida em que ia
pronunciando "nervos", a fala já se misturava com o riso, explosivo,
contagiante, refrão e ritornello.
Todos riram. A
CPMI inteira caiu no riso. O problema é que CPMI alguma pode rir!
Ali, em tese, "juízes legislativos", com tratamento formal,
linguagem formal. Apenas não estão togados; pior, é como se
estivessem. E, subitamente, no meio do riso, todos se perceberam
rindo e, por isto mesmo, "nus".
A partir daquele
dia as falas de Jefferson deixaram de ter relevância. Criou-se um
fato notável: ninguém, exceto os inimigos de praxe, queria sua
cassação, mas a leitura "noite" indicava que poderia ser cassado.
Então, Jefferson
não seria o grande tribuno?
Sim, um grande
tribuno; não, um péssimo tribuno. Mais não do que sim. De fato,
Jefferson empolga a audiência, mas põe a questão a perder.
Interessava-lhe, é claro, evitar a cassação, salvar o mandato,
crescer com a crise, quem sabe, até candidatar-se a presidente.
Adotou o riso como
estratégia. O riso do tribuno é o seu maior inimigo. Um riso como
aquele, em que riram o orador, os amigos e os inimigos, com certeza,
a resultante havia mesmo de ser a constatarem-se todos de um supremo
ridículo. Isto mesmo, ridículo: sua raiz etimológica, «ridere»,
latim, rir, risível. Ridicularizar algo e rir de algo são sinônimos
perfeitos.
Há amplos estudos
sobre o riso. Cícero, Quintiliano, Hobbes, Descartes, Bergson e, na
atualidade, Quentin Skinner, estudam-no a fundo. Há um conceito de
ornato retórico, mas o riso (nada a ver com sorriso!) é sempre
colocado sob grandes reservas. É arma terrível, capaz de mover,
comover e demover, mas, sobretudo, capaz de revoltar. Isto mesmo, a
revolta é o fruto do riso. O escárnio.
O orador não pode
rir. As tiradas de Carlos Lacerda eram dadas em plena seriedade
dele. Com efeitos discutíveis, tanto que, de Lacerda sobrou apenas o
brilho do espírito, posto que em maior volume amargou derrotas
políticas. O sonho de sair presidente do Brasil pela mão dos
militares jamais se consumou. Pelo contrário, ganhou a cassação de
seus direitos políticos. E, se o espírito de um lado brilhava (aos
amigos), do outro, os apelidos de corvo, um bicho sem brilho algum.
Com Jefferson,
como não podia deixar de ser de outra forma depois da risadaria
geral. A coisa tomou rumo de decadência. Merval Pereira, em O Globo,
15.9.2005:
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A opinião de Jefferson sobre
qualquer assunto nunca teve a menor importância. Ele só é
crível quando assume seus crimes e denuncia seus cúmplices.
Nesses momentos, ele tem a credibilidade do mafioso que
rompe com sua quadrilha e passa a denunciá-la.
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Peço licença para
discordar, só em parte, de Merval. Jefferson, ainda que nunca tenha
tido a menor importância, passou a tê-la imensa entre o primeiro
depoimento e o segundo, até a cena da gargalhada, quando pôs a rir
os seus inquisidores. Riam-se de quê? Repito: subitamente, ainda de
boca aberta ao riso, deram-se conta da quebra do protocolo. O
culpado? O Jefferson, é claro! Pau em Jefferson! Dali em diante,
suas opiniões deixaram de ter relevância.
Compareceu ao
plenário, votação de cassação de seu mandato. Cometeu outro erro
monumental. Fez o discurso da serpente desdentada. Nunca se deve
fazer esse tipo de discurso! Tivesse ele o extrato da conta do
presidente no paraíso fiscal — nem sei se o presidente possui conta
bancária, muito menos em paraísos fiscais —, mostrasse-a.
Distribuísse cópia, aos milhares, jogando-as ao plenário, às
galerias. Não trazia conta alguma? Então, fizesse o discurso do
cordeiro. Ou do super-cordeiro: o silêncio absoluto. O falar maneiro
(cordeiro) ou o gesto súbito, cordeiríssimo, um cadarço e com ele os
pulsos. Batesse em retirada, palavra não, as mãos para baixo.
Atadas. O silêncio.
Ele até que
ensaiou algumas passagens do cordeiro, mas no grosso do discurso,
foi serpente-fraca. Não há bicho mais repugnante que a fera
desdentada. Fera é fera!, e pronto. Serpente morde e mata. Serpente
que apenas morde há de ser repugnada como duplamente repulsiva. Falo
de símbolos. A monumental beleza do salto do tigre, vide
Blake e Borges. Ninguém jamais fez poemas ao salto do bode. Ou da
vaca.
Mesmo assim, ótimo
orador que é, sem sorte quanto aos símbolos, arrancou aplausos. Foi
ruim. Pela segunda vez, levou os inimigos a aplaudirem-no. [Da
primeira, o aplauso ao contrário, o riso]. Quem tiver de outra vez
assistir ao vídeo da Câmara, vai perceber alguns inimigos dele
batendo palmas e assustando-se, no decurso das palmas, com as mãos
em palma. É muito rápido, muito sutil, este comando que manda bater
palmas versus um outro que repugna as próprias palmas. Então,
o Homem não é uno? Claro que não! No mínimo, a tangê-lo, coisas do
dia, coisas da noite, afora as do crepúsculo da manhã e do
crepúsculo da tarde.
Se Jefferson não
dispunha de um estoque de virulência para um discurso serpente que
pusesse o governo de joelhos, fizesse a lamentação do vencido,
direto do Livro das Lamentações, de Jeremias, Profeta. Não a se
mostrar vencido, que o vencido verdadeiro não pode dar-se por
vencido. Há subtilezas! Sempre um bode por perto, o clima, o
furacão, o FMI, o comunismo internacional, Bin Laden, Bush, os
deuses. Talentos, talentos plurais, vide Mateus, parábola.
Como se as
barbeiragens, com todo respeito, do nosso grande orador fossem
insuficientes, ele caiu noutra armadilha. Abriu o discurso para
falar de mulheres. Nada contra mulheres, pelo contrário. Contudo, um
símbolo também muito perigoso é falar sobre mulheres. A gabar-se
delas?! Para quê? Com que proveito? A despertar o natural ciúme dos
machos presentes?
Esqueceu Jefferson
que o macho da espécie humana é, na origem, territorial, polígamo e
dominante. Nosso anedotário mitológico é fecundar todas as mulheres
(a mãe inclusa, veja com Freud) e castrar todos os outros machos.
Como admitir, numa roda de machos (e a Câmara tem forte presença
masculina), chegue um deles a falar de amplo sucesso com dezenas,
centenas, de mulheres? Ainda que sejam mãe, avó, tias e sobrinhas.
Metade do discurso, ou mais, a Nação parada, Jefferson a gabar-se de
suas mulheres!?
Não foi apenas
à-toa a primeira parte do discurso de Jefferson. Pelo contrário, foi
contra-producente, de pura gabolice, ainda que não tenha tido
diretamente esse tom. Ora, quem é bem sucedido no amor, com tantas
mulheres, centenas, milhares, bem que pode levar umas bordoadas...!
Justas e merecidas!
Estes, pois, os
símbolos que levaram Jefferson à derrota: o riso, o gabar-se das
mulheres e o discurso morno. «Como és morno, nem frio nem quente,
vou vomitar-te.» Apocalipse, 3-16
A confirmar que os
pares de Jefferson não desejam cassá-lo (mas cassaram-no obrigados
pela ruindade dos símbolos), quando completou-se o número suficiente
de votos, 257, foi como se nada tivesse acontecido. Aquela
irrelevância de que fala Merval, nem platéia, nem deputados, nem
ninguém "tomou conhecimento".
Conclusão:
Jefferson é ótimo orador e péssimo em símbolos. Perde, por isto
mesmo, questões ganhas.
Existiria um
roteiro?
Platão discute a
matéria com os sofistas, ridicularizando-os. Contudo, Górgias, o
retórico, coloca a Arte da palavra no seu devido lugar. Vejamos o
que diz:
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Górgias — Quanto mais se
soubesses tudo, Sócrates, a retórica, por assim dizer,
abrange o conjunto das artes, que ela mantém sob sua
autoridade. Vou apresentar-te uma prova eloqüente disso
mesmo. Por várias vezes fui com meu irmão ou com outros
médicos à casa de doentes que se recusavam a ingerir
remédios ou a deixar-se amputar ou cauterizar; e, não
conseguindo o médico persuadi-lo, eu o fazia com a ajuda
exclusivamente da arte da retórica. Digo mais: se na cidade
que quiseres, um médico e um orador se apresentarem a uma
assembléia do povo ou a qualquer outra reunião para
argumentar sobre qual dos dois deverá ser escolhido como
médico, não contaria o médico com nenhuma probabilidade
para ser eleito, vindo a sê-lo, se assim o desejasse, o que
soubesse falar bem. E se a competição se desse com
representantes de qualquer outra profissão, conseguiria
fazer eleger-se o orador de preferência a qualquer outro,
pois não há assunto sobre que ele não possa discorrer com
maior força de persuasão diante do público do que qualquer
profissional. Tal é a natureza e a força da arte da
retórica! [Platão, in Górgias] |
A pergunta é, em
homenagem a Górgias: quem tem sido escolhido para governar?
Resposta: aquele
que tem tido o melhor discurso! O que não significa seja ele o mais
capaz, o mais culto, o mais honesto, o mais justo. Pelo contrário,
na mor parte das vezes.
O que Górgias não
ensinou a ninguém foi o caminho da roça. Como chegar até lá? Que eu
também não sei. Ninguém sabe. Há os símbolos, essa terra vasta, a
bem dizer infinita, que tento abordar por cá nestes escritos sem
sentido.
Tomemos um
retórico dos mais importantes, Marco Túlio Cícero, 106 aC a 46 aC.
São famosas suas catilinárias, discursos contra um político da
época, um certo Catilina, senador, Cícero também senador. Tenho para
mim que Cícero, um gênio nas múltiplas acepções da palavra, usava
símbolos da língua, sons especiais, como um mantra, de ampla
reverberação na alma do auditório.
Isto existe, sons,
uma pronúncia especial, algo para além do sentido léxico e lógico do
vocábulo? Parece que sim!
De fato, o seu
mais famoso discurso que todo mundo cita: «Até quando, Catilina,
abusarás de nossa paciência?», a frase em português não tem, para os
meus ouvidos, a menor ressonância. Dita em latim, porém: «Quousque
tandem, Catilina, abutere patientia nostra?», os efeitos são outros.
Veja, a pronúncia
é mais ou menos assim, sempre lembrando que a letra "e", em latim,
tem som de "e" aberto; "o" também de "o" aberto, e que a letra "u" é
sempre pronunciada, assim: «Qüoúsqüe tãndem,
Catilína, abutére paciência nóstra?»
Peça a alguém
versado em latim para pronunciar com todo esplendor apenas as
duas palavras iniciais: «Quousque tandem». Parece que esse
qüo-úúús-qué sai de dentro da terra... para explodir no... tãn- dem!
platéia...! bem no dentro do coração.
Tan?
Tããn- dem!
«Tan» é a sílaba
inicial de Castro Alves, e continuo falando de gênios, Cícero e
Alves, na abertura de O Navio Negreiro: «'Stamos em pleno
mar!» O "s" do original do poema é mudo.
Tan!... é o mesmo
"fonema" de abertura da 5ª Sinfonia de Ludwig van Beethoven.
Continuo a falar de gênios, Cícero, Alves e Beethoven.
A 5ª!... dita
também «Sinfonia do Destino».
Repare como se
pronuncia este som mágico, TAN: a língua vai-se postar no alto do
palato (céu da boca), à raiz dos incisivos. Há uma explosão, que se
iniciar a explodir ainda na caixa toráxica, lá dentro, um som da
Terra... cósmico: tãn, tãm! E a absoluta reverberação de todo o
corpo. O pior é que Cícero a antecedeu com uma "buscada em abismos",
os sons de «qüó-úsqüe». Experimente pronunciá-lo bem forte,
complementando com um gesto de mão, como que trazendo algo de baixo,
da terra, do pés, a um súbito aflorar: «qüó- ús- qüe».
"Mastigue", por seu favor, calmamente todos os sons de «qüó- úúús-
qüe»; perceba o movimento de cada um em sua cavidade bucal,
sinta-lhes a força. Acompanhe os sons com um gesto ascendente, à
explosão do "Destino" (vide Beethoven!): Tãn-... dem.
Sim, os "sons"
existem!
Desconfio que já
na primeira frase, «Quousque
tandem, Catilina, abutere patientia nostra?»,
Catilina era um homem morto. Em conclusão: o discurso retórico usa
símbolos que estão para além da lógica e do significado. Por isto
mesmo, intraduzíveis.
O próximo capítulo
é uma homenagem a São Jerônimo, o Tradutor, matéria que chamei no
capítulo anterior de Os varapaus da Bíblia. Claro, os seus símbolos.
Jerônimo, evidente, sabia deles.
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Início desta desta página: Do Círculo Hermenêutico
Perifério ou Dos Símbolos — Prólogo e proposta.
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O
Partido dos Trabalhadores e sua crise de 25 anos, algo a ver com
os símbolos?
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Os símbolos
do PT, decifrações.
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Os
símbolos de Severino Cavalcanti e sua crise mensalinha.
-
Os símbolos do Banco do Brasil e do Banco do Nordeste
-
Decifrando os símbolos do BB e BNB
-
Ascensão e queda de Roberto Jefferson — símbolos: o riso,
as palmas e o silêncio.
-
Mais
símbolos, os varapaus da Bíblia
-
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Os varapaus da Bíblia
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