Jornal de Poesia 
Soares Feitosa
     
    Talvez  Outro  Salmo

         Não poderás ver a minha face, porque o homem
         não pode ver-me e continuar vivendo
                    (Êxodo, 33, 20)
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    Lado 7 
      

    Bem-aventurados os misericordiosos, 
    porque alcançarão misericórdia. 
      

    De que misericórdia fala o evangelista? 

    Estaria ele falando daqueles  
    que chegam para dar, 
    bem diferentes de quando 
    cheguei para tomar 
    e tomei, 
    com toda a ânsia, e tomei, 
    comi e comi; bebi e bebi; gritei e gritei: 
    pecado raiz 
    [não posso sofrer], 
    qu’eu sempre quis mais, 
    de jamais chegar:  
                  a Gula. 

    Lado 8 

    Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, 
    porque serão saciados. 
     

    Como aplacar minhas revoltas? 

    — Justiceiro eu sou! 

    E a minha fronte 
    deJustiça me tem levado 
    a tomar pressas, 
    pesar na minha balança, 
    de uma justiça 
    minha, a minha justiça, 
    porque minhas mãos são puras, 
    e posso passar, que sempre passei 
    por cima 
    deles, 
    de mim 
    e dos meus: 
    pecado matriz, 
    eu mesmo, 
    quando invadi 
    e não houve argumento: 
    [sou forte], de número 8, 
                a Luxúria. 

    Lado 9 
     

    Bem-aventurados os que promovem a paz, 
    porque serão chamados filhos de Deus. 

    A paz conciliada é a essência 
    da serenidade, 
    que muitas vezes a pecaminosa serenidade, 
    do quando “deixei pra lá”, 
    do quando “depois eu vejo”, 
    que me afundei 
    [estou satisfeito], 
    na banda nove: 
         pecado dito Preguiça.  

     II - Um Círculo 
     

     De todas as bandas, na volta completa, 
     de um místico 9 
     (a morte, impossível vê-Lo), 
     certamente algum Caminho... 
     de assombrar, esse Mateus, 
     Pier Paolo Pasolini e as parábolas, 
     e ele, Mateus, ainda diz que a porta é estreita..., 
     
     é estreitíssima..., deve ser! 
     
     

    III - Mateus 
     

    Dito Mateus, ele mesmo, 
    onde Lucas copydescou, 
    copiou mal, como também na “dos talentos”, 
    embora o mesmo Lucas inexcedível em Lázaro, 
    —— manda molhar, pai Abrahão, a ponta do dedo 
    e Lázaro 
    me refrescará a língua tórrida 
    dentro deste caudal 
    relâmpago. 
     

     IV - Lucas 
     

    Noutro passo, agora é Lucas, 
    e os cânticos, Magnificat, anima mea dominum, 
    que também Nunc dimitis, agora, soberano Senhor, 
    me dê minhas contas, baixe minha carteira, 
    quando a mulher, pois havia uma profetisa, chamada Ana, 
    de idade avançada, filha de Fanuel, 
    e ela, a mulher, falava de um Menino a todos, 
    esperado deles. 
     

    Esperado... 
     

    espe..........................................................rar 
    talvez um verbo, nos caminhos de spes, spei 
    de esperança...........................ou de uma deusa romana 
    irmã do Sono, 
    ela muito jovem e coroada de flores, 
    risonha...?! 
     

    Por certo, risonha! 
     

    Spes, spei, 
    esperar, 
    em todos os modos, 
    para todos os tempos...  

    V - Final 
     
     

    Assombra que tais sujeitos, 
    alguns, pescadores, que nunca citam Platão 
    nem Virgílio, 
    e pescam 
    (mas estão carregados de Platão e de Virgílio) 
    e continuam pescando, 
    saibam tanto, 
    à permanência do fardo de pescar: 
     
     

    Como podem saber tanto, 
    de nunca escreverem uma única linha em linha reta?  
     
     
     

    Porque é da Tua boca, Senhor, 
                     e para os Teus ouvidos 
    que a boca deles fala! 
     
     
     
     
    Salvador, manhã muito clara, 5.10.96 
    Escreveram sobre este poema:

    Francisco Carvalho:
    Salmo 151, Femina, Uma Canção Distante, Thiago e Talvez Outro Salmo:
    verifico que seu tônus poético continua altíssimo. O belo poema Femina, que já li tantas vezes tem a beleza e o fascínio de um canto salomônico. O poema Thiago é uma celebração, em grande estilo, do velho bardo amazônico, mas também empreende uma viagem lírica pelas terras do velho e ensolarado Ceará, com Gerardo Mello Mourão de permeio. O Salmo 151, com fortes ressonâncias bíblicas, me agrada plenamente. Talvez Outro Salmo mostra, entre tantas coisas, "que somente o verbo é brasa pura, disparada contra os teus pequenos, Senhor"


    Herbert Sales:
    Talvez Outro Salmo é belo em suas origens e engenhoso em sua feitura. Onde está a sua palavra, aí está a Poesia.


    Sinésio Cabral:
    Tive a satisfação de receber Talvez Outro Salmo. Considero simplesmente encantador e surpreendente esse desfecho do saber
    eterno: 
                         

                            “Como podem saber tanto 
                            de nunca escreverem uma única linha em linha reta? 

                            Porque é da Tua boca, Senhor, 
                            e para os Teus ouvidos 
                            que a boca deles fala”
     

    Tudo tão paradoxalmente simples e original! E passei alguns momento embevecido com a magia estonteante da singularidade dos versos de Uma Canção Distante e tão dentro da alma da gente!


    Confira o ensaio Poetômetro

     
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