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hispânica

Banda Hispânica (collage, Floriano Martins)

Octavio Paz

(México, 1914-1998)

Obra poética

Libertad bajo palabra (1935-1957). Fondo de Cultura Económica. México. 1960.
Salamandra. Joaquín Mortiz Editor. México. 1962.
Ladera este. Joaquín Mortiz Editor. México. 1969.
Pasado en claro. Fondo de Cultura Económica. México. 1975.
Vuelta. Ediciones Seix Barral. Barcelona. 1976.
Poemas (1935-1975). Ediciones Seix Barral. Barcelona. 1979.
Árbol adentro. Ediciones Seix Barral. Barcelona. 1987.

Collage, Floriano Martins

 

Em defesa da poesia

O conhecimento poético é o único que nos resta frente ao progressivo anquilosamento da visão religiosa ou frente à dispersão do conhecimento científico. Os grandes sistemas filosóficos desapareceram. A filosofia analítica se encontra em um "impasse", daí que filósofos como Robert Nozik tentem encontrar uma via de saída. Quanto à fenomenologia e seus herdeiros: não há ninguém depois de Sartre. Seus sucessores são comentaristas de Heidegger, como Foucault e Derrida. E que dizer do marxismo? Converteu-se em uma escolástica universitária nos países capitalistas do Ocidente, especialmente nos Estados Unidos (a moda já passou na Europa), enquanto que no Leste é uma aborrecida ideologia estatal. Nas grandes religiões, a visão poética foi e é central; o mesmo devo dizer dos sistemas filosóficos do passado. Por isto, creio que o que pode dar um pouco de frescor espiritual a nossas vidas é o conhecimento poético. Não digo que a poesia possa substituir a religião ou a filosofia: digo que é a origem da religião e da filosofia. No assombro ante o Outro e os outros está a poesia: foi e é o gérmen, a semente primeira. Regressar a ela será regressar à origem.
Uma relação análoga à que existe entre poesia e filosofia aparece entre a poesia e o mito. A poesia tem sido criadora de mitos e foram os poetas os que converteram os mitos informes em poemas e obras de arte. Esta função da poesia não desapareceu em nossa época. A poesia tem rejuvenescido os mitos - Eliot em um extremo e, no outro, Joyce, para falar tão-somente de poetas de língua inglesa, ainda que também se possa citar Rilke, Apollinaire e outros.
[…]
Antes de tudo: os mitos são realidades. O são de uma dupla maneira: em primeiro termo, por terem vida própria e, em seguida, por expressarem, quase sempre de uma maneira metafórica e cifrada, uma dada situação e que corresponde a todo o grupo social. Por exemplo: a bomba atômica reintroduziu na consciência moderna o antigo mito da extinção do universo. Nossa sociedade não é a primeira que teme o desaparecimento do mundo em um grande cataclisma. Recorde os aztecas, os estóicos ou os cristões do Ano Mil. Em quase todas as religiões figura uma revelação - um apocalipse - relativa ao fim do mundo. Esse fim pode ser definitivo, como no cristianismo ou no Islã, ou cíclico, como no budismo e entre os estóicos. O assombroso é que a sociedade do progresso e da ciência, precisamente através da ciência e do progresso, tenha descoberto, por sua vez, a velha imagem da destruição cósmica. A diferença com o passado não é menos reveladora que a semelhança: para os antigos, a catástrofe confirmaria a verdade da revelação, enquanto que para os modernos a explosão nuclear nega as suposições de nosso mundo: a razão, o progresso, a ciência. Também é assombroso que os poetas tenham dito sempre o que agora descobrem os psicólogos e os sociólogos: a presença da violência mortífera, agarrada às dobras da alma humana ou nas entranhas da sociedade. Voltamos a sentir como os antigos, mesmo que pensemos de uma maneira distinta. Isto quer dizer que em nossa imagem do fim do mundo há uma fratura: foi uma visão religiosa e agora é uma possibilidade filha da ciência moderna e da violência ancestral do animal humano.

Octavio Paz


[Trechos de "Poesía de circunstancias", entrevista concedida a César Salgado. Revista Vuelta # 138. México. Maio de 1988.]

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Collage, Floriano Martins

 

Poemas
(traduções de Floriano Martins)

PEDRA NATIVA

A Roger Munier

A luz devasta as alturas
Manadas de impérios em derrota
O olho retrocede cercado de reflexos
Países vastos como a insônia
Pedregais de osso
Outono sem confins
Ergue a sede seus invisíveis provedores
Um último peru predica no deserto
Fecha os olhos e ouve cantar a luz:
O meio-dia aninha-se em teu tímpano
Fecha os olhos e abre-os:
Não há ninguém nem sequer tu mesmo
O que não é pedra é luz
 

APARIÇÃO

Voam aves radiantes destas letras. Amanhece a desconhecida em pleno dia, sol rival do sol, e irrompe entre os brancos e negros do poema. Pia na espessura de meu assombro. Pousa em meu peito com a mesma suavidade inexorável da luz que reclina a fronte sobre uma pedra abandonada. Estende suas asas e canta. Sua boca é um pombal de onde brotam palavras sem sentido, fonte deslumbrada por seu próprio manar, brancuras atônitas de ser. Depois desaparece.

Inocência entrevista, que cantas no pretil do poente na hora em que sou um rio que deserta no obscuro: que frutas bicas ali em cima?, em que ramos de qual árvore cantas os cantos da altura?
 
 

O RIO

A cidade desvelada circula por meu sangue como uma abelha.
E o avião que traça um gemido em forma de largo S, os bondes que se precipitam em esquinas remotas,
essa árvore carregada de injúrias que alguém sacode à meia-noite na praça,
os ruídos que sobem e estalam e os que se deslizam e cochicham na orelha um segredo que repta
abrem o obscuro, precipícios de ais e uis, túneis de vogais taciturnas,
galerias que percorro com os olhos vendados, o alfabeto sonolento cai na cova como um rio de tinta,
e a cidade vai e vem e seu corpo de pedra torna-se fanicos ao chegar em minha fonte,
toda a noite, um a um, estátua a estátua, fonte a fonte, pedra a pedra, toda a noite
seus pedaços se procuram em minha fronte, toda a noite a cidade fala adormecida por minha boca
e é um discurso incompreensível e arquejante, um gaguejo de águas e pedra batalhando, sua história.

Deter-se um instante, deter meu sangue que vai e vem, vai e vem e não diz nada,
sentado sobre mim mesmo como o iogue à sombra da figueira, como Buda na margem do rio, deter o instante,
um só instante, sentado na margem do tempo, apagar minha imagem do rio que fala adormecido e não diz nada e me leva consigo,
sentado na margem deter o rio, abrir o instante, penetrar por suas salas atônitas até seu centro de água,
beber na fonte inesgotável, ser a cascata de sílabas azuis que cai dos lábios de pedra,
sentado na margem da noite como Buda na margem de si mesmo ser o pestanejar do instante,
o incêndio e a destruição e o nascimento do instante e a respiração da noite fluindo enorme na margem do tempo,
dizer o que diz o rio, larga palavra semelhante a lábios, larga palavra que não acaba nunca,
dizer o que diz o tempo em duras frases de pedra, em vastos acenos de mar cobrindo mundos.

Na metade do poema me surpreende sempre um grande desamparo, tudo me abandona,
não há ninguém ao meu lado, nem sequer esses olhos que lá de atrás contemplam o que escrevo,
não há atrás nem adiante, a pluma se rebela, não há começo nem fim, tampouco há muro que saltar,
é uma esplanada deserta o poema, o dito não está dito, o não dito é indizível,
torres, terraços devastados, babilônias, um mar de sal negro, um reino cego,
                                 Não,
deter-me, calar, fechar os olhos até que brote de minhas pálpebras uma espiga, um provedor de sóis,
e o alfabeto ondule largamente sob o vento do sonho e a maré cresça em uma onda e a onda rompa o dique,
esperar até que o papel se cubra de astros e o poema seja um bosque de palavras enlaçadas,
                                 Não,
não tenho nada que dizer, nada tem nada que dizer, nada nem ninguém exceto o sangue,
nada senão este ir e vir do sangue, este escrever sobre o escrito e repetir a mesma palavra na metade do poema,
sílabas de tempo, letras rotas, gotas de tinta, sangue que vai e vem e não diz nada e me leva consigo.

E digo meu rosto inclinado sobre o papel e alguém ao meu lado escreve enquanto o sangue vai e vem,
e a cidade vai e vem por seu sangue, quer dizer algo, o tempo quer dizer algo, a noite quer dizer,
toda a noite o homem quer dizer uma só palavra, dizer afinal seu discurso feito de pedras desmoronadas,
e aguço o ouvido, quero ouvir o que diz o homem, repetir o que diz a cidade à deriva,
toda a noite as pedras rotas se procuram às tontas em minha fronte, toda a noite a água peleja contra a pedra,
as palavras contra a noite, a noite contra a noite, nada ilumina o opaco combate,
o choque das armas não arranca um relâmpago à pedra, uma faísca à noite, ninguém dá trégua,
é um combate até a morte entre imortais,
                                  Não,
dar marcha para trás, parar o rio de sangue, o rio de tinta,
remontar a corrente e que a noite, virada sobre si mesma, mostre suas entranhas,
que a água mostre seu coração, racimo de espelhos afogados,
que o tempo se feche e sua ferida seja uma cicatriz invisível, apenas uma delgada linha sobre a pele do mundo,
que as palavras deponham armas e o poema seja uma só palavra entretecida,
e a alma seja o pranto depois do incêndio, o peito lunar de um mar petrificado que não reflete nada
a não ser a extensão estendida, o espaço acostado sobre si mesmo, as asas imensas desdobradas,
e tudo seja como a chama que se esculpe e se gela na rocha de entranhas transparentes,
duro fulgor resolvido já em cristal e claridade pacífica.

E o rio remonta seu curso, redobra suas velas, recolhe suas imagens e se interna em si mesmo.

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