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Eclipse
(real e metafórico), de Alfredo Fressia
Dirceu
Villa
Observa-se
em tom de crítica que os brasileiros ignoram a obra literária de
seus países vizinhos da América Latina (não só da América do
Sul): é verdade, e é lamentável.
Há um
ligeiro atenuante, muito embora cretino, que nunca chego a ouvir
daqueles que soltam essa crítica: os brasileiros ignoram a obra
literária dos próprios brasileiros. Mas há, e acrescento por
outro lado, um aspecto ainda mais indecoroso da mesma questão:
se ignoramos os estrangeiros quando estão em seus próprios
países de origem, o que dizer se os ignoramos quando vivem há
trinta anos conosco? É o caso do poeta uruguaio Alfredo Fressia,
um dos mais célebres moradores da Rua Aurora, que lançou há
pouco, em Montevidéu primeiro e no México depois, Eclipse:
cierta poesía (1973-2003), civiles iletrados, 2003, e Alfoja,
México, 2006, contendo um livro novo (Eclipse) e uma recolha
antológica de suas obras anteriores.
Homem
culto, generoso e poeta importante, não só porque seja um poeta
muito bom, mas porque também não cedeu a nenhuma moda poética,
como tantos fazem apenas para verem seus nomes mencionados aqui
ou ali por este ou aquele. Por isso, talvez, ainda não seja tão
lido quanto merece.
Mas, se
sabemos que ele não é um aproveitador, o que ele é?
Certa vez,
conversando sobre o seu livro, foi deixando pelo caminho
palavras como "penumbrista" e "crepuscular", com um sorriso
ligeiramente irônico; se, por um lado, ironizava o hábito
recalcitrante de se colar rótulos inócuos em tudo que aparece,
por outro, indicava algo sobre sua poesia, que no fundo dizia
menos respeito ao que de fato ela é do que a seu, digamos de um
modo terrivelmente impressionista, temperamento. O nome de seu
último livro, Eclipse, aponta para isso também e não por mero
acaso: apegado aos desenvolvimentos das possíveis maneiras de se
utilizar a palavra, de aspectos científicos, históricos e
ocultos sobre o evento astronômico, ao fim da plenitude, à morte
— por ilação —, encontramos um tom elegíaco e meditativo que
seria uma das maneiras de se traduzir esse "penumbrista".
Sabías que esa noche llegaría, la del sistro de caliza
yaciendo en la caverna, en silencio los lobos
y los hombres de manos artífices, tan diestros
en el arte de morirse.¿Y tú, ahí afuera, te sorprendiste herido
por los astros?
Ya no palpitan, no son almas donde huía fugaz una pasión, esta
vez
nacieron opalinos huevos del eclipse, esperando por abrirse
en el derrrumbe. Caerán sobre la tierra que pisaste, planetas
huecos
de la primera cuadratura, piedras rotas sobre el cristal que
habías
historiado
con tus viejas escenas de caza en Nínive.
La hora llegó, ya viste demasiado el pergamino de tu cielo.
Ya sabes que tu pecho en negativo no acusa corazón ni familia ni
nada
de sagrado, Fressia irremediable, sólo esa ostra celeste hecha
de tiempo,
madreperla menguante (no repitas la mala suerte en el eclipse)
donde volvía a nacer siempre tu padre, indagando inútilmente
por un hijo, su mensaje en el tiempo, huellas digitales contra
el vidrio
empañado de futuro y a ti, botella al mar, te tragaba el
torbellino,
dorsal, desde los Apeninos a la pampa. (...)
Isto é,
não se trata de uma poesia direta e veloz, mas que produz
espirais, que contrapõe e vai concentrando argumentos, e que às
vezes pode ser, entretanto, o contrário disso, como na primeira
parte de "Tres Mesas del Sorocabana":
Los pensamientos vagabundos
se piensan
como nubes, así
navíos olvidados
oo sin rumbo las nubes
no dejan señales en el viento
y erran
sin memoria
como dunas
a voluntad de mar
que nadie piensa.
Suavemente
aliterativo, com assonâncias e pequenos blocos paronomásticos,
que imitam o fluxo irregular das nuvens, enquanto as palavras
executam, com espantosa simplicidade, a conexão entre elas, as
nuvens, e pensamentos passageiros (que "no dejan señales en el
viento") num impacto só.
Há o
Fressia que ataca aspectos políticos, mas nunca panfletário,
como no comovente "Praga Invadida", por exemplo; o que iconiza a
cidade de Montevidéu, a Coquete ("Montevideo, la Coquette",
entre outros); o da perspectiva homoerótica que, como escreve L.
Bravo no ótimo estudo introdutório ao livro, "fue pionera en la
poesía uruguaya, junto al exultante Evohé (1971) de Cristina
Peri Rossi."5 O "Bello Amor", como no título deste poema:
Bello amor, bellos amantes,
porque el amor no pasa
de un memorial de hombres que me amaron (...)
bello y estéril, bello
porque estéril, porque destinado
al memorial de hombres que me amaron (...)
Mas essa
multiplicidade temática revela sempre uma voz coerente, que
nunca se fragmenta em cacos, construída com subordinações
sintáticas, delicados arranjos de um estilo cultivado e que,
portanto, realiza um trabalho muito complexo: é uma poética sem
dúvida alguma atual e com forte sentido de tradição também.
Posso ouvir claramente a sutil ironia do meu caro Fressia: "penumbrista". |