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hispânica

Banda Hispânica (collage, Floriano Martins)

Amanda Berenguer

Collage, Floriano Martins

 

Duas obras-primas de Amanda Berenguer

Izacyl Guimarães Ferreira

Amanda Berenguer, a grande poetisa uruguaia, assina uma obra vasta e de surpreendente amplitude de temas, formas e vocabulário. Num trabalho a seu respeito - "Na interseção da lírica e da épica" - cuidava eu de estabelecer a singularidade dessa poesia que, indo do tratamento subjetivo de temas recorrentes na literatura (o amor, a amizade, a dúvida existencial) ao mergulho na experimentação formal e no veloz quotidiano das transformações de toda ordem, forjou uma obra sólida, de beleza ímpar e necessária. Obra em que o eu e o mundo dialogam na clave dupla da poesia "subjetiva" e da poesia "objetiva", isto é, entre a lírica e a épica, tomando-se epos no sentido de discurso poético de um acontecimento.

Mas nestas pequenas notas quero comentar apenas alguns traços de dois livros seus: Composición de lugar (1976) e Identidad de ciertas frutas (1983). O que ilustram ou revelam eles de seu intenso e extenso afazer poético? Comecemos pelo primeiro, Composición de lugar. Seu traço definidor é a audácia da experimentação formal. Seu tema central é o crepúsculo, mas seu assunto é a brevidade da vida, provocado pela contemplação sistemática e datada de 19 poentes sobre o Prata, durante três verões, de a 1974.

A audácia está nas variações formais a que Amanda submeteu seus poentes, apoderando-se da página para oferecer-nos uma leitura tripla de sua visão de cada distinto pôr-de-sol:

1ª) O poema em versos, feitos enquanto durava o poente -- como se fosse uma reportagem (esse o desafio, diz a autora no prólogo da obra, "la prueba de lo imediato".)

2ª) Anotações imagéticas, quase conceitos, reduções do poema em versos.

3ª) O poema gráfico.

O primeiro verso da primeira leitura é título e síntese da visão de cada céu. Pode-se dizer que Amanda desconstrói o poema: dos versos às palavras ora soltas ora relacionadas que são as anotações, e destas à espacialização de aparência concretista. Com o que visava movimentar o poema tal como o cenário cambiante de cada particular poente se movia, introduzindo o tempo na página, dando-lhe leituras verticais, horizontais, cruzadas.

Este comentarista faria o caminho oposto, talvez: da visão gráfica ao poema sintático, cristalização das sensações diante do crepúsculo. Por privilegiar o verso, construiria o poema a partir das anotações, quiçás sem passar sequer pela espacialização de topoema. Talvez por isso, ao traduzi-los, me ative somente aos versos, como em edição de obra reunida o fez Amanda, diante das dificuldades de impressão das soluções gráficas das outras duas leituras, presentes apenas na edição original.

As três variantes dos poemas prestam um valioso serviço ao estudante de poesia: ver como o poeta cerca um tema, como o tece nas aproximações entre palavra e idéia, como os desconstroi, como se desenrolasse o novelo do poema discursivo, partisse o diamante. Vê-se como no desafio da feitura durante o poente a tensão se distribui ora lenta ora solta, pois há crepúsculos mais rápidos que outros, aparentemente.

Ao compararmos as três variantes, desde os versos às decupagens e espacializações, vermos o que Amanda descarta e reaproveita. Feita a leitura reversa, da variante 3 à variante 1, chegarmos à matriz emocional que cada poente despertou e à síntese que é o título-e-primeiro-verso do poema. Fascinante a experiência. Comparemos, num poema curto da série.

Una sola fruta fugaz


[1ª variação do tema, o poema em versos:]

Una sola fruta fugaz
desmedida.
Nadie la alcanza.
Se la traiga limpiamente
el horizonte.
El espacio es una boca
ensangrentada
vacía ahora.
Y nosotros tenemos hambre.

 

[2ª variação, as reduções:]

sólo     viento     en      la     garganta
                                         magra
                                         gárgola
hambrienta

[3ª variação, o poema gráfico]

                                         S
                                      B O C A V A C I A
                                         L
                                         A
                                         F U G A Z
                                         R
                                         U
                                         T
                                      N A D A     Y

                                                       V
                                                       A
                                                       C
                                                        I
                                          A H O R A H O R A
                                                       O A
                                                       R M
                                                       A   B
                                                           R
                                                           E

Achado criativo empolgante o desta tríplice poematização de Amanda.

E raramente o tema da vida breve terá sido tratado com esta beleza contida nos versos e nas audaciosas variantes de Amanda. Ela e o sol protagonistas do tempus fugit que é o assunto matriz da obra. Notem-se os versos finais do primeiro e do último poema do livro: "estamos para callarnos/estamos para la noche" e "Yo espero lo imposible". Poeta que declara que sem experimentação não há poesia, que acha tão importante a palavra no espaço de Mallarmé quanto a palavra no tempo de Machado, e que qualquer assunto serve à poesia, mostra ela neste livro a coerência de sua contínua busca do novo, sua coragem de expor-se, e faze-lo com tão original encantamento.

E as frutas? Quais as suas identidades?

As de Amanda, que em entrevista se diz dona-de-casa, que escreve poema de título "Ttarefas domésticas",e que olhando estas frutas além de suas cores e sabores, escreve um frutário inserido na tradição de grandes textos literários.O livro, a propósito, tem como epígrafes magníficos versos de Emily Dickinson, Darío, Góngora, Eluard, Neruda, Wallace Stevens, entre outros. Como tantos breviários, bestiários, maquinários literários, seu frutário dá a conhecer o desconhecido ou revela o imper- ceptível do objeto à vista:

Amanda se faz Pomona e nos oferta frutas sob nova luz.

Veja-se a delicadeza da pera, o erótico do figo, o requinte da uva quase vinho, o edênico e o festivo da maçã, sua aura de pecado e de alegria.

Descrições? Sim, mas quase sempre a sublimação quase abstrata em busca da secreta identidade particular e certa de cada fruta, sem que jamais se perca de vista o objeto fruta, sua textura, seu aroma. (Seu sabor? Muitas vezes.)

Estes poemas são também uma nova estação na incessante armação da Obra de Amanda – uma estação de coisificação, no sentido de Ponge ou do Rilke dos" Novos Poemas".Como em " Composición de lugar" o domínio do olho, em maior aproximação, porém. Como se o olho trouxesse junto o sentido do tato, ausente nos crepúsculos. Nova estação e "turning

point",creio. Publicou-se após a obra reunida em "Poesias 1949-1979" e já revelava outro vocabulário, que vai em seguida continuar nos livros que se sucedem: "Los signos sobre la mesa","La dama de Elche","La estranguladora". Um vocabulário de crescente clareza e concreção, sem perda de mistério.

Em "Identidad de ciertas frutas " AB transcende a fase da experimentação radical mas jamais abandonará a procura do novo, da mineração da linguagem poética. São dela estas palavras: "Minha biografia é uma sucessão de acontecimentos com a linguagem. Y no tengo más."

 

Três poemas de Amanda Berenguer
(em tradução de Izacyl Guimarães Ferreira)

 

Poniente sobre el mar del jueves 24 de febrero de 1972

Plomo derretido el aire cae
piedra el cielo cae
sobre el agua salada amarga
y negra cae
estamos para asomarnos
al pozo más profundo
las dunas se aprietan
algunas reptan
espaciosas tortugas de silencio
si lloviera habría cortocircuito
la artillería quemaría
la espera
color de bala de metal
curtido sobre el ardor
quieto agazapado
me incrusto en mi país
en su costa amurallada
ahora es la hora
que más duele dura e fría
por si acaso
tuviéramos suerte
y pudiéramos atravesar
esta breve fisura en carne viva
así no importa
la imaginación no vale
la palabra se encanta
y también cae
estamos para callarnos
estamos para la noche.

 

Poente sobre o mar de 5ª feira 24 de fevereiro de 1972

Chumbo derretido cai o ar
pedra cai o céu
sobre a água salgada amarga
e negra cai
estamos assomando
ao poço mais profundo
as dunas se apertam
algumas se arrastam
espaçosas tartarugas de silêncio
se chovesse haveria curto-circuito
ou a artilharia queimaria
a espera
tingida de bala de metal
curtido sobre o ardor
quieto agachado
me incrusto em meu país
em sua costa amuralhada
agora é a hora
dolorosa dura e fria
se por acaso
tivéssemos sorte
e pudéssemos atravessar
essa breve fissura em carne viva
assim não importa
a imaginação não vale
a palavra se encanta
e também cai
estamos quase calados
estamos à beira da noite

 

Poniente sobre el mar del miércoles 1º de marzo de 1972

Porque hunde usted
su cabeza cortada en el filo
del agua azul marino
su cabeza entre pájaros suspensos
nubes alas pendientes
del tono final de las guindas
porque desciende usted rojo
al patíbulo del horizinte
señor del día poderoso y vencido
soporto la sombra el engaño
las pesadillas los murciélagos
el soplo negro que llega del mar
porque sé que renace usted
sin escrúpulos
mañana al amanecer.

 

Poente sobre o mar de 4ª feira 1º de março de 1972

Porque afundas a cabeça
cortada pelo gume
de água azul marinho
tua cabeça entre pássaros suspensos
asas pendentes as nuvens
na tonalidade derradeira das cerejas
porque desces rubro
ao patíbulo do horizonte
poderoso e vencido senhor do dia
suporto a sombra o engano
os pesadelos os morcegos
o sopro negro que chega do mar
porque sei que renasces
sem escrúpulos
amanhã ao amanhecer.

 

Poniente sobre el mar del miércoles 16 de enero de 1974

Un árbol azul transparente
hunde sus raíces en el mar celeste.
Por el tronco desciende un foco
claro como la inteligencia,
es total la plenitud al borde de la mañana.
De ayer pasan gaviotas nubes insectos
hoy ahora siempre o nunca si
tiembla el aleteo si cabe el fugaz
parpadeo. Con voluntad de inocente despliegue
se expande un jarabe anaranjado
de la mecha inicial.
El tiempo que late huele a licores.
El silencio es dulce como miel.
Yo espero lo imposible.

 

Poente sobre o mar de 4ª feira 16 de janeiro de 1974

Uma árvore azul transparente
finca as raízes no mar celeste.
Pelo tronco desce um facho
claro como a inteligência.
É total a plenitude à borda do amanhã.
Vêm de ontem nuvens gaivotas insetos
hoje agora sempre ou nunca se
adeja um tremor se
cabe um fugaz pestanejar.
Numa inocente vontade de exibir-se,
da mecha inicial se expande
uma calda alaranjada.
É licoroso o aroma do pulsar do tempo.
O silêncio é doce, é um mel.
Eu espero o impossível.

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