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Novo inventário de poemas de Jaime Sabines

José Emilio Pacheco

Não há releituras. Ao retornar a um texto que sabemos quase de memória já não somos os mesmos, o mundo mudou, a página surge pela primeira vez diante de nossos olhos. Não é o mesmo haver lido Jaime Sabines em 1962 e lê-lo em 1977. A quinze anos de sua edição original, este é verdadeiramente um Nuevo recuento de poemas. Porém hoje, como naquela ocasião, a única resposta possível é aceitar, reconhecer com entusiasmo, que Jaime Sabines é um grande poeta.

Estabelece-se relações peculiares com um autor que se desconhece pessoalmente e cujos livros correm paralelos com a própria experiência. Para alguém Jaime Sabines é "Jaime Sabines": o falante que configuram seus poemas. Não há intercâmbio, a comunicação se dá em uma rua de sentido único. Agradecemos ao poeta que digo o que necessitávamos para que nos expressássemos através de seus versos. O censuramos porque não respondeu, sem sabê-lo, nossas demandas e seguiu seu próprio caminho em vez do que, de maneira solipsista, esperávamos que tomasse a fim de seguir escrevendo menos para nós do que por nós.

Esta é a ditadura hedônica do leitor. O poeta a ignora e faz bem em ignorá-la pois somente comprazendo-se a si mesmo pode aspirar a comprazer aos demais. Destruir-se-ia se acaso atendesse ao telefone para por o disco que mais nos agrada. A relação torna-se ainda mais problemática quando sobrevive ao peso dos anos e às mudanças de cada dia. Tende-se a enraizar-se no primeiro deslumbramento; narcisisticamente o identifica com sua própria juventude e nega-se a aceitar o desenvolvimento do poeta. Dali que para os leitores envelhecidos com ele os melhores livros de um autor sejam sempre os primeiros. Ou então, aquele poeta predileto se demora afundando em certos temas e em determinadas formas, porque ninguém tem um repertório infinito e a habilidade ou, em certos casos, a grandeza, derivam da exploração que um poeta sabe fazer de suas limitações. E então sentimos que aquele acompanhante silencioso nos desertou porque não foi onde fomos nem nos disse o que desejávamos escutar no momento em que o necessitamos.

O poema não tem muito controle sobre esta situação que admite tantas variantes como leitores. Em um meio sem comunidade intelectual, onde apenas começa a existir a crítica universitária e onde nos sentiríamos ridículos mandando cartas de agradecimento ou reprovação a escritores que não conhecemos, as resenhas são a única maneira de inteirar-se do que pensa ao menos um reduzido setor do reduzidíssimo público.

Além do mais, o Nuevo recuento de poemas aparece em um âmbito distinto. Ganhou todas as batalhas a revolução que há meio século iniciaram para a poesia mexicana livros como El soldado desconocido, do nicaragüense Salomón de la Selva e Espejo, de Salvador Novo. O poema falado se impôs ao poema cantado. O realismo coloquial (já ninguém quer chamá-lo antipoesia) é a linha avassaladoramente dominante. À diferença de 1962, hoje são as outras tentativas as que representam a marginalidade e a dissidência. Por virtude de seu triunfo e ainda que se neguem a reconhecê-lo, os antigos rebeldes constituem agora o nono establishment. Porém sempre haverá mil caminhos abertos, mil rotas muito distintas da nossa.

Tudo isto é anedótico e nada mais descreve senão alguns dos arredores que circundam esse lugar de encontro entre autor e leitor onde sucede a poesia. Para elogiá-lo e para opô-lo a outros, pois ainda não cabe em nossa mentalidade que "a excelência possa corresponder a vários", tende-se a identificar Sabines com a figura paradigmática do poeta inspirado oposto ao poeta artista. Morto León Felipe, pretendeu-se fazer de Sabines o poeta predileto das pessoas que não gostam de poesia. O macho que debanda os poetinhas maricas mostrando-lhes o vulto de sua pistola. O "vate", o "bardo" em estado selvagem que grita e se desprende enquanto os outros lustram seus versinhos e se esforçam por aprender e experimentar. Um leitor atento sabe que se insulta Sabines, como se injuriou León Felipe ao glorificá-lo por estas razões sem reparar que, se quanto diga Sabines resulta importante, efetivo, entranhável, é - e não poderia ser de outra maneira - precisamente pela forma com que o diz, pela aliança perfeita e natural e som e sentido que há em seus melhores poemas.

Sabines tinha 24 anos quando em 1950 publicou Horal. Nesse livro já há a mesma habilidade para o poema breve e o extenso, já abundam as páginas que não serão esquecidas, já está a voz intransferível, irrepetível de um poeta: "Lento, amargo animal / que sou que fui, / amargo desde o nó de pó e água e vento / que na primeira geração do homem pedia a Deus…" Já figura - então como uma pedra no tanque, hoje como instrumental de uso comum - o falante que se dá ao luxo de exclamar: "Ah mula vida" e "Eu trazia um amor retadentro". E é justo dizer que esta conquista da fala comum, esta colonização da linguagem oral pelos poetas que nasceram de 1920 a 1930 é uma das vitórias perduráveis de toda a geração do ’50, cada um a seu estilo: Bonifaz Nuño (Los demónios y los días), Rosario Castellanos, Dolores Castro, Manuel Durán, Jaime García Terrés, Enrique González Rojo, Miguel Guardia (El retorno), Jorge Hernández Campos, Eduardo Lizalde, Tomás Segovia e, de um modo mais resolvido, embora menos logrado, Jesús Arellano, o principal animador e provocador das revistas geracionais e um dos primeiros editores de Sabines. Em Metáfora (1955-1957) Arellano se antecipou a propor, a opor, a alternativa Huerta-Sabines às outras correntes da poesia mexicana.

O jovem que fala em Horal é um velho conhecido para esta poesia. No entanto, expressa-se com acento diferente. Chegou da província, sente-se extraviado na cidade, descobre a natureza de sua terra, sofre com seus amores e pesadelos e, como o outro (RLV), não tem medo de empregar a palavra "coração". Tampouco teme ser confessional e salva-se de parecer auto-compassivo graças a um conceito ou melhor: um sentimento de que somente nela não derivou: a ternura. A ternura que lhe permite chorar a bela vida.

La señal (1951) mostra que Sabines antes de lançar-se à estrada fez sua tarefa. Comove-nos ao falar do que nos passa a todos porque sabe enfocá-lo, objetivá-lo em uma organização verbal chamada poema. E seu instinto poético, sua destreza, põe-se à prova e emerge deslumbrante na prosa admirável de Adán y Eva (1952), um gênero que apesar de todos os antecedentes ilustres na produção nacional, apesar de ¿Águila o sol?, publicado meses atrás, resultava por aqueles anos tão insólito que o texto, tão ostensivamente poético, foi incluído em um Anuario del Cuento.

Quem escreve: "Fogo lento, preciso, árvore contínua, atraem-nos tuas folhas instantâneas, teu tronco permanente. Deixa-nos estar junto a ti, junto a teu amor faminto. Cresces aniquilando, medida da destruição, estatura para dentro, duração para trás, tempo invertido, morte morrendo, nascimento", pode ser um poeta todo espontâneo e natural que se queira porém nunca será torpe nem "descuidado".

Sabines é um poeta de inclusões. Um poeta que não exclui ter quedas abissais (como as tem também o mais cingido dos poetas de um só livro) que lhe servem de apoio a seus grandes momentos e de sustentação para uma armação onde se expressa e representa uma experiência mais ampla que o testemunho autobiográfico. A poesia de Sabines é a grande representação poética do que foi viver no México em meados do século XX - evidente que para certa classe à qual pertencemos ele, seus leitores e seus comentaristas. Uma classe que dialogou consigo mesma na literatura mexicana e cujo monopólio somente agora começa a rachar. Cartas confidenciais da classe média para a classe média e a partir da classe média: isto tem sido nossas letras apesar de suas tentativas populistas ou alexandrinos que até agora acabaram por integrar-se a uma corrente central. Os filhos da Revolução de 1910, seus beneficiários e seus enterradores, foram os únicos ocupantes do espaço literário mexicano em um arco que se estende da esperança e do entusiasmo em tempos de Obregón ao desastre e a indignada desesperança da época de Echeverría.

Tarumba (1956) é o livro menos compreendido de Sabines em seu país e o mais apreciado fora daqui. Mesmo que Sabines tenha dito que não faz livro e sim poemas, Tarumba é um livro, um só poema com todas as mudanças internas que não se desvanecem, mas sim que sublinham a unidade profunda do conjunto. (O mesmo sucede em sua obra mestra Algo sobre la muerte del mayor Sabines.) Sabines é tão inteligente que pode dar-se ao luxo de fazer um texto deliberadamente naif, o que é uma contradição em termos. Um texto que ninguém entendeu em seu momento porque seus verdadeiros leitores apenas estavam nascendo. Tarumba é poesia dos anos setenta: "Pus uma cabeça sobre teu ombro / e começou a rir; / uma bombinha elétrica / e acendeu. / Pus uma cebola / e aproximou-se um coelho. / Pus minha mão / e estalaste." Por caminhos misteriosos (ou foi a leitura de nossos primeiros "antipoetas": De la Selva, Novo, o jovem Efraín Huerta?) Sabines assume e transcende as tentativas que em 1954 havia iniciado Nicanor Parra, a quem fidedignamente somente conheceu e leu em Cuba em 1965, nove anos depois de Tarumba.

Os "Poemas soltos" (1951-1961) deviam ter formado uma série com um título próprio ou integrar-se a Horal e La señal, mesmo que muitos sejam contemporâneos e afins a Tarumba. Entre eles se dão vários definitivos e já indeléveis: "A enfermidade vem de longe", "Eis que aqui estamos reunidos", para citar tão-somente dois exemplos.

Diario semanario y poemas en prosa (1961) consuma a empresa dessacralizadora e se adianta ao que está por vir: a poesia já não é a grande empresa arquitetônica e sinfônica da qual Gorostiza se despediu em Muerte sin fin (e que ainda deu Piedra de sol e Fuego de pobres) mas sim as fibras e rescaldos que deixa a passagem da vida em uma pessoa que já não é o "bardo" e sim o transeunte, o automobilista, o cidadão. Algo indeliberado que se faz sem muita fé nem excessivo entusiasmo porém, de todo modo, como diz o próprio Sabines, "dá alegria fazer um poema". Uma atividade que em última instância é um pouco vergonhosa, forma de covardia, vício secreto que se exibe patologicamente:

 

Dentro em pouco vais oferecer estas páginas aos desconhecidos como se estendesses na mão um punhados de ervas que houvesses cortado. Ufano e aflito de tua proeza, regressarás a echarte ao lugar preferido. Dizes que és poeta porque não tens o pudor necessário do silêncio. Pois vás, ladrão, com o que roubas de tua dor e de teus amores! A ver que imagem fazes de ti mesmo com os pedaços que recolhes de tua sombra!

Graças ao fato de que Sabines não teve "o pudor do silêncio" nossas vidas foram enriquecidas com essas duas grandes elegias: ao pai Sabines e a Dona Luz. Ambos deixam de ser pessoas concretas e se convertem no pai e na mãe de todos os leitores, em seu protesto inútil contra a orfandade, a enfermidade, a inconsolável humilhação da morte.

Sabines se tornou tão merecidamente prestigiado com o primeiro Recuento de poemas, foi aceito de maneira tão unânime mêssmo (e sobretudo) pela establishment de então, ao que não deixou de afrontar por todos os meios, que a partir de Yuria (1967) e Maltiempo (1972) e a despeito das páginas excelentes contidas neles, resultou de bom tom elogiá-lo de maneira condescendente - como se algum de nós tivesse escrito o que escreveu Sabines - ou deplorar que não se sustentava na altura de Algo sobre la muerte del mayor Sabines (poema e livro que, no entanto, não se publicou em forma total, e em silêncio, até 1973).

O Nuevo recuento põe as coisas em seu lugar e nos demostra que há duas maneiras de exigência para com um autor. Uma, a norte-americana, cuja aspiração é O livro. "Diz tua palavra e parte." Outra, a européia, contempla A Obra em toda sua extensão não como um Everest único ou irrepetível mas sim como uma cordilheira em que há alturas maiores que outras (e também e inevitavelmente desfiladeiros, páramos, precipícios) porém onde tudo se resolve em uma coerência superior que harmoniza as luzes e as sombras.

Jaime Sabines aparece sob este critério como um dos escassos poetas mexicanos que verdadeiramente fizeram uma obra: um impressionante Inventário e, digamos, cinco poemas (não necessariamente os mesmos para cada leitor) que estão entre os grandes de sua língua e de seu século. Não se pode pedir mais nem se pode aspirar mais por imensas que sejam as ambições. Sabines equivoca-se como todos porém acerta como poucos. Tem direito a que o julguemos e recordemos por seus melhores, abundantes, momentos. Sem esses textos que disparam em todos as direções sem chegar nunca a se organizar, Sabines não seria Sabines, não nos teria dado aquelas outras páginas que permanecem em nossa memória e nos acompanharão enquanto estivermos vivos.

Ensaio escrito em 1977 e originalmente publicado em Vuelta # 9 (México. Agosto de 1977). Foi posteriormente incluído em Uno es el poeta (Jaime Sabines y sus críticos)(Secretaría de Educación Pública. México. 1988), em edição organizada por Mónica Mansour. O poeta José Emilio Pacheco (México, 1939) é também autor de Irás y no volverás (1973) e Desde entonces (1980). Tradução de Floriano Martins.

 

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