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Octavio Paz |
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A lição do fogo: amor e erotismo em Octavio Paz
Maria
Esther Maciel
El deseo es más vasto que el amor
pero el deseo de amor es el más poderosos de los deseos "Na chama que sobe existem duas chamas: uma branca, que brilha e clareia, tendo uma raiz azul na ponta; outra vermelha, que é ligada à madeira e ao pavio que queima". [1] Não por acaso esta mesma imagem aparece recriada, séculos depois, no belo estudo de Octavio Paz sobre o amor e o erotismo, intitulado A dupla chama: amor e erotismo. Só que, agora, enquanto metáfora erotizada e alçada à categoria de conceito operacional. A partir e através dela, todo um tratado se constrói. Associando a chama vermelha ao erotismo e a chama azul ao amor - representações humanas da sexualidade simbolizada pelo fogo - Paz demarca os limites e confluências entre ambas e traça, através de uma perspectiva intertextualizada e interdisciplinar, uma espécie de história não-linear do erotismo ocidental. Aliás, essa tendência de usar uma metáfora como fio condutor de reflexões de ordem teórica é recorrente na obra do poeta mexicano. Por privilegiar, mesmo no trato de temas interdisciplinares, o método poético, ou seja, a faculdade criativa de "colocar em relação analógica realidades contrárias ou dissímiles" [2], ele se dá a liberdade de entrelaçar pensamento e imaginação, compondo um universo textual onde os limites entre o poético e o dissertativo se desvanecem. Essa prática confere ao seu discurso uma feição híbrida e atesta a sua propensão ao paradoxo e à pluralidade - índices de sua sintonia (ainda que às vezes dissonante) com certas formas des-hierarquizadas do saber contemporâneo. É exatamente dessa textura matizada que A dupla chama se compõe. Além de ser um sólido, embora pequeno, compêndio sobre o amor e suas formas culturais de se manifestar na vida humana - o que o inseriria de certa forma na linhagem inaugurada pela contribuição medular de O Banquete de Platão e sustentada de obras como O erotismo, de Georges Bataille, O diário do sedutor, de Soren Kierkegaard, Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes, e O amor e o Ocidente, de Denis de Rougemont - o ensaio de Paz se configura também como um manifesto poético em defesa da sensibilidade. Insurgindo-se tanto contra o acirramento do processo de mercantilização do desejo, promovido pelo atual capitalismo de consumo, quanto contra o conseqüente ocaso da idéia de amor nas sociedades deste fim de século, o poeta reivindica - num gesto que eu chamaria de "utopia pós-utópica" - o direito individual à liberdade dos sentidos e da imaginação, como garantia de sobrevivência para a humanidade. Nesse sentido, fala da necessidade urgente de reinvenção da própria noção de indivíduo, hoje obliterada pela força homogeneizadora do mercado, e propõe uma reeducação erótica da sociedade, baseada na reabilitação da idéia de amor. Não deixa, com isso, de também converter o seu texto em uma espécie de exame ético e político dos sintomas do nosso tempo, ainda que reeditando - não sem nostalgia - certos traços condizentes com seus vínculos mantidos com a corrente surrealista. Sobretudo se pensarmos na vocação utópica do surrealismo, constituída, como pontuou Fredric Jameson, "da tentativa de dotar o mundo-objeto, próprio de uma sociedade industrial partida e danificada, do mistério e da profundidade, das qualidades mágicas" [3]. Mas, ao mesmo tempo, não podemos esquecer que o gesto utópico de Paz, se é que ele realmente exista, se configura não como um projeto, mas como desejo, visto que a idéia de utopia, depois da derrocada dos valores que constituíram a tradição moderna, só é possível se pensada enquanto algo esvaziado de seu compromisso histórico com o futuro, enquanto gesto desejante que se abriga cada vez mais na temporalidade espacializada do agora. É, exatamente, apostando nisso que designa de "agoridade", que Paz converte o elogio do amor em um libelo contra a subtração contemporânea do caráter transgressor do erotismo, convertido, segundo ele, "num departamento da indústria publicitária e num ramo do comércio" [4]. Não bastassem esses apontamentos, Octavio Paz vai ainda mais longe, em A dupla chama: ao tratar das interseções entre amor, erotismo e sexualidade - temas que atravessam toda a sua obra, desde os primeiros poemas e ensaios escritos no início dos anos 30 - oferece-nos também uma revisão de sua própria biografia. Como ele mesmo admite na introdução, o livro pode ser lido também como uma espécie de profissão de fé, por ser a reconfirmação do pacto poético assumido pelo poeta consigo mesmo ao longo de toda a vida e funcionar como a reescritura de uma trajetória pessoal. De fato, se percorrermos a obra do poeta, encontraremos uma infinidade de poemas líricos e eróticos, escritos em circunstâncias relativas à sua vivência da experiência amorosa, além de muitos ensaios teóricos que investigam as várias representações do erotismo e do amor nas tradições culturais do Ocidente e do Oriente. Todos eles mantendo um diálogo entre si e evidenciando o jogo tensional entre vida e texto, criação poética e lucidez crítica. O que possibilita ao leitor não apenas encontrar num poema como "Blanco" a encenação verbal e visual de reflexões teóricas sobre poesia e erotismo, desenvolvidas em textos como Conjunciones y disyunciones e El arco y la lira, como também nestes detectar ressonâncias temáticas e formais de vários outros poemas. Somam-se a isso, é claro, dados da vida pessoal e intelectual do poeta, como as viagens que fez ao Japão e à India, os movimentos estéticos de que se aproximou, os livros que leu, as influências poéticas que teve, a descoberta efetiva do amor aos cinqüenta anos de idade. Como ele mesmo elucida, "poesia e pensamento são um sistema único", por advirem da mesma fonte: a vida [5]. Não foi à toa, portanto, que Paz tenha marcado a cumplicidade íntima de A dupla chama com "Carta de Creencia", poema que fecha o livro Árbol adentro (1976-1988). O poema, dividido em três partes, também nasce de uma imagem do fogo e se desenvolve em uma cadeia de metáforas que, por sua vez, se converte obliquamente em um desdobramento de conceitos sobre o amor. Exercício de "otredad", revela afinidades implícitas com certos aspectos da teoria do amor desenvolvida por Ortega y Gasset e com imagens de poemas anteriores escritos pelo próprio Paz, além de encenar na própria superfície da linguagem a relação entre o eu e o outro, o corpo e a alma, o pensamento e a sensação, evidenciando a convergência que existe entre o ato erótico e o ato poético. Essa convergência, aliás, merece no primeiro capítulo de A dupla chama, um topos especial, por funcionar como uma justificativa indireta não apenas da própria lógica analógica que, como já apontei, atravessa todo o livro, mas também do próprio percurso poético do autor, uma vez que a associação poesia/erotismo é uma das diretrizes para se compreender o próprio desdobramento do conceito paziano de criação poética ao longo de várias décadas de dedicação ao ofício da palavra. Para Paz, se o poema é uma erótica verbal, o erotismo é uma poética corporal: na mesma proporção em que o poema desvia a linguagem de sua finalidade natural, imediata, que é a comunicação, o erotismo desvia o corpo de sua função primeira, a reprodução. Daí ser o erotismo uma sexualidade transfigurada: uma metáfora. À imaginação é atribuída, nesse processo de transfiguração tanto da sexualidade quanto da linguagem, "uma função cardinal e subversiva" . Ela seria o elemento deflagrador do desvio e a condição para que tanto o fazer poético quanto o fazer erótico se realizem enquanto atos de reinvenção do corpo e da palavra. Isso porque, como afirmou o próprio poeta no ensaio "La mesa y el lecho: Charles Fourier" (1971), "a imaginação torna palpáveis os fantasmas do desejo" [6]. Octavio Paz buscou, em vários poemas, evidenciar essa "simetria inversa" entre erotismo e linguagem. Talvez o poema "Blanco" talvez seja o caso mais exemplar. Fragmentado em vários poemas avulsos e disposto de forma não linear sobre a página, oferece, através do jogo das colunas da direita e da esquerda - em seus movimentos de aproximação e distanciamento - uma simulação ritualizada do ato erótico. Nele, o que é dito se materializa no dizer, ou seja, os temas do erotismo e da criação poética são encenados através de elementos sonoros e visuais da matéria verbal. O poema se constitui, assim, à feição do ritual erótico, como cerimônia de transfiguração. Pode-se dizer que esse pressuposto sobre o qual se constrói grande parte da obra paziana e, mais especificamente, o livro A dupla chama, o poeta absorveu também através da experiência pessoal. Refiro-me à temporada de seis anos passada na India nos anos sessenta, quando, no cargo de Embaixador do México em Nova Délhi, Paz não apenas conheceu aquela que seria sua mulher até o final da vida ("depois de nascer, foi o que de mais importante me aconteceu", disse ele, em entrevista [7]), como descobriu a radicalidade de uma tradição que incidiria visceralmente em suas concepções de amor, de erotismo e de espiritualidade: o tantrismo, considerado a última e mais transgressora expressão do budismo indiano. A tradição tântrica, como o próprio Paz nos ensina em vários textos dedicados ao assunto, entre eles o ensaio Conjunciones y disyunciones, postula a inserção do corpo no projeto místico de libertação espiritual, elegendo os ritos do erotismo, a cerimônia orgiástica do banquete e a exploração também ritualística da materialidade da linguagem como formas iniciáticas de se alcançar a iluminação, a superação da dualidade simbolizada pelos princípios feminino e masculino. Nesse sentido, o corpo humano - entendido como um duplo mágico da linguagem e do universo - adquire uma importância nunca antes atingida na história espiritual da India. Um de seus mais importantes pressupostos consiste na retenção seminal e na conversão do gozo erótico em alimento para o espírito, ou seja, o corpo se converte em um caminho de iniciação, em experiência de êxtase e desencarnação. Seduzido pelos princípios transgressores dessa erótica sagrada, Octavio Paz deles vai se valer para compor alguns de seus importantes textos poéticos, como "Maithuna", "Blanco" e El mono gramático, e ainda extrair subsídios para suas reflexões teóricas sobre o erotismo, tal como a que se apresenta no livro A dupla chama. Mas inserindo nesses textos e reflexões um elemento ausente na tradição tântrica e de procedência mais ocidentalizada (ainda que tenha recebido influxos da erótica árabe): o amor, concebido como a atração por uma única pessoa, por um corpo e uma alma conjugados. Pode-se dizer que, ao reabilitar o amor como a força mais poderosa da vivência erótica, Octavio Paz também dá prosseguimento, ao longo de nosso século, a toda uma corrente lírica surgida com a prática/teoria do amor cortês na poesia provençal, que atravessou de maneira intensa e diferenciada o movimento romântico (em suas várias ramificações) e ressurgiu no século XX, sob outra roupagem, com o surrealismo. Momentos que tiveram, pela via da leitura ou da vivência direta, um forte impacto na concepção de amor adotada pelo poeta mexicano. "Misteriosa inclinação passional por uma única pessoa, quer dizer, transformação do objeto erótico em um indivíduo livre e único" [8]: com essa definição Paz marca a diferença básica entre amor e erotismo. Se erotismo é desejo em movimento, sede de outridade, o amor transforma o objeto de desejo em sujeito livre. A liberdade entra aí como elemento imprescindível, por propiciar que o outro, a pessoa amada, também seja reconhecido em suas possibilidades de vôo. Assim como o erotismo, sem o qual não sobrevive, o amor é cerimônia e representação, mas sem deixar também de ser "uma aposta, insensata", pela liberdade alheia. Nesse sentido é que, segundo o poeta, "a emergência do amor é inseparável da emergência da mulher", enquanto sujeito de sua própria liberdade, de seu próprio desejo [9]. A partir desse argumento, o poeta lança uma proposição que desafia algumas leituras já cristalizadas sobre o problema: a de que O banquete, de Platão, seria menos uma filosofia do amor que uma filosofia do erotismo sublime. Em primeiro lugar, porque almejaria uma espécie de intransitividade, ou seja, não seria uma relação exclusiva com uma outra pessoa, mas uma forma de ascese solitária e contemplativa, na qual a beleza corporal do objeto (ou objetos) de desejo funcionaria unicamente com uma das vias possíveis para se conquistar o amor inteligível, o amor-idéia. Ou, nas palavras do poeta, falta nesse erotismo de elevada forma de expressão, "o outro, a outra e seu complemento, aquilo que converte o desejo em acordo: o livre-arbítrio, a liberdade" [10]. Em segundo lugar, porque dessa teoria estaria excluída a mulher, embora tenham sido de Diotima os principais ensinamentos reproduzidos no diálogo. Paz chega a dizer, em seus apontamentos sobre o texto, que Platão teria se escandalizado diante do que nossa civilização, desde o advento da poesia provençal, chamou de amor. E por extensão, repudiaria o culto que essa tradição poética dispensou à figura da mulher. Ainda que resvalando em certo idealismo de feição romântica - o que, para nós, partícipes deste final de século, pode soar tanto como nostalgia do passado quanto como subversão do presente - Octavio Paz imprime uma marca digital nos breves apontamentos que nos oferece em A dupla chama. Do que advém que, se consideramos com Mallarmé que todo pensamento emite um jogo de dados, as idéias peculiares do poeta mexicano não se furtam enquanto risco, enquanto desafio, por ter também como meta aquilo que outro poeta francês, Paul Valéry, elegeu como motor de sua própria trajetória poético-intelectual: fazer pensar o leitor, provocar atos internos. Passível de discordâncias, uma vez que qualquer conceito de amor é movediço, dada a natureza atópica e inclassificável desse sentimento, a leitura de Paz, por mais paradoxal que seja, apresenta uma coerência inquestionável consigo mesma. O que não impede, entretanto, que possamos observar, dentre as várias vozes textuais que se cruzam no livro, certas ausências (ou exclusões), a meu ver significativas, em se tratando de questões relativas ao amor e ao erotismo no Ocidente: Kierkegaard, Bataille e Barthes. É certo que Paz elegeu um sofisticado paideuma, a partir do qual pudesse construir a sua própria leitura do tema. Mas pergunto se, por exemplo, a exploração de obras como o In vino veritas (releitura irônica do Banquete de Platão) e O diário do sedutor, ambas de Kierkegaard, não teria oferecido mais subsídios para esse mapeamento feito por Paz. Daria a ele oportunidade de inserir na combinatória que compôs dos vários sentimentos e sensações que gravitam em torno da idéia de amor, também o tema da sedução. Kierkegaard, além de abordar - sob as máscaras dos inúmeros pseudônimos-personagens que criou - temas como o amor, o casamento e a mulher, oferece-nos todo um tratado sobre a arte de seduzir, fundado na reflexão poética e que tanto aponta para uma visão romântica (de linhagem irônica, afinada com os preceitos estéticos do romantismo de Jena), quanto antecipa certas leituras contemporâneas de temas como a sedução e o feminino, vide O seminário 20, de Jacques Lacan e o De la séduction, de Jean Baudrillard. No Diário do Sedutor, encontra-se, em conjunção paradoxal, o erotismo de feição platônica e o amor romântico de origem provençal, ao que se soma um inusitado elemento de perversão. Johannes, o Sedutor, elege uma mulher única, Cordélia, por quem é capturado pelo olhar e de quem se enamora, criando, a partir daí, uma estratégia para seduzi-la, ao mesmo tempo que transformando a prática de sedução num exercício narcísico de refinamento da sensibilidade e do espírito. Paz poderia dizer, com razão: não há entrega voluntária por parte de Cordélia, ela é manipulada pelo desejo do sedutor e convertida em uma via de acesso a outra coisa, o que levaria a relação para o campo exclusivo do erotismo estético. Mas, a complexidade do texto nos traz outros elementos que relativizariam esse argumento. Johannes, numa primeira instância, assume a sua paixão espontânea por Cordélia ("Quase não consigo firmar os pés", confessa), e admite ser essa uma atração física e espiritual ao mesmo tempo. A jovem é vista como um corpo e uma alma, tem um nome e uma voz que se faz ouvir nas cartas que escreve ao amado. Johannes chega até mesmo a dizer, à feição de Paz: "é necessário que ela (Cordélia) não me seja devedora de nada; pois ela deve sentir-se livre, o amor apenas se encontra na liberdade". Essa citação poderia nos levar a associar naturalmente, em função das óbvias coincidências, o sentimento do Sedutor com o que Paz chamou de amor. Entretanto, o que se sucede entre Johannes e Cordélia é uma espécie de deslocamento da relação amorosa - provocado estrategicamente pelo personagem-esteta - para uma outra ordem, que poderíamos chamar de perversa (no duplo sentido dicionarizado e psicanalítico). Ao transformar essa relação em jogo estético e intelectual, o protagonista empreende, através do artifício verbal e da reflexão irônica, uma tentativa de destruição da mulher enquanto sujeito livre. Como? Incorporando, ele mesmo, a liberdade e a força sedutora que Cordélia possui, passando-as pelo crivo do cálculo e devolvendo-as, de forma artificial, contra a própria jovem. Ele sabe que ser seduzido é a melhor maneira de seduzir. Um processo prismático, de refração: o que se reflete volta contra o refletido. Como observa Jean Baudrillard, o artificial, nessa cadeia, é também ritual e sacrificial. O que conduziria a relação Johannes e Cordélia para o plano exclusivamente do erotismo, à maneira como Paz o entendeu. Como se vê, um rico material para se entender a relação paradoxal do amor e do erotismo em suas distintas representações no Ocidente. Como o são também as contribuições dadas por Roland Barthes e por Georges Bataille, no mesmo campo. Barthes, por entrelaçar minúcias da vivência cotidiana da experiência amorosa com citações textuais de várias procedências, criando uma espécie de constelação escritural de fragmentos discursivos sobre o amor. Bataille, por trabalhar o erotismo, sob a perspectiva do mal, da morte, da violência e da transgressão. Se, no caso de Kierkegaard e de Barthes, podemos argumentar que não faziam parte do horizonte teórico e literário de Octavio Paz (ainda que encontremos pontos de contato entre eles), no caso de Bataille, a ausência causa estranheza, por ser uma das referências importantes para o pensamento do poeta mexicano, sobretudo em textos como "Cárceles de la razón"(sobre Sade), "La mesa y el lecho: Charles Fourier" e Claude Lévi-Strauss o el nuevo festín de Esopo. De qualquer maneira, pode-se dizer que, ao se esquivar de certos aspectos mórbidos e sombrios inerentes aos domínios do erotismo - explorados sobretudo por Bataille -, Paz prefere explorar os elementos solares desse universo, pela via da leveza, da erudição, da memória e da lucidez poética. Daí a delicadeza de A dupla chama: ele é menos um tratado antropológico que uma confissão de amor à vida. Aqui retomo a imagem inicial do fogo. Só que, agora, como metáfora privilegiada do que, nesse amor, é paixão: paixão pelo ofício de escrever, de ler, de ouvir, de polemizar, de ver, de negar, de afirmar e de existir, sem a qual Octavio Paz não teria deixado a vasta obra e a luminosa sabedoria que agora nos dão - na sua ausência física - o testemunho mais vivo de sua presença na terra. Essa paixão multiplicada justifica a potencialidade que ele sempre teve de transitar em territórios distintos do saber, de permanecer em estado de vigília diante dos problemas políticos do seu tempo, de ter uma relação criativa com o passado e com as tradições, de entender os paradoxos de sua dupla condição de mexicano e de cidadão do mundo. Justifica, sobretudo, a sua cumplicidade visceral com a poesia. O ensaio A dupla chama, como vimos, é também resultado do poder substantivo dessa paixão. Não apenas por se constituir como estudo sobre os domínios em que ela se instala, mas por propor uma nova concepção de vida, fundada no tempo do agora, que é também o tempo do corpo e da morte. Como diz Paz, "o amor não é amor a este mundo, mas deste mundo; está atado à terra pela força da gravidade do corpo, que é prazer e morte". Deve, por isso, ser recuperado em sua dimensão de presença, de presente. O seu lume é a garantia de nossa eternidade provisória. NOTAS |
[Ensaio originalmente publicado em forma de livro da Coleção MEMO (Fund. Memorial da América Latina. São Paulo. 1998), posteriormente inserido no livro Vôo transverso: poesia, modernidade e fim do século XX (Ed. Sette Letras. Rio de Janeiro. 1999).] |