TRILCE, XXVIII
Somente agora almocei, e não tive
mãe, nem súplica, sem serve-te, nem água,
nem pai que, no facundo ofertório
das chancas, pergunte para sua tardança
de imagem pelos broches maiores de som.
Como eu iria almoçar. Como me serviria
de tais pratos distantes essas coisas
quando se houvesse quebrado o próprio lar,
quando não surge nem mãe aos lábios.
Como eu iria almoçar nonada.
À mesa de um bom amigo almocei
com seu pais recém chegado do mundo,
com suas velhas tias que falam
em torto recinto de porcelana,
cochichando por todos seus viúvos alvéolos;
e com cobertos francos de alegres tiroliros,
porque estão em sua casa. Assim, que graça!
E me doeram as facas
desta mesa em todo o paladar.
O jantar destas mesas assim, em que se prova
amor alheio em vez do próprio amor,
torna terra o bocado que não brinda a
MÃE,
torna golpe a dura deglutição; o doce,
fel; azeite fúnebre, o café.
Quando já se quebrou o próprio lar,
e o serve-te não sai da
tumba,
a cozinha às escuras, a miséria de amor.
SERMÃO SOBRE A MORTE
E, afinal, passando logo ao domínio da
morte,
que atua em esquadrão, prévio colchete,
parágrafo e chave, mão grande e diérese,
para que a estante assíria? para que o púlpito cristão,
a intensa bandeirola do móvel vândalo
ou, menos ainda, este esdrúxulo retiro?
É para terminar,
amanhã, em protótipo do alarde fálico,
em diabete e em branca vacineta,
em rosto geométrico, em defunto,
que se fazem mister sermão e amêndoas,
que sobram literalmente batatas
e este espectro fluvial onde arde o ouro
e onde se queima o preço da neve?
É para isto que morremos tanto?
Para só morrer,
temos que morrer a cada instante?
E o parágrafo que escrevo?
E o colchete deísta que arvoro?
E o esquadrão em que falhou meu casco?
E a chave que dá em todas as portas?
E a forense diérese, a mão,
minha batata e minha carne e minha contradição sob o lenços?
Louco de mim, louvo de mim, cordeiro
de mim, sensato, cavalíssimo de mim!
Estante, sim, toda a vida; púlpito,
também, toda a morte!
Sermão da barbárie: estes papéis;
esdrúxulo retiro: esta pelanca.
Desta sorte, cogitabundo, aurífero, braçudo,
defenderei minha presa em dois momentos,
com a voz e também com a laringe,
e do olfato físico com que oro
e do instinto enquanto viva devo dizê-lo;
se orgulharão meus impertinentes,
porque, ao centro, estou eu, e à direita
também, e à esquerda de igual maneira.
INTENSIDADE E ALTURA
Quero escrever, porém me sai espuma,
quero dizer muitíssimo e me atolo:
não há cifra falada que não seja suma,
não há pirâmide escrita sem repolho.
Quero escrever, porém me sinto puma;
quero laurear-me, porém me encebolo.
Não há tosse falada que não chegue a bruma,
não há deus nem filho de deus sem desenrolo.
Vamo-nos, pois, por isto, comer erva,
carne de pranto, fruta de gemido,
nossa alma melancólica em conserva.
Vamo-nos! Vamo-nos! Estou ferido;
vamos beber o já bebido,
vamos, corvo, fecundar tua corva.