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Banda Hispânica (collage, Floriano Martins)

Pedro Salinas

Collage, Floriano Martins

 

A Pedro Salinas no cinquentenário de sua morte

Izacyl Guimarães Ferreira

 

Em sua curta vida ( 59 anos, 27 de novembro de 1892 – 20 de dezembro de 1951) Pedro Salinas fez poesia e crítica literária de nível alto o bastante para inscreve-lo entre os mestres do século XX e de toda a literatura espanhola.

Como crítico, mais, como ensaísta e historiador, bastariam dois livros para coloca-lo ao lado dos grandes de sua geração, a do 27 espanhol, como Dámaso, Bousoño, Casalduero, Díaz-Plaja : seus estudos "Jorge Manrique o tradición y originalidad e "Reality and the poet in Spanish poetry". Mas Salinas tem ainda o ensaio sobre Darío e numerosos "textos menores" reunidos em sua "Literatura Española Siglo XX", entre outros esparsos e não menos importantes estudos.

E seu acompanhamento minucioso e exemplar do desenvolvimento do "Cántico" de Jorge Guillén é um caso à parte de compreensão crítica, aliada à admiração pelo trabalho do amigo.

Como poeta, nove livros, que pela temática, o estilo, a evolução mesma de sua poética a professora Belén Morillo agrupou em três distintos ciclos: de 1923 a 1931, Presagios,Seguro Azar, Fábula y Signo. De 1933 a 1938, La voz a ti debida, Razón de Amor, Error de Cálculo. De 1938 a 1949, El Contemplado, Todo más claro e Confianza.. Tais livros o situam junto a Guillén, Lorca, Alberti, Aleixandre, Cernuda, entre os maiores "del 27", geração enriquecida ainda por nomes como Dámaso, Diego, León Felipe, Altolaguirre.

Entre nós, no Brasil, Pedro Salinas entrou nesse cone de sombra, tão injusto, que com frequência acompanha os poetas mortos, daqui ou de fora. Sei da existência de estudos acadêmicos que não posso registrar sistematicamente, mas cabe mencionar o pioneiro texto, de extraordinária lucidez, de Hélcio Martins, tese de doutoramento, escrito em 1954 : "Pedro Salinas - ensaio sobre sua poesia amorosa". Devo a Hélcio, tão prematuramente desaparecido, também ele, meu especial interesse por Salinas, e de seu texto reproduzo alguns comentários, que se ajustam a traduções que fiz há anos.

A tese de Hélcio Martins enfoca sobretudo os livros La voz a ti debida e Razón de amor, mas vai buscar nos tres primeiros livros as bases conceituais e os primeiros procedimentos da poesia vertiginosa de Salinas, uma poesia amorosa fincada na realidade, uma realidade transformada pela alma. São palavras de Guillén : "Em Salinas tudo se submete a um valor primeiro, a alma. / A poesia de Salinas é isso: um mundo acompanhado por uma alma. E anota Hélcio:

"Salinas estréia adulto...quando já contava 30 anos. E no primeiro poema desse livro encontramos já formulada brevíssima arte poética que entendemos há de explicar em seu completo desenvolvimento a atitude de Salinas como criador e também como crítico de poesia. Diz assim :" / ...sua tradução:

Chão. Nada mais.
Chão. Nada menos.
E que isso te baste.
Porque no chão os pés fincados,
nos pés o torso ereto,
no torso a testa firme
e além, ao abrigo da fronte
a idéia pura e na idéia pura
o amanhã, a chave
- o amanhã - do eterno.
Chão. Nem mas nem menos.
E que isso te baste.

Adiante diz o doutorando: Para o poeta "a poesia opera sempre com a realidade... Toda poesia opera sobre uma realidade pelo gosto de criar uma outra."

Esta atitude é flagrante também num poema do segundo livro, Seguro azar. O poeta vê, sente, pensa a lâmpada sobre sua mesa, e adota a postura de um "espectador transcendental". Eis o objeto e seu uso, o objeto e sua outra realidade, seu espírito oculto, sua alma. Eis o poema "35 bujías" .../ e a tradução "35 velas":

Sim. Quando eu queira
a soltarei Está presa
aqui acima, invisível.
Eu a vejo em seu claro
castelo de cristal, vigiada
por cem mil lanças - os raios -
cem mil raios do sol. Mas de noite,
fechadas as janelas
para que não a vejam
- piscantes espiãs - as estrelas,
a soltarei. (Apertar um botão.)
E cairá toda lá de cima
a beijar-me, a envolver-me
de bênçãos, de claridade, de amor, pura.
E no quarto eu e ela só, amantes
eternos, ela minha iluminadora
musa dócil contra
os segredos em massa da noite
- lá fora -
decifraremos formas leves, signos,
perseguidos em mares de brancura
por mim, por ela, artificial princesa,
amada elétrica.

No terceiro livro, Fábula y Signo , Salinas estabelecerá as relações entre o finito e o infinito, outra forma de ver as duas realidades que o poeta contempla, e num poema que Hélcio Martins nos recorda retomar um tema tradicional ( presente em Ossian e Musset, por exemplo ), vê o mundo oculto numa máquina de escrever. É o tema da harpa da Rima VII de Bécquer, de que Salinas se afasta ao não olhar o instrumento romanticamente e sim como "espectador perfeito". Sem frustração frente ao objeto "abandonado e coberto de pó" vê no teclado um potencial de "realizar um mundo".

Eis o poema , "Underwood Girls"...

Estão quietas, dormindo,
as trinta redondas brancas.
Entre todas
sustêm o mundo.
Olhe-as aqui em seu sono,
como nuvens,
redondas, brancas, e dentro
destinos de trovão e raio
destinos de chuva lenta,
de neve, de vento, signos.
Desperte-as
com contatos dançarinos
de dedos rápidos, leves,
como de músicas antigas.
Outra música elas fazem:
fantasias de metal,
valsas duras ao ditado.
Que se alcem desde os séculos
todas iguais, distintas
como as ondas do mar
e uma grande alma secreta.
Que acreditem seja a carta,
a fórmula de sempre.
Coloque
bem os dedos e as
rapte e as lance,
as trinta, eternas ninfas
contra o grande mundo vazio,
branco no branco.
Por fim a pura façanha
sem palavras, sem sentido

esse, zê, jota, i ...

Essas realidades e essas almas , eis o que eu cacei - sem saber se as alcancei - nestas discretas traduções, ora revisitadas às vésperas do cinquentenário da morte de Salinas ( 20 de dezembro ). Mais que tudo ou menos que nada, homenagem a um poeta de quem eu, ainda um pouco menino, ávido leitor, aprendi a aprender o que seria poesia, matéria que ele, Salinas o poeta, deixava para pessoas como ele, Salinas o ensaísta e historiador de poesia, explicar.

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