|
banda hispânica |
Juan Liscano |
| (Venezuela, 1915-2001)
Obra poética 8 poemas. Impressos Unidos. Caracas. 1939. |
|
Em defesa da poesia Há
poetas mais exigentes que outros, com linguagem mais trabalhada e despojada. Há poetas de
abstrações essenciais difíceis de expressar e que requerem uma elaboração
lingüística específica. Há poetas de efusão, de celebração. Tens razão quando diz
que o poeta é toda a literatura: pensa, escreve, escreve, pensa; corrige e apaga, volta a
escrever etc.
Às vezes suas correções são um equívoco, às vezes o escrito
merecia ser reescrito. O que me parece é que a poesia não pode ser concebida como um ato
puramente semiótico, puramente textual, porque então perde vibração e contágio. Seria
uma lápide. Quanto à crítica, não há dúvida de que hoje em dia é muito grande a
desfunção da crítica poética, seja porque a disseca o academicismo dos
"scholars", seja porque a distorce a subjetividade laudatória. Juan Liscano [Fragmentos de La poesía de Juan Liscano: matéria prima de la gran obra, entrevista concedida a Miguel Angel Zapata. Revista INTI # 26-27. Rhode Island. 1988.] No decurso de minha trajetória poética apontaria a época que corresponde a Edad oscura e Los nuevos días como um momento de mudança. Dois fatores determinam essa mudança; primeiro: a leitura de Krishnamurti, esta me criou o problema da vaidade da literatura, de que a plavra não é a coisa e que havia que ir à coisa, e assim esta concepção me obrigou a por em questionamento a literatura, a revisá-la. Neste processo cheguei ao silêncio, à origem, à existência das coisas, porém vivo esta experiência desde minha condição de escritor e não desde a do místico, de modo que não posso contentar-me simplesmente com a contemplação uma vez que a minha matéria é a palavra. Depois de haver intuído o poder das coisas retorno à palavra e escrevo Los nuevos días, tentando por a palavra a serviço da coisa e busco, como diria Barthes, uma escritura mais branca, menos encoberta. Depois, o outro fator, vem dado por minhas viagens à Argentina. Muito me impressiona a poesia de alguns argentinos, seu despojamento. [Jorge Luis] Borges, [Alberto] Girri, [Enrique] Banchs, são um exemplo contrário da sensualidade tropical, do transbordamento e de todo esse conto do barroco. Essas duas influências provocaram o nascimento de uma escritura não barroca, branca, mais baseada na transparência do que na máscara.[ ] Essa capacidade minha para abordar distintos temas é o que tem o dom de irritar àqueles que dizem que abuso de minha presença na imprensa e quase dão a entender que sou um exibicionista frenético. Partindo de setores que estiveram, e estão, muito vinculados a mim, não deixa de ser dolorosa esta apreciação. Agora, a capacidade de que falo forma parte de minha concepção do que é o intelectual em uma sociedade. Tenho uma formação francesa e por isto trato de ser uma espécie de testemunho de meu tempo e, ao mesmo tempo, esse testemunho não me basta porque necessito ir mais além. Isto pode ser um defeito, porém sou assim, tenho esta formação e, além do mais, não tenho um sentido purista do poeta, não creio na poesia como fuga mas sim como meio. Para muitos poetas a poesia é um santuário, um refúgio para escapar da hostilidade do mundo; em troca, desde muito jovem, sempre estive pelejando. Juan Liscano [Fragmentos de Conversación con Juan Liscano, entrevista concedida a Rafael Arráiz Lucca para o livro Grabados. Academia Nacional de la Historia. Caracas. 1989.] |
| . |
|
Poemas
METAMORFOSE Teu bloco de gelo flutuante Teus lábios como duas lâminas frias Para vencer a noite e a geada Tu cantas. Eu canto. Tu cantas desde o fundo desse novo rosto
aparecido Eu canto. Tu cantas. Tu cantas desde o fundo dos seres que te povoam. Eu canto. Tu cantas. Tu cantas. Eu canto. e tu e eu somos clarividência
JARDIM DO VAZIO não tenhas nada querido O pensamento do perdido
AQUÁRIO No escuro espelho de Aquário |