|
banda hispânica |
Jorge Guillén |
|
A esfera terrestre de Jorge Guillén
Izacyl Guimarães
Ferreira
Jorge Guillén - cuja vocação foi percebida pela mãe, que o
ensinou a ver : "mira", dizia, e apontava paisagens, desenhos, livros, e a
ouvir:"oye", dizia, e escutavam os sons da natureza e a voz do homem - a ela
dedica sua primeira grande obra : Cántico. Obra orgânica escrita ao longo de 25
anos, em quatro edições que crescem e se reorganizam, como gigantesca árvore que não
perdesse folha ou fruto e só crescesse, assim é Cántico.
Eis a dedicatória, quase um poema ela mesma, e já um compromisso com o que Jorge Guillén escreverá até concluir-se a grande Obra. "A ella,/que mi ser, mi vivir y mi lenguaje/ me regaló,/ el lenguaje que dice/ ahora/ con qué voluntad placentera/ consiento en mi vivir,/ con qué fidelidad de criatura/ humildemente acorde/ me siento ser,/ a ella,/ que afirmándome ya en amor/ y admiración/ descubrió mi destino,/ invocan la palabras de este Cántico." E Cántico é "apenas" um de seus cinco livros. Clamor, Homenaje, Y otros poemas, Final, são os títulos dos demais, reunidos depois sob o título geral Aire Nuestro. A organicidade da obra completa é, mais que aparência, uma evidência de sua estrutura inconsútil. Nela Guillén proclama seu sim à vida, com os nãos de Clamor em contracanto. Quero deter-me em Cântico, sua obra maior a meu ver, mas não para diminuir os demais livros, e sim por acreditar que é no Cântico e no espelho dele, em Final e na intencionalidade do título geral Aire Nuestro, que Don Jorge deixa sua inconfundível marca. Marca tão visível e clara que todos os estudiosos de sua obra coincidem nos conceitos e no vocabulário que utilizam para defini-la, usando palavras como estas: sabedoria sensível, entusiasmo jubiloso, consciência de ser, alegria existencial, epifania etc. E assim é para este poeta para quem "o mundo está bem feito" , que tem " o pássaro na mão" e que usa como epígrafes de seus versos palavras como "con voluntad placentera" (opondo-se a Manrique, que as usou para dizer que consentia em morrer) e "sumersión en la fuente de la vida, recio consuelo"... do grande agônico Unamuno. São palavras frequentes em Guillén os verbos respirar,celebrar, amar, e os conceitos equilíbrio, felicidade, fidelidade, prazer, plenitude, afirmação. Já o primeiro poema da primeira edição de Cântico indica aonde vai o poeta. "Más allá" descreve o simples ato do despertar matinal de um homem numa segunda-feira qualquer, e daí à glorificação da existência, em pleno acorde com o universo - as coisas do seu quarto, a paisagem da janela, o sol, os astros. Não nomeia deus no poema e raramente o faz em outros, mas sem religiosidade expressa. Para Octavio Paz este é um poema seminal, matriz e ponto de partida de toda a poesia afirmativa de Guillén. Outro ilustre guillenista, Antonio Piedra, nos fala da admiração de Don Jorge pelas obras orgânicas de Dante, Fray Luís de León, Goethe, Baudelaire, Whitman, Valéry, obras com visível e claro propósito, uma destinação pré-determinada, escassamente visitadas por peças avulsas, alheias ao padrão escultural do todo. O padrão, o tema central, é a formidável circunstância de ser homem, de estar vivo neste planeta. "Soy. Más. Estoy... es la suprema dicha." O crítico francês Pierre Blanchard examinou em livro famoso a devoção, senão obsessão de grandes criadores na feitura da Obra. Em Guillén não haveria obsessão mas certamente uma devoção que vem da adolescência , quando disse um dia que gostaria de escrever poesia, alguns versos. Pois dos 25 aos 90 anos compôs mais de 50 mil, muitos deles entra os melhores da língua. Jovem, maduro, velho, sempre soube estar compondo esta celebração do viver e do dizer, graças à sua prodigiosamente íntegra percepção do ser humano. Se não há um deus, tampouco há paganismo nesta obra. Ela é inteiriçamente uma escritura de homem, ser existente finito mas elo de algo maior e nobre chamado humanidade. Se aqui e ali, em Clamor, essa nobreza se perde, o poeta culpa a história - o mal - um afazer do homem , diante do bem eterno que é a natureza e como parte dela o homem, sua consciência de vivente. Já velho, Guillén se dirá "coplero", "carpintero","artesano", que não sabe o que é poesia ou que é isso ou é aquilo, em numerosas peças de meta-poesia. Mas em essência sempre soube e disse que toda sua longa vida anos) estava destinada à tarefa de relacionar a realidade da vida com a realidade da palavra. Sempre senti a tentação de traduzir sua poesia, desde quando ainda estudante travei conhecimento com os textos de Cântico, há meio século, quase. Venho trabalhando num par de poemas longos de Don Jorge, que requerem paciências especiais, dadas as dificuldades do metro curto e da perigosa proximidade do espanhol com o português. Mas nesta pequena notícia quero deixar, como homenagem, alguns poemas curtos, fascinantes, sobretudo as décimas, que confesso terem exercido certa influência em minha "por supuesto" menor poesia. Espero com esta homenagem atrair eventuais leitores que desconheçam esta obra, traze-los à leitura de Aire Nuestro ou mesmo só de Cántico, uma obra do mais alto nível dos dois séculos de ouro da Espanha. Uma obra que, à maneira guilleniana de nomear, tem, mais que a perfeição do círculo, a redondez compacta e inteiriça da esfera, da sua esfera terrestre, cuja integridade "o pé caminhante sente."
Estatua ecuestre Permanece el trote aquí,
Estátua eqüestre Permanece o trote aqui,
Perfección Queda curvo el firmamento,
Perfeição Pende curvo o firmamento,
El manancial Mirad bien. Ahora!
O manancial Olhe bem. Agora! Vaso de agua No es mi sed, no son mis labios
Copo de água Nem a sede nem meus lábios |