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Poemas
(traduções de Floriano Martins)
PEDRA NATIVA
A Roger Munier
A luz devasta as alturas
Manadas de impérios em derrota
O olho retrocede cercado de reflexos
Países vastos como a insônia
Pedregais de osso
Outono sem confins
Ergue a sede seus invisíveis provedores
Um último peru predica no deserto
Fecha os olhos e ouve cantar a luz:
O meio-dia aninha-se em teu tímpano
Fecha os olhos e abre-os:
Não há ninguém nem sequer tu mesmo
O que não é pedra é luz
APARIÇÃO
Voam aves radiantes destas letras. Amanhece a
desconhecida em pleno dia, sol rival do sol, e irrompe entre os brancos e negros do poema.
Pia na espessura de meu assombro. Pousa em meu peito com a mesma suavidade inexorável da
luz que reclina a fronte sobre uma pedra abandonada. Estende suas asas e canta. Sua boca
é um pombal de onde brotam palavras sem sentido, fonte deslumbrada por seu próprio
manar, brancuras atônitas de ser. Depois desaparece.
Inocência entrevista, que cantas no pretil do
poente na hora em que sou um rio que deserta no obscuro: que frutas bicas ali em cima?, em
que ramos de qual árvore cantas os cantos da altura?
O RIO
A cidade desvelada circula por meu sangue como
uma abelha.
E o avião que traça um gemido em forma de largo S, os bondes que se
precipitam em esquinas remotas,
essa árvore carregada de injúrias que alguém sacode à meia-noite na
praça,
os ruídos que sobem e estalam e os que se deslizam e cochicham na orelha
um segredo que repta
abrem o obscuro, precipícios de ais e uis, túneis de vogais taciturnas,
galerias que percorro com os olhos vendados, o alfabeto sonolento cai na
cova como um rio de tinta,
e a cidade vai e vem e seu corpo de pedra torna-se fanicos ao chegar em
minha fonte,
toda a noite, um a um, estátua a estátua, fonte a fonte, pedra a pedra,
toda a noite
seus pedaços se procuram em minha fronte, toda a noite a cidade fala
adormecida por minha boca
e é um discurso incompreensível e arquejante, um gaguejo de águas e
pedra batalhando, sua história.
Deter-se um instante, deter meu sangue que vai e
vem, vai e vem e não diz nada,
sentado sobre mim mesmo como o iogue à sombra da figueira, como Buda na
margem do rio, deter o instante,
um só instante, sentado na margem do tempo, apagar minha imagem do rio
que fala adormecido e não diz nada e me leva consigo,
sentado na margem deter o rio, abrir o instante, penetrar por suas salas
atônitas até seu centro de água,
beber na fonte inesgotável, ser a cascata de sílabas azuis que cai dos
lábios de pedra,
sentado na margem da noite como Buda na margem de si mesmo ser o
pestanejar do instante,
o incêndio e a destruição e o nascimento do instante e a respiração
da noite fluindo enorme na margem do tempo,
dizer o que diz o rio, larga palavra semelhante a lábios, larga palavra
que não acaba nunca,
dizer o que diz o tempo em duras frases de pedra, em vastos acenos de mar
cobrindo mundos.
Na metade do poema me surpreende sempre um
grande desamparo, tudo me abandona,
não há ninguém ao meu lado, nem sequer esses olhos que lá de atrás
contemplam o que escrevo,
não há atrás nem adiante, a pluma se rebela, não há começo nem fim,
tampouco há muro que saltar,
é uma esplanada deserta o poema, o dito não está dito, o não dito é
indizível,
torres, terraços devastados, babilônias, um mar de sal negro, um reino
cego,
Não,
deter-me, calar, fechar os olhos até que brote de minhas pálpebras uma
espiga, um provedor de sóis,
e o alfabeto ondule largamente sob o vento do sonho e a maré cresça em
uma onda e a onda rompa o dique,
esperar até que o papel se cubra de astros e o poema seja um bosque de
palavras enlaçadas,
Não,
não tenho nada que dizer, nada tem nada que dizer, nada nem ninguém
exceto o sangue,
nada senão este ir e vir do sangue, este escrever sobre o escrito e
repetir a mesma palavra na metade do poema,
sílabas de tempo, letras rotas, gotas de tinta, sangue que vai e vem e
não diz nada e me leva consigo.
E digo meu rosto inclinado sobre o papel e
alguém ao meu lado escreve enquanto o sangue vai e vem,
e a cidade vai e vem por seu sangue, quer dizer algo, o tempo quer dizer
algo, a noite quer dizer,
toda a noite o homem quer dizer uma só palavra, dizer afinal seu discurso
feito de pedras desmoronadas,
e aguço o ouvido, quero ouvir o que diz o homem, repetir o que diz a
cidade à deriva,
toda a noite as pedras rotas se procuram às tontas em minha fronte, toda
a noite a água peleja contra a pedra,
as palavras contra a noite, a noite contra a noite, nada ilumina o opaco
combate,
o choque das armas não arranca um relâmpago à pedra, uma faísca à
noite, ninguém dá trégua,
é um combate até a morte entre imortais,
Não,
dar marcha para trás, parar o rio de sangue, o rio de tinta,
remontar a corrente e que a noite, virada sobre si mesma, mostre suas
entranhas,
que a água mostre seu coração, racimo de espelhos afogados,
que o tempo se feche e sua ferida seja uma cicatriz invisível, apenas uma
delgada linha sobre a pele do mundo,
que as palavras deponham armas e o poema seja uma só palavra entretecida,
e a alma seja o pranto depois do incêndio, o peito lunar de um mar
petrificado que não reflete nada
a não ser a extensão estendida, o espaço acostado sobre si mesmo, as
asas imensas desdobradas,
e tudo seja como a chama que se esculpe e se gela na rocha de entranhas
transparentes,
duro fulgor resolvido já em cristal e claridade pacífica.
E o rio remonta seu curso, redobra suas velas,
recolhe suas imagens e se interna em si mesmo. |