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Edna Oliveira de Sant'Ana
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Sophie Anderson, Portrait Of Young Girl

 

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Edna Oliveira de Sant'Ana


 

Sent: Sunday, June 26, 2005 2:57 PM
Subject: Re: !!! ???/ "Do relato de uma peregrinação adolescente."

 

Poeta Soares Feitosa!

Embora a sua recomendação para que eu lesse “ Do relato de uma peregrinação adolescente”, tenha sido acidentalmente, eu o fiz com o maior prazer! Aliás, já lhe confessei, sempre leio o Jornal de Poesia!

Comovi-me com a sua caminhada por uma região que, lamentavelmente, conheço tão pouco e, a proporção que avançava na leitura, transportei-me e fiz a peregrinação junto com você. Fiquei imaginando sensações do tipo: frio, medo, fome, dor, cansaço, desconforto, desânimo, prazer, deslumbramento e, por fim, a sensação do dever cumprido.

Vislumbrei no seu simples ato de andar a pé por uma região tão inclemente, uma aventura fantástica, onde o herói é um idealista e em busca desse seu ideal enfrenta todos os obstáculos.

Parabéns, poeta! Você tem uma trajetória de vida como poucos e não é à toa que tem tanta coisa para nos relatar em forma de prosa e verso.

Edna Oliveira de Sant'Ana

Leia a Peregrinação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Edna Oliveira de Sant'Ana



As dores do mundo


Crianças rotas engolidas pelos esgotos
infectados, lotados de ratos, tentando escapar
dos atos violentos de homens armados e
dos atos obscenos de homens depravados.

Crianças avariadas, tragadas por um
preparado glutinoso, viciadas pela dor,
humilhadas pela cor, e por decreto
agonizam sob as pontes de concreto.

Crianças esquálidas, desumanizadas pelos
corpos mirrados, pelas cabeças enormes
entre os ombros disformes, cuja imagem
se configura a um espectro da morte.

Crianças traficadas, mortas e mutiladas,
cujos órgãos seccionados são leiloados
a preço de uma inocente vida para serem
implantados nos corpos em busca de vida.

Crianças exploradas sexualmente, incluídas
como apelo principal do turismo sexual para
servirem aos prazeres do turista bestial que
despeja a sua podridão no corpinho virginal.

Crianças escravizadas, exploradas pelos
pais e patrões em troca de alguns tostões
ganhos com mãos, braços, pernas e pés que
se atarão para sempre aos grilhões da servidão.

Crianças que um dia servirão a essa nação
como meretrizes, assaltantes, traficantes...
que ocuparão espaço nas celas e favelas e
continuarão sofrendo todas as dores do mundo.


Dedico esta poesia às crianças que vivem ao relento do discernimento humano.


As Dores do Mundo (Infância violada): poesia
Salvador, 02 de Abril de 2004

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904) - Phryne before the Areopagus

 

 

 

 

 

Edna Oliveira de Sant'Ana



Nação sem noção (Tristes poderes)


Essa nação não tem noção
que seu povo está exausto
de viver sem pretender,
de só ter deveres,
de não ter haveres e
de nunca desfrutar dos prazeres.

Que seu povo está cansado
de viver ao deus-dará
e que não adianta apelar
para os poderes, pois
é uma grande farsa
o que se passa lá na praça.

No plano mais alto
tudo em volta está envolto
em lodo pegajoso
que atrai o inescrupuloso
para o ardiloso e vantajoso
jogo do poder.

De um lado, um prato
emborcado já farto do repasto.
Do outro lado, um prato
desemborcado sempre atrás
do maior bocado para dividir
entre seus pares.

E no último reduto de
todas as garantias
o cidadão – o povão –
para o reconhecimento
dos seus direitos, não
encontra nenhuma proteção.


Dedico esta poesia àquelas pessoas que emergirão incólumes.


Nação sem noção (Tristes poderes): poesia
Salvador, 13 de Abril de 2004

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jacques-Louis David (França, 1748-1825), A morte de Sócrates

 

 

 

 

 

Edna Oliveira de Sant'Ana



A um passo do desconhecido (E o que resta agora?)


Cabelos brancos.
Ombros curvados.
Pernas trôpegas.
Mãos trêmulas.

Visão embaçada.
Audição confusa.
Fala embolada.
Pele enrugada.

Olhar vazio.
Memória fraca.
Esquece o presente.
Lembra o passado.

Lembranças boas,
lembranças amargas,
mas todas bem-vindas,
pois preenchem a sua vida.

Cochila de dia,
à noite passa em claro.
Chora facilmente e
sorri francamente.

Não coma isso!
Não coma aquilo!
Cuidado com o coração!
Controle a pressão!

Lamenta a vida
e amaldiçoa a sorte,
pois as perdas são muitas
e a solidão é inevitável.

Tudo lhe é negado,
nada lhe é permitido,
a não ser as dores do corpo
e o abandono da vida.

E o que resta agora
a um ser tão alquebrado?
Seguir, passo a passo,
rumo ao desconhecido.


À minha mãe, Teté, uma sergipana nascida em 1920, no Riacho das Canas, sob o signo de balança, que dessa vida não vai levar boas lembranças.

A um passo do desconhecido (E o que resta agora?): poesia
Salvador, 10 de Março de 2004
 

 

 

 

 

 

02/08/2006