Estabelece-se relações peculiares com um autor
que se desconhece pessoalmente e cujos livros correm paralelos com a própria
experiência. Para alguém Jaime Sabines é "Jaime Sabines": o falante que
configuram seus poemas. Não há intercâmbio, a comunicação se dá em uma rua de
sentido único. Agradecemos ao poeta que digo o que necessitávamos para que nos
expressássemos através de seus versos. O censuramos porque não respondeu, sem sabê-lo,
nossas demandas e seguiu seu próprio caminho em vez do que, de maneira solipsista,
esperávamos que tomasse a fim de seguir escrevendo menos para nós do que por nós.
Esta é a ditadura hedônica do leitor. O poeta
a ignora e faz bem em ignorá-la pois somente comprazendo-se a si mesmo pode aspirar a
comprazer aos demais. Destruir-se-ia se acaso atendesse ao telefone para por o disco que
mais nos agrada. A relação torna-se ainda mais problemática quando sobrevive ao peso
dos anos e às mudanças de cada dia. Tende-se a enraizar-se no primeiro deslumbramento;
narcisisticamente o identifica com sua própria juventude e nega-se a aceitar o
desenvolvimento do poeta. Dali que para os leitores envelhecidos com ele os melhores
livros de um autor sejam sempre os primeiros. Ou então, aquele poeta predileto se demora
afundando em certos temas e em determinadas formas, porque ninguém tem um repertório
infinito e a habilidade ou, em certos casos, a grandeza, derivam da exploração que um
poeta sabe fazer de suas limitações. E então sentimos que aquele acompanhante
silencioso nos desertou porque não foi onde fomos nem nos disse o que desejávamos
escutar no momento em que o necessitamos.
O poema não tem muito controle sobre esta
situação que admite tantas variantes como leitores. Em um meio sem comunidade
intelectual, onde apenas começa a existir a crítica universitária e onde nos
sentiríamos ridículos mandando cartas de agradecimento ou reprovação a escritores que
não conhecemos, as resenhas são a única maneira de inteirar-se do que pensa ao menos um
reduzido setor do reduzidíssimo público.
Além do mais, o Nuevo recuento de poemas
aparece em um âmbito distinto. Ganhou todas as batalhas a revolução que há meio
século iniciaram para a poesia mexicana livros como El soldado desconocido, do
nicaragüense Salomón de la Selva e Espejo, de Salvador Novo. O poema falado se
impôs ao poema cantado. O realismo coloquial (já ninguém quer chamá-lo antipoesia) é
a linha avassaladoramente dominante. À diferença de 1962, hoje são as outras tentativas
as que representam a marginalidade e a dissidência. Por virtude de seu triunfo e ainda
que se neguem a reconhecê-lo, os antigos rebeldes constituem agora o nono establishment.
Porém sempre haverá mil caminhos abertos, mil rotas muito distintas da nossa.
Tudo isto é anedótico e nada mais descreve
senão alguns dos arredores que circundam esse lugar de encontro entre autor e leitor onde
sucede a poesia. Para elogiá-lo e para opô-lo a outros, pois ainda não cabe em nossa
mentalidade que "a excelência possa corresponder a vários", tende-se a
identificar Sabines com a figura paradigmática do poeta inspirado oposto ao poeta
artista. Morto León Felipe, pretendeu-se fazer de Sabines o poeta predileto das pessoas
que não gostam de poesia. O macho que debanda os poetinhas maricas mostrando-lhes o vulto
de sua pistola. O "vate", o "bardo" em estado selvagem que grita e se
desprende enquanto os outros lustram seus versinhos e se esforçam por aprender e
experimentar. Um leitor atento sabe que se insulta Sabines, como se injuriou León Felipe
ao glorificá-lo por estas razões sem reparar que, se quanto diga Sabines resulta
importante, efetivo, entranhável, é - e não poderia ser de outra maneira - precisamente
pela forma com que o diz, pela aliança perfeita e natural e som e sentido que há em seus
melhores poemas.
Sabines tinha 24 anos quando em 1950 publicou Horal.
Nesse livro já há a mesma habilidade para o poema breve e o extenso, já abundam as
páginas que não serão esquecidas, já está a voz intransferível, irrepetível de um
poeta: "Lento, amargo animal / que sou que fui, / amargo desde o nó de pó e água e
vento / que na primeira geração do homem pedia a Deus
" Já figura - então
como uma pedra no tanque, hoje como instrumental de uso comum - o falante que se dá ao
luxo de exclamar: "Ah mula vida" e "Eu trazia um amor retadentro". E
é justo dizer que esta conquista da fala comum, esta colonização da linguagem oral
pelos poetas que nasceram de 1920 a 1930 é uma das vitórias perduráveis de toda a
geração do 50, cada um a seu estilo: Bonifaz Nuño (Los demónios y los días),
Rosario Castellanos, Dolores Castro, Manuel Durán, Jaime García Terrés, Enrique
González Rojo, Miguel Guardia (El retorno), Jorge Hernández Campos, Eduardo
Lizalde, Tomás Segovia e, de um modo mais resolvido, embora menos logrado, Jesús
Arellano, o principal animador e provocador das revistas geracionais e um dos primeiros
editores de Sabines. Em Metáfora (1955-1957) Arellano se antecipou a propor, a
opor, a alternativa Huerta-Sabines às outras correntes da poesia mexicana.
O jovem que fala em Horal é um velho
conhecido para esta poesia. No entanto, expressa-se com acento diferente. Chegou da
província, sente-se extraviado na cidade, descobre a natureza de sua terra, sofre com
seus amores e pesadelos e, como o outro (RLV), não tem medo de empregar a palavra
"coração". Tampouco teme ser confessional e salva-se de parecer
auto-compassivo graças a um conceito ou melhor: um sentimento de que somente nela não
derivou: a ternura. A ternura que lhe permite chorar a bela vida.
La señal (1951) mostra que Sabines antes de
lançar-se à estrada fez sua tarefa. Comove-nos ao falar do que nos passa a todos porque
sabe enfocá-lo, objetivá-lo em uma organização verbal chamada poema. E seu instinto
poético, sua destreza, põe-se à prova e emerge deslumbrante na prosa admirável de Adán
y Eva (1952), um gênero que apesar de todos os antecedentes ilustres na produção
nacional, apesar de ¿Águila o sol?, publicado meses atrás, resultava por aqueles
anos tão insólito que o texto, tão ostensivamente poético, foi incluído em um Anuario
del Cuento.
Quem escreve: "Fogo lento, preciso, árvore
contínua, atraem-nos tuas folhas instantâneas, teu tronco permanente. Deixa-nos estar
junto a ti, junto a teu amor faminto. Cresces aniquilando, medida da destruição,
estatura para dentro, duração para trás, tempo invertido, morte morrendo,
nascimento", pode ser um poeta todo espontâneo e natural que se queira porém nunca
será torpe nem "descuidado".
Sabines é um poeta de inclusões. Um poeta que
não exclui ter quedas abissais (como as tem também o mais cingido dos poetas de um só
livro) que lhe servem de apoio a seus grandes momentos e de sustentação para uma
armação onde se expressa e representa uma experiência mais ampla que o testemunho
autobiográfico. A poesia de Sabines é a grande representação poética do que foi viver
no México em meados do século XX - evidente que para certa classe à qual pertencemos
ele, seus leitores e seus comentaristas. Uma classe que dialogou consigo mesma na
literatura mexicana e cujo monopólio somente agora começa a rachar. Cartas confidenciais
da classe média para a classe média e a partir da classe média: isto tem sido nossas
letras apesar de suas tentativas populistas ou alexandrinos que até agora acabaram por
integrar-se a uma corrente central. Os filhos da Revolução de 1910, seus beneficiários
e seus enterradores, foram os únicos ocupantes do espaço literário mexicano em um arco
que se estende da esperança e do entusiasmo em tempos de Obregón ao desastre e a
indignada desesperança da época de Echeverría.
Tarumba (1956) é o livro menos compreendido
de Sabines em seu país e o mais apreciado fora daqui. Mesmo que Sabines tenha dito que
não faz livro e sim poemas, Tarumba é um livro, um só poema com todas as
mudanças internas que não se desvanecem, mas sim que sublinham a unidade profunda do
conjunto. (O mesmo sucede em sua obra mestra Algo sobre la muerte del mayor Sabines.)
Sabines é tão inteligente que pode dar-se ao luxo de fazer um texto deliberadamente naif,
o que é uma contradição em termos. Um texto que ninguém entendeu em seu momento porque
seus verdadeiros leitores apenas estavam nascendo. Tarumba é poesia dos anos
setenta: "Pus uma cabeça sobre teu ombro / e começou a rir; / uma bombinha
elétrica / e acendeu. / Pus uma cebola / e aproximou-se um coelho. / Pus minha mão / e
estalaste." Por caminhos misteriosos (ou foi a leitura de nossos primeiros
"antipoetas": De la Selva, Novo, o jovem Efraín Huerta?) Sabines assume e
transcende as tentativas que em 1954 havia iniciado Nicanor Parra, a quem fidedignamente
somente conheceu e leu em Cuba em 1965, nove anos depois de Tarumba.
Os "Poemas soltos" (1951-1961) deviam
ter formado uma série com um título próprio ou integrar-se a Horal e La señal, mesmo
que muitos sejam contemporâneos e afins a Tarumba. Entre eles se dão vários definitivos
e já indeléveis: "A enfermidade vem de longe", "Eis que aqui estamos
reunidos", para citar tão-somente dois exemplos.
Diario semanario y poemas en prosa (1961)
consuma a empresa dessacralizadora e se adianta ao que está por vir: a poesia já não é
a grande empresa arquitetônica e sinfônica da qual Gorostiza se despediu em Muerte
sin fin (e que ainda deu Piedra de sol e Fuego de pobres) mas sim as
fibras e rescaldos que deixa a passagem da vida em uma pessoa que já não é o
"bardo" e sim o transeunte, o automobilista, o cidadão. Algo indeliberado que
se faz sem muita fé nem excessivo entusiasmo porém, de todo modo, como diz o próprio
Sabines, "dá alegria fazer um poema". Uma atividade que em última instância
é um pouco vergonhosa, forma de covardia, vício secreto que se exibe patologicamente:
Dentro em pouco vais oferecer estas páginas aos
desconhecidos como se estendesses na mão um punhados de ervas que houvesses cortado.
Ufano e aflito de tua proeza, regressarás a echarte ao lugar preferido. Dizes que és
poeta porque não tens o pudor necessário do silêncio. Pois vás, ladrão, com o que
roubas de tua dor e de teus amores! A ver que imagem fazes de ti mesmo com os pedaços que
recolhes de tua sombra!
Graças ao fato de que Sabines não teve "o
pudor do silêncio" nossas vidas foram enriquecidas com essas duas grandes elegias:
ao pai Sabines e a Dona Luz. Ambos deixam de ser pessoas concretas e se convertem no pai e
na mãe de todos os leitores, em seu protesto inútil contra a orfandade, a enfermidade, a
inconsolável humilhação da morte.
Sabines se tornou tão merecidamente prestigiado
com o primeiro Recuento de poemas, foi aceito de maneira tão unânime mêssmo (e
sobretudo) pela establishment de então, ao que não deixou de afrontar por todos os
meios, que a partir de Yuria (1967) e Maltiempo (1972) e a despeito das
páginas excelentes contidas neles, resultou de bom tom elogiá-lo de maneira
condescendente - como se algum de nós tivesse escrito o que escreveu Sabines - ou
deplorar que não se sustentava na altura de Algo sobre la muerte del mayor Sabines
(poema e livro que, no entanto, não se publicou em forma total, e em silêncio, até
1973).
O Nuevo recuento põe as coisas em seu
lugar e nos demostra que há duas maneiras de exigência para com um autor. Uma, a
norte-americana, cuja aspiração é O livro. "Diz tua palavra e parte." Outra,
a européia, contempla A Obra em toda sua extensão não como um Everest único ou
irrepetível mas sim como uma cordilheira em que há alturas maiores que outras (e também
e inevitavelmente desfiladeiros, páramos, precipícios) porém onde tudo se resolve em
uma coerência superior que harmoniza as luzes e as sombras.
Jaime Sabines aparece sob este critério como um
dos escassos poetas mexicanos que verdadeiramente fizeram uma obra: um impressionante
Inventário e, digamos, cinco poemas (não necessariamente os mesmos para cada leitor) que
estão entre os grandes de sua língua e de seu século. Não se pode pedir mais nem se
pode aspirar mais por imensas que sejam as ambições. Sabines equivoca-se como todos
porém acerta como poucos. Tem direito a que o julguemos e recordemos por seus melhores,
abundantes, momentos. Sem esses textos que disparam em todos as direções sem chegar
nunca a se organizar, Sabines não seria Sabines, não nos teria dado aquelas outras
páginas que permanecem em nossa memória e nos acompanharão enquanto estivermos vivos.