SANTORAL
O monge vive na caverna, originada de
pretéritos assaltos do mar. A água veemente conseguiu abrir uma portilha na rocha.
A costa retorcida, alvorada de tantas ondas, é
a orla do manto da noite encerrada.
A aspiração das criaturas ao infinito se torna
angustiosa sob o peso da sombra. Adivinham e sentem o cerco de um cativeiro.
Seres informes deslizam pelo ar fluido. São
agentes do mar, anteriores ao nascimento da terra, mais poderosos que a mudança de
estações.
O monge está rodeado pelas tentações do medo.
Acode ao ofício da meia-noite, aprendido em uma irmandade sigilosa.
O socorro do céu afugenta as potências
inimigas da luz. Manifesta-se no trovão profundo e amplo, no relâmpago entrecortado.
A face do monge para sempre conserva o estupor
da noite do prodígio.
O CASTIGO
O visionário me ensinava a numeração
valendo-se de uma árvore de folhas incalculáveis. Passou a iniciar-me nas figuras e
volumes assinalando-me o exemplo do cristal e a proporção guardada entre as peças de
uma flor. Descobria no corpo escuro um átomo da luz insinuante.
O visionário desaparecia ao cair da tarde em um
bote de cabida superficial. Criava a ilusão de soçobrar em uma distância ambígua, em
meio a um tumulto de ondas. Eu via flutuarem as relíquias de sua veste e de sua coroa de
cipreste.
Retornava no dia seguinte, às escondidas de
mim, usando a mesma vestimenta solene de um sacerdote hebraico, conforme o ritual de
Moisés.
Comentava nesse momento a passagem de um rolo de
pergaminho, escrita sem vogais. A capa mostrava a imagem do licáon, o lobo da África.
Terminava citando a nome dos profetas vingativos e soltava à face da manhã um hino
grandioso onde se esgotava a torrente de sua voz.
Deixei de vê-lo quando se pôs a falar
temerariamente, através do espaço livre, com um astro magnético.
O templo, onde se havia recolhido, veio
subitamente ao chão, rodeado de soberbas chamas.
O CONVITE
Taís era uma cortesão da antigüidade. Seu
nome constava na obra perdida de Meandro. O tempo respeitava sua juventude e eu não
encontrei nos resíduos da era clássica nenhum sinal de sua morte.
Li uma façanha de sua perfídia em um documento
reconstituído. Se eu não revelasse aos homens esse episódio faltaria aos conselhos da
moral de Plutarco.
Taís atraiu seus amantes a uma cilada, depois
de reconciliá-los mutuamente. Acomodaram-se em uma curules de marfim, dignas de um senado
de reis. A mulher os deixou maravilhados e suspensos com a bizarria de sua imaginação e
lhes cingiu uma coroa de dormideiras, enquanto lançava ao fogo um laurel seco. Este
laurel seria o bastante para defender a vida de um herói na empresa de visitar os
infernos.
Os convidados ficaram embelezados e perdidos na
incerteza.
Taís havia abolido seu entendimento e lhes
havia inspirado a ilusão de estarem sempre em meio aos prelúdios da alvorada. Às vezes
ouviam um hino desvanecido na bruma cândida. Entoavam-no umas jovens coroadas de
jacintos.
As harpias e as quimeras teciam um véu circular
e desciam, suspensas pelos braços, de uma árvore insociável.