Clique aqui para conhecer o maior sítio de poesia da WWW! Quase 3000 poetas!

banda

hispânica

Banda Hispânica (collage, Floriano Martins)

Jorge Guillén

Collage, Floriano Martins

 

A esfera terrestre de Jorge Guillén

Izacyl Guimarães Ferreira

 

Jorge Guillén - cuja vocação foi percebida pela mãe, que o ensinou a ver : "mira", dizia, e apontava paisagens, desenhos, livros, e a ouvir:"oye", dizia, e escutavam os sons da natureza e a voz do homem - a ela dedica sua primeira grande obra : Cántico. Obra orgânica escrita ao longo de 25 anos, em quatro edições que crescem e se reorganizam, como gigantesca árvore que não perdesse folha ou fruto e só crescesse, assim é Cántico.

Eis a dedicatória, quase um poema ela mesma, e já um compromisso com o que Jorge Guillén escreverá até concluir-se a grande Obra.

"A ella,/que mi ser, mi vivir y mi lenguaje/ me regaló,/ el lenguaje que dice/ ahora/ con qué voluntad placentera/ consiento en mi vivir,/ con qué fidelidad de criatura/ humildemente acorde/ me siento ser,/ a ella,/ que afirmándome ya en amor/ y admiración/ descubrió mi destino,/ invocan la palabras de este Cántico."

E Cántico é "apenas" um de seus cinco livros. Clamor, Homenaje, Y otros poemas, Final, são os títulos dos demais, reunidos depois sob o título geral Aire Nuestro.

A organicidade da obra completa é, mais que aparência, uma evidência de sua estrutura inconsútil. Nela Guillén proclama seu sim à vida, com os nãos de Clamor em contracanto.

Quero deter-me em Cântico, sua obra maior a meu ver, mas não para diminuir os demais livros, e sim por acreditar que é no Cântico e no espelho dele, em Final e na intencionalidade do título geral Aire Nuestro, que Don Jorge deixa sua inconfundível marca.

Marca tão visível e clara que todos os estudiosos de sua obra coincidem nos conceitos e no vocabulário que utilizam para defini-la, usando palavras como estas: sabedoria sensível, entusiasmo jubiloso, consciência de ser, alegria existencial, epifania etc.

E assim é para este poeta para quem "o mundo está bem feito" , que tem " o pássaro na mão" e que usa como epígrafes de seus versos palavras como "con voluntad placentera" (opondo-se a Manrique, que as usou para dizer que consentia em morrer) e "sumersión en la fuente de la vida, recio consuelo"... do grande agônico Unamuno.

São palavras frequentes em Guillén os verbos respirar,celebrar, amar, e os conceitos equilíbrio, felicidade, fidelidade, prazer, plenitude, afirmação. Já o primeiro poema da primeira edição de Cântico indica aonde vai o poeta.

"Más allá" descreve o simples ato do despertar matinal de um homem numa segunda-feira qualquer, e daí à glorificação da existência, em pleno acorde com o universo - as coisas do seu quarto, a paisagem da janela, o sol, os astros. Não nomeia deus no poema e raramente o faz em outros, mas sem religiosidade expressa. Para Octavio Paz este é um poema seminal, matriz e ponto de partida de toda a poesia afirmativa de Guillén.

Outro ilustre guillenista, Antonio Piedra, nos fala da admiração de Don Jorge pelas obras orgânicas de Dante, Fray Luís de León, Goethe, Baudelaire, Whitman, Valéry, obras com visível e claro propósito, uma destinação pré-determinada, escassamente visitadas por peças avulsas, alheias ao padrão escultural do todo.

O padrão, o tema central, é a formidável circunstância de ser homem, de estar vivo neste planeta. "Soy. Más. Estoy... es la suprema dicha."

O crítico francês Pierre Blanchard examinou em livro famoso a devoção, senão obsessão de grandes criadores na feitura da Obra. Em Guillén não haveria obsessão mas certamente uma devoção que vem da adolescência , quando disse um dia que gostaria de escrever poesia, alguns versos. Pois dos 25 aos 90 anos compôs mais de 50 mil, muitos deles entra os melhores da língua. Jovem, maduro, velho, sempre soube estar compondo esta celebração do viver e do dizer, graças à sua prodigiosamente íntegra percepção do ser humano.

Se não há um deus, tampouco há paganismo nesta obra. Ela é inteiriçamente uma escritura de homem, ser existente finito mas elo de algo maior e nobre chamado humanidade.

Se aqui e ali, em Clamor, essa nobreza se perde, o poeta culpa a história - o mal - um afazer do homem , diante do bem eterno que é a natureza e como parte dela o homem, sua consciência de vivente.

Já velho, Guillén se dirá "coplero", "carpintero","artesano", que não sabe o que é poesia ou que é isso ou é aquilo, em numerosas peças de meta-poesia. Mas em essência sempre soube e disse que toda sua longa vida anos) estava destinada à tarefa de relacionar a realidade da vida com a realidade da palavra.

Sempre senti a tentação de traduzir sua poesia, desde quando ainda estudante travei conhecimento com os textos de Cântico, há meio século, quase. Venho trabalhando num par de poemas longos de Don Jorge, que requerem paciências especiais, dadas as dificuldades do metro curto e da perigosa proximidade do espanhol com o português. Mas nesta pequena notícia quero deixar, como homenagem, alguns poemas curtos, fascinantes, sobretudo as décimas, que confesso terem exercido certa influência em minha "por supuesto" menor poesia.

Espero com esta homenagem atrair eventuais leitores que desconheçam esta obra, traze-los à leitura de Aire Nuestro ou mesmo só de Cántico, uma obra do mais alto nível dos dois séculos de ouro da Espanha. Uma obra que, à maneira guilleniana de nomear, tem, mais que a perfeição do círculo, a redondez compacta e inteiriça da esfera, da sua esfera terrestre, cuja integridade "o pé caminhante sente."

 

Estatua ecuestre

Permanece el trote aquí,
Entre su arranque y mi mano.
Bien ceñida queda así
Su intención de ser lejano.
Porque voy en un corcel
A la maravilla fiel:
Inmóvil con todo brío.
Y a fuerza de cuánta calma
Tengo en bronce todo el alma,
Clara en el cielo del frío!

 

Estátua eqüestre

Permanece o trote aqui,
entre seu arranque e minha
mão. Fica assim bem contido
seu intento de distância.
Porque vou no meu corcel
à maravilha fiel:
imóvel com todo o brio.
E à força de tanta calma
tenho em bronze toda a alma,
clara pelo céu do frio.

 

Perfección

Queda curvo el firmamento,
Compacto azul sobre el día.
Es el redondeamiento
Del esplendor: mediodía.
Todo es cúpula. Reposa,
Central sin querer, la rosa
A un sol en el cenit sujeta.
Y tanto se da el presente
Que el pie caminante siente
La integridad del planeta.

 

Perfeição

Pende curvo o firmamento,
compacto azul sobre o dia.
Eis o arredondamento
do esplendor: é meio-dia.
Tudo é cúpula. Central
sem querer, a rosa, feita
cativa do sol no zênite.
E dá-se tanto o presente
que o pé caminhante sente
a inteireza do planeta.

 

El manancial

Mirad bien. Ahora!
Blancuras en curva
Triunfalmente una
- Frescor hacia forma -
Guían su equilibrio
Por entre el tumulto
- Pródigo, futuro -
De un caos ya vivo.
El agua desnuda
Se desnuda más.
Más, más, más! Carnal,
Se ahonda, se apura.
Más, más! Por fin… Viva!
Manacial, doncella.
Escorzo de piernas,
Tornassol de guijas.
Y emerge - compacta
Del río que pudo
Ser, esbelto y curvo -
Toda la muchacha.

 

O manancial

Olhe bem. Agora!
Brancuras em curva
triunfalmente una
- frescor rumo à forma -
guiam o equilíbrio
por entre o tumulto
- pródigo, futuro -
de um caos já vivo.
E a água desnuda
se desnuda mais.
Mais, mais, mais! Carnal
se apressa e se afunda.

Vaso de agua

No es mi sed, no son mis labios
Quienes se placen en esa
Frescura, ni con resabios
De museo se embelesa
Mi visión de tal aplomo:
Líquido volumen como
Cristal que fuese aun más terso.
Vista y fe son a la vez
Quienes te ven, sencillez
Última del universo.

 

Copo de água

Nem a sede nem meus lábios
são quem se comprazem nesse
frescor, e não há ressaibos
de museu que comovessem
minha visão deste assomo:
líquido volume como
cristal mais terso, diverso.
Vista e fé de uma só vez
são quem te vêm, singeleza
última do universo.

retorno ao portal da banda hispânica