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Dimas Macedo
O Hóspede das Eras
Airton Maranhão pertence à família dos
grandes romancistas cearenses. Mas antes de ser um ficcionista de
fôlego, Airton Maranhão é poeta e, na condição de poeta, se tem
sobressaído como um dos nossos representantes na Corte dos Malditos
e Iniciados.
Sua poesia é intemporal, assim como
intemporais são as energias renovadas do cosmos ou as tentações de
Eros e Tanatos. E os navios em que navega o autor de A Dança da
Caipora, com raras exceções, são recheados de símbolos e metáforas,
e de símbolos e metáforas em que navegam os panteístas e
visionários.
Vai além, no entanto, o poeta Airton
Maranhão, pois as crendices e alfaias e a memória atávica dos seus
ancestrais jaguaribanos são por ele pacientemente recriadas. Valem
como um alfabeto primitivo ou como uma marca ou sinal do seu
indiscutível talento de poeta.
Sua obra de artista é toda ela plural
e multifacetada. Vai do cordel de ritmo e de gosto popular até a
tradição que remarca a expressão canônica dos romancistas de estofo.
Vai do apelo aos deuses do Olimpo até a sagração dos heróis e dos
arquétipos humanos do Nordeste.
De Airton Maranhão guardo a amizade, a
lealdade, a coerência para com os recortes da escritura literária. E
guardo também a atenção e o afeto com os quais sempre me distingue,
confiando-me a apresentação dos seus livros. Foi assim com A Dança
da Caipora (1994) e agora é assim com este livro novo intitulado O
Hóspede das Eras – Nonas ao Poeta Dimas Macedo (Fortaleza, Edições
Aceite, 2005).
O que ele nos propõe com a publicação
deste seu novo livro? Uma leitura do imaginário popular, vasado no
metro do cordel, sobre a minha personalidade e os sentidos da minha
escritura literária. E o que isto significa para mim? A homenagem
maior e a mais desvelada que recebi até hoje. Glória para a minha
obra insignificante. Afeto desmedido para a minha vida e a pequenez
da minha finitude.
Sou suspeito para falar de Airton
Maranhão e acerca da sua obra de poeta, mas acho que posso me
orgulhar de ser o intérprete – talvez o mais autorizado – da sua
obra de ficcionista, pois em A Metáfora do Sol (Fortaleza, Editora
Oficina, 1989) encontram-se o meu desvelo e a minha visão de esteta
sobre os fundamentos e os matizes gramaticais e semânticos da sua
escritura literária.
Não vou aqui me deter na análise da
escritura poemática de Airton Maranhão, mas com relação à sua vida e
à sua trajetória literária acho que devo dizer o seguinte: o autor
deste livro é uma legenda viva da literatura do Ceará e do Nordeste.
Autor de Deusurubu (1977), A Dança da Caipora (1994) e Os Mortos Não
Querem Volta (1999), Airton Maranhão, apesar de possuir uma obra
gigantesca inédita, não lamenta a desventura ou o destino cruel a
que foi relegada a sua obra de ficcionista. Pelo contrário,
valendo-se da sua condição de escritor insubmisso e maldito, vai
estruturando e personificando os lineamentos e as paródias do seu
imaginário. E convertendo em tintas duradouras o que em nós é apenas
ilusão e entretenimento.
Airton Maranhão não pára. Caminha.
Abre estradas e atalhos na escuridão da escritura literária. Desvela
o uso da palavra e não tem medo de recortar a expressão e de expor
as vísceras sem pudor ou qualquer forma de arrependimento. É Airton
Maranhão um escritor maior. E maior também me sinto agora quando me
vejo o conteúdo todo do seu novo livro de poemas.
Prefácio do Livro
O Hóspede das Eras,
de Aírton Maranhão.
Fortaleza, 25/04/2005.
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