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Banda Hispânica (collage, Floriano Martins)

César Vallejo

Collage, Floriano Martins

 

César Vallejo e a palavra transmutada

Alfredo Silva Estrada

I
A
transmutação da palavra poética, longe de ser um frio e sistemático produto de laboratório, é a resposta sempre singular de um ser humano que dota a palavra de uma nova vibração vital com os desajustes, desníveis, segredos, desequilíbrios e equilíbrios tantas vezes fugazes da existência vinculada conflitantemente com a realidade aparente ou com aquilo que, desde o exterior, quer se impor convencionalmente como o real.

Opondo-se a essa realidade convencional, rotineira e exterior em sua agressão monótona - em sua agressiva monotonia -, o poeta, mediante a transmutação da linguagem, acede a outra realidade: a realidade que ele habita e o habita no ato de sua criação.

O processo de transmutação da palavra poética sempre é inseparável do misterioso e intransferível de toda subjetividade e nada tem a ver com os planos programáticos do pensamento raciocinante, preocupado, por exemplo, com a necessidade de fazer avançar a arte - neste caso, a poesia - segundo uma perspectiva historicista.

Certo fatalismo guia, de cada ordem existencial, o fenômeno da transmutação que se opera no funcionamento da palavra dentro da poesia, especialmente da poesia contemporânea. Toda análise - psicológica, lingüística, sociológica, histórica, biográfica - resultaria posteriormente insuficiente para explicar este fenômeno. Em cada obra poética, a transmutação está aí, comunicante, como corrente que a si mesma se renova e irredutível aos procedimentos da lógica. Está aí, inconfundível, como um rosto, como a fisionomia mesma do poeta, como sua própria voz que se reconstitui transformada, interiorizada na nossa, em cada leitura (mesmo que nunca tenhamos escutado essa voz no real), toda presente nessa unidade, nessa "nobre plenitude do um", como diria Vallejo, reconhecível, além de toda explicação, mesmo em cada ruga, mesmo em cada sombra do poema carnal.

Para dizê-lo de uma vez, ante a interminável aproximação a um poeta: nele, a transmutação da palavra é sua maneira, seu recurso único para combater o desajuste, ou o desnível contemplativo, ou as fraturas, ou as fragmentações de seu ser frente à realidade do sentido comum e da ordem prática com todas suas engrenagens de "para" e a ditadura da lógica. Mediante o dinamismo da transmutação poética, o poeta instaura, fora do universo do cálculo e do real convencional, essa outra realidade surpreendente que lhe devolve, ainda que por instantes, sua própria e autêntica existência: o poema mesmo.

Transmutação da palavra poética: poesia como existência e como experiência. E, no extremo, sejam quais forem as diligências da vontade: impossibilidade da poesia como mera experimentação. Porque, na verdade, concretamente, onde estão o espaço, a matéria, os dados tangíveis de um poema? E onde a palavra nos enfrenta como material concreto, manipulável, substância de laboratório? Não é acaso a consciência imaginante, a de um leitor - a de todos e a de nenhum - o lugar, ao mesmo tempo definitivo e provisório de todo poema?

O que a palavra transmuta não seriam, talvez, as mais profundas crises, as aspirações menos mensuráveis, os sonhos mais alertas ou mais esquecidos, os júbilos, as plenitudes, as emoções menos definidas por complexas e intensas, os grandes lugares-comuns da existência que se reiteram cada vez com a força de uma primeira vez, tudo aquilo, enfim, que constitui o mais digno patrimônio do ser humana e que é menos submisso a uma linguagem comum e estatística?

Se cada grande poeta transmuta a palavra, não é porque o proponha deliberada e intelectivamente obedecendo a uma suposta evolução da arte, mas sim porque é esse ato sua mais forte maneira de existir, de sentir-se existente, seu único exercício respiratório, seu único acesso a essa realidade-outra que o impulsiona através das quebras e dos fracassos do real.

A alquimia e a vidência de Rimbaud arrancaram da dinâmica e do drama entre o eu individual do poeta e a subjetividade profunda que ele sentia ascender à sua poesia. Apetência de outridade. Desajuste e adaptação, ao mesmo tempo peremptória e precária… O desaparecimento vibratório da idéia (ou do objeto) em Mallarmé… O amparo nas coisas e o ponto de vista desde as coisas, em Ponge. Não são acaso tantos outros recursos de existir no poema?

II
César Vallejo existe no poema (transmuta a palavra existencialmente) projetando o sentimento, latente ou declarado, do absurdo da própria existência: o estar jogado no mundo sem justificação alguma:

Até quando este vale de lágrimas, para onde
eu nunca disse que me trouxessem
("A cena miserável", Los heraldos negros)

minha maioria na dor sem fim
e nosso haver nascido assim sem causa
("XXXIV", Trilce)

Haver nascido para viver de nossa morte!
(Poemas humanos)

Em suma, não possuo, para expressar minha vida, senão minha morte
(Poemas humanos)

Vallejo incorpora à criação poética, desnuda, explicitamente, com toda a força de um Quevedo indígena, esta situação da angústia. Poetas da "condição mortal", do irremissível fluir do tempo que "à morte nos leva precipitados"…

Em muitos dos poemas iniciais de César Vallejo, a precoce obsessão da morte se traduz tão-somente em uma constatação ou um obstáculo: o jovem poeta não acedeu ainda a essa realidade-outra da linguagem transmutada. No entanto, Vallejo já adquire, em Los heraldos negros - e amiúde com surpreendente energia criadora - as terríveis brechas de sua dor perplexa, do encontrar-se esfatiado no mundo, e não saber, não poder compreender o porque de tudo isto:

Há golpes na vida tão fortes. Eu não sei!
(Los heraldos negros)

E a estranheza de ser, de ser um, de estar separado, alienado (primeiras incitações da mais decisiva outridade):

Todos os meus ossos são alheios;
eu talvez os roubei!
("O pão nosso", Los heraldos negros)

E em "Os passos distantes", a insistência do distanciamento, da separação, mesmo dentro da atmosfera familiar e cotidiana:

Meu pai dorme.................
....................................
Se há algo nele de amargo, serei eu.
Meu pai desperta........
.....................................
se há algo nele de distante, serei eu.

Este sentir-se isolado, alienado, estranhado, repetir-se-á obsessivamente em Vallejo ao longo de sua poesia:

Que não me tenha deixado só,
e que o único recluso seja eu.
("III", Trilce)

Esta casa me cabe bem inteiro bem, lugar
inteiro para este não saber onde estar.
("XXVII", Trilce)

De tudo isto eu sou o único que parte.
.................................................
E me afasto de tudo…
("Paris, outubro 1936", Poemas humanos)

"A poesia vive de distância, mantém uma separação - escreve Jean Starobinski, referindo-se ao poeta israelita contemporâneo David Rokeah -. Não é que se desentenda da presença: pelo contrário, a presença é o objeto da mais constante aspiração da poesia. Porém quem deseja a presença, deve começar por assumir a ausência, que é o lugar natal do desejo."

"…de cada hora minha rebenta uma distância", dirá o Vallejo de Poemas humanos. Não se trata de que o poeta se satisfaça em ser o eterno desterrado nem de que carrega nas costas sua torre de marfim. São as mesmas altas exigências de sua sensibilidade e de sua ética criadora que levam-no a esta separação e, é mais, a esta irreconciliação com a vida prática e vulgar. Eugenio Montale disse que a arte constitui a forma de viver daqueles que na realidade não vivem. Mas é preciso acrescentar: não vivem de acordo com o que é a vida para aqueles a quem a poesia e a arte significam tão-somente um puro jogo ou um passatempo alheio às mais essenciais necessidades humanas. Sem abundar demasiado nesta reflexão, Montale sustenta que o poeta não deve renunciar à vida, que é a própria vida que se encarrega de lhe escapar.

Em Vallejo, a pungente vivência da distância, do distanciamento, da separação, o faz conceber a própria individualidade, e a própria unidade, como algo incompleto: uma solidão que se confunde com a orfandade. O poema "Absoluta", de Los heraldos negros, é revelador neste sentido:

Há um rego de serpentes
Na nobre plenitude do 1.
Uma ruga, uma sombra!

E depois da alucinante pugna do poema "XXXVI" de Trilce, a conclusão paradoxal, ironicamente resignada:

Cedei ao novo ímpar
potente de orfandade!

Para o poeta que viverá seu "esdrúxulo retiro" no "Sermão sobre a morte" dos Poemas humanos, a liberdade parece impossível:

Faça a conta de minha vida
ou faça a conta de não haver nascido ainda
não conseguirei livrar-me.
("XXXIII", Trilce)

..............Busco a mim
em meu próprio desígnio que deve ter sido obra
minha, em vão: nada conseguiu ser livre.
("LVII", Trilce)

E é o soberano absurdo o único que pareceria poder controlar este domínio:

Absurdo, somente tu és puro.
Absurdo, este excesso somente diante de ti
sua de dourado prazer.
("LXXIII", Trilce)

Mas então, diante desta ausência total de liberdade, diante do absurdo como único respiradouro, como se pode chegar à transmutação poética, ato que - assim o pensamos - se identifica com a liberdade transcendental do homem como ente temporal?

De Los heraldos negros a Trilce se havia efetuado o grande tombo que, como bem o adverte Saúl Yurkievich, nenhum dado de influências hipotéticas ou comprovadas poderia explicar em profundidade. Como em outros grandes poetas - e é esta talvez uma constante da poesia contemporânea em seu caráter de projeção temporal, de sua gravitação e gravidade ontológicas - em Vallejo a transmutação da palavra no tempus poemático procede de seu próprio combate com o tempo existencial, dos dilaceramentos deste tempo que não são outras senão as brechas e os fracassos determinados pelo nada e pela consciência objetivante: impossibilidade de coincidência na inconsistência da linguagem: irrecuperável distância entre a própria consciência e o mundo por ela objetivado.

Como em outros grandes poetas… mas, insistimos, acaso em nenhum outro antes com tanto despojamento, com tanta lancinante evidência.

A partir dos talhos, ausências, limitações, outridades, desvinculações, lonjuras, distâncias, separações, isolamentos, fraturas de sua própria existência, César Vallejo, sem que o tenha proposto, mas, sem dúvida, pelo premente instinto de existir e talvez de salvar-se, mesmo que fugazmente, no poema ("E se depois de tantas palavras, / não sobrevive a palavra?", indaga com uma admiração cética quem rejeita guarnecer-se dogmaticamente no vocábulo), cumpre a missão que Mallarmé exaltara em Edgar Allan Poe: dar um sentido mais puro às palavras da tribo.

É este um ofício alheio a todo intelectualismo elitista. Tão humanos, e alguns até tão vernáculos, são os poemas de Trilce como esses outros poemas de Vallejo (não é aqui o lugar para cita-los) mais ostensivamente retóricos, mais discursivamente anti-poéticos, mais prosaicos, enfim, menos providos da energia criadora que desprende a palavra de seu caráter de meio utilitário, de sua função de "para" aproximativo, e a transmuta. A diferença fundamenta-se em que a densidade da palavra transmutada fecha-se aos embates das análises e das explicações racionais, impede as especulações da lógica de cravar o dente e deixa em jejum as reclamações práticas e sensatas do sentido comum. Sucede assim com os poemas de Trilce integramente transmutados. Mesmo aqueles nostálgicos (onde a nostalgia não se conforma com soluçar ou suspirar, mas sim que desloca o tempo tornando-o surpresa poética). Mesmo aqueles coloquiais, como ditos à meia voz (onde quase escutamos, em qualquer instância temporal, a memória modulada):

E se soubesse se há de voltar;
e se soubesse que amanhã entrará
a entregar-me as roupas lavadas, minha aquela
lavadeira da alma. Que amanhã entrará
satisfeita, rameira de ofício, faceira
de provar que sabe, que pode
COMO NÃO PODERIA!
Anilar e engomar todos os caos!
("VI", Trilce)

III
Um jovem poeta indagava uma vez a Jean Wahl se a poesia devia ser evasão ou, pelo contrário, aprofundamento. Claramente, a pergunta não tinha sentido. "Toda grande poesia - respondeu Wahl - somente em aparência é evasão. É evasão porque, ao mesmo tempo, é aprofundamento. E assim o poeta cria a si mesmo, é o poeta de si mesmo, libertando-se de seus demônios, eximindo-se, consagrando-se à sua obra." Não poderíamos dizer o mesmo também das distâncias, das desvinculações, dos desníveis frente ao real, na poesia de César Vallejo? Ao distanciar-se, ao desvincular-se aparentemente, ao experimentar seu desnivelamento, seu desasjuste frente ao real convencional, o poeta aprofunda em seu eu e no ser e cria, em sua obra, uma realidade-outra mais vasta e mais livre.

Bastaria um só poema de Trilce (o "XLV", por exemplo, um dos mais puros e belos logros da palavra transmutada que podemos encontrar em nossa língua), para que celebrássemos hoje, aos 40 anos de sua morte, sem reprimir nossa dor por sua vida tão brutalmente desgraçada e mutilada, a libertação no poema de quem, desvinculando-se da realidade aparente e do impossível imediato, cria, na imediatez deslumbrante da transmutação poética, a presença na ausência, a futurização nos já felizes e poderosos arquejos de um vazio e de um nada que se tornam expansão, crescimento e insólita espera, de onde se incita a cantar a chuva, "na costa ainda sem mar!".

Me desvinculo do mar
quando vêm a mim as águas.

Salgamos sempre, Saboreemos
a canção estupenda, a canção dita
pelos lábios inferiores do desejo.
Oh prodigiosa donzelice.
Passa a brisa sem sal.

Longe cheiro os tutanos
Ouvindo o cuidado profundo, à caça
De teclas de ressaca

E se assim déssemos com as narinas
no absurdo,
nos cobriríamos com o ouro de não ter nada,
e chocaríamos a asa ainda não nascida
da noite, irmã
desta asa órfã do dia
que por força de ser uma já não é asa.

Ensaio escrito em 1978 e incluído em La palabra transmutada (La poesía como existencia). Contraloría General de la República. Caracas. 1989. O poeta Alfredo Silva Estrada (Caracas, 1933) é também autor de livros como Contra el espacio hostil (1979) e Dedicación y ofrendas (1986). Tradução de Floriano Martins.

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