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Poesia
chilena: de Neruda aos nossos dias
Cristiane Grando
Neste
ano de 2004, celebra-se internacionalmente o centenário de
nascimento do poeta chileno Pablo Neruda, Prêmio Nobel de
Literatura 1971. Neruda nasce em Parral no dia 12 de julho de
1904 e morre em Santiago do Chile em 23 de setembro de 1973,
dias depois do golpe militar contra Salvador Allende. Tomás
Harris, no ensaio “Desarrollo de la poesía chilena: 1960 [1973]
1990 [una introducción]” (in: Ginebra Magnolia no2/3,
revista ed. por R. Huamán e C. Torres; Lima-Peru), cita Javier
Campos: “O golpe militar apressurou esta transformação agônica e
crítica, situação que está perfeitamente expressa nas imagens
dominantes e recorrentes dos textos poéticos, e não mudou a raiz
da jovem poesia de então do branco para o negro. A quebra que
assinalo deve ser entendida nesse sentido e não que a partir de
1973 tudo começou do zero. Assim entendo a ruptura. Que poeta de
então ou artista em geral poderia negar tão forte impacto em sua
conduta como indivíduo e na irradiação nova que se projeta em
seu poema, conto, quadro, peça de teatro, com o que ocorre em
1973?” Até os dias de hoje os chilenos sentem-se marcados pela
liberdade de expressão tolhida, torturas, mortes, brutalmente
impostas durante os 17 anos de ditadura: é uma realidade que a
memória coletiva chilena não permite que se apague, uma dor
ainda não superada; mas a poesia permanece...
Eduardo
Llanos, entrevistado por Jiddu Saldanha (La Estrada:
www.paparazho.hpg.ig.com.br), conta-nos: “... creio que o melhor
da literatura chilena do século XX é sua poesia. Nesse sentido,
da primeira metade do século, destacaria quatro nomes: Gabriela
Mistral, Vicente Huidobro, Pablo de Rokha e Pablo Neruda; da
segunda metade do século, outros quatro: Nicanor Parra, Gonzalo
Rojas, Enrique Lihn e Jorge Teillier“, todos, incluindo Humberto
Díaz-Casanueva, estudados em Poesía Chilena Contemporánea:
Breve Antología Crítica, de Naín Nómez.
Do ensaio
citado, retomarei nomes e análises significativos da poesia
chilena, iniciando pela geração dos 50: Miguel Arteche, Efraín
Barquero, Enrique Lihn, David Rossenmann Taub, Alberto Rubio,
Jorge Teillier e Armando Uribe. Tomás Harris cita e analisa
obras de poetas da geração dos 60, entre eles: Oscar Hahn, Waldo
Rojas, Naín Nómez, Gonzalo Millán, Gonzalo Rojas, Floridor
Pérez, Jaime Quezada, Federico Schopf, Javier Campos, Hernán
Miranda, Manuel Silva Acevedo e Cecilia Vicuña. A Escuela de
Santiago, nascida em 1967, teve como fontes Pablo de Rokha,
Rosamel del Valle, Eduardo Anguita, Humberto Díaz-Casanueva e o
surrealismo chileno do grupo La Mandrágora. Outros grupos
significativos dos 60: a Tribu No de Valparaíso e o
ateliê do Instituto Pedagógico de Santiago. A poesia dos 60
inscreve-se em seus inícios num contexto sócio-histórico de
grande entusiasmo político e ideológico, tanto nacional quanto
internacional. Desde a Revolução Cubana em 1959, o movimento
hippie norte-americano, as contribuições teóricas de Marcuse,
Althusser, Cohn-Bendit, as reformas universitárias de 1967, o
Movimento de Esquerda Revolucionária formado inicialmente na
Universidade de Concepción, até 1964, até a repressão de
Nanterre na França e o massacre da praça de Tlatelolco no
México, em 1968, caracterizou-se por ser um espaço de
resistência textual, de expressão da voz marginal de um falante
coletivo-subjetivo, de um discurso dessacralizador e
desmitificador do espaço tanto rural quanto urbano, num contexto
de continuidade poética, fundamentalmente na antipoesia parriana
e na inter-relação dos poetas dos anos 50. Também Lihn com sua
poética refratária a uma realidade urbana contemporânea complexa
e degradada, e uma dialética problematizadora da relação com a
palavra, Uribe Arce em sua poesia marcada por uma desgarrada e
demolidora ironia em textos de grande concisão epigramática,
fundamental para muitos poetas dos 60, e Teillier em uma relação
conflitiva com a terra natal pela irrupção de algumas formas de
civilização na natureza do sul em trânsito até a devastação,
como também os poetas da tradição hispano-americana, Cardenal,
Germán Belli, Cisneros, e norte-americana, Ginsberg, Ferllingeti,
Kerouac.
A
configuração literária inicial da geração dos 80 caracterizou-se
por sua marginalidade, por sua manifesta resistência ao regime
ditatorial, sem nenhum tipo de auspício universitário, à
diferença da geração dos 60. Formam parte desse movimento
inicial: Armando Rubio, Erick Pohlhammer, Gregory Cohen, Antonio
Gil, Bárbara Délano, Eduardo Yentzen, Jorge Montealegre, Eduardo
Llanos, Horacio Eloy, em Santiago; e ao sul do país: Mario
Milanca, Carlos Cociña, Tomás Harris, Carlos Alberto Trujillo,
Renato Cárdenas, Mario Contreras Vega, Luis Alberto Mansilla e
Aristóteles España. Uma primeira linha escritural do pós-golpe
relaciona-se com a tradição sem tentar rupturas radicais, mas
buscando recriar, a partir sobretudo das linhas textuais de
Parra e Lihn, caracterizadas por uma linguagem próxima ao
coloquial, ao urbano, a uma apelação direta à realidade
extratextual, à ironia. Harris analisa obras-primas produzidas
por essa geração: a poesia de Diego Maquieira, Juan Luis
Martínez, Raúl Zurita, Eduardo Llanos, Jorge Torres Ulloa, a
poesia que retrata a marginalidade social ao seu limite extremo,
de Jorge Montealegre, Bruno Serrano e Gonzalo Muñoz, além da
poesia testemunhal do processo destruidor ditatorial, criada por
poetas que sofreram reclusão em cárceres ou nos campos de
concentração de Dawson – Floridor Pérez, Arinda Ojeda e
Aristóteles España. “Não se havia publicado tanto livro de
poesia por jovens como ocorreu a partir de 11 de setembro de
1973 no Chile” (Javier Campos). Nesse período conturbado dos
anos 80, surge a poesia de Rodrigo Lira e Mauricio Redolés, na
qual marginalidade angustiante (e real), ironia e paródia são
elementos essenciais. Alguns poetas significativos dos anos 80,
como Juan Luis Martínez e Raúl Zurita, inauguram o que eles
mesmos chamaram de “neovanguardismo”: ruptura radical com a
tradição precedente e experimentação lingüística e temática são
as principais características, além de um deslocamento da
textualidade do âmbito habitual da poesia para a experimentação
que os relaciona com certo setor das vanguardas de começos do
século [Artaud, Duchamp, Huidobro, Vallejo, Girondo] e, na
literatura hispano-americana, dirigem um olhar para a novela [Arguedas,
Fuentes, Cortázar, Puig, Sarduy]. Vale lembrar que muitos poetas
da geração dos 80 foram obrigados a se exilarem ou optaram pelo
auto-exílio; alguns voltaram para o Chile depois da queda do
general ditador.
No
panorama poético chileno, é importante mencionar também a Carmen
Berenguer, Heddy Navarro, Marina Arrate, Paz Molina, Rosabetty
Muñoz e Verónica Zondek. Os poetas mapuches Bernardo Colipán,
Elicura Chihuailaf, Gabriela Huinao, Jaime Huenún, Jaqueline
Caniguán, Lionel Lienlaf, Paulo Huirimilla, Roxana Miranda
Rupailaf, Sonia Caicheo e Victor Cifuentes apresentam a
realidade do sul do Chile incorporando elementos de línguas e
culturas indígenas ao circuito da literatura, em especial o
mapudungum.
De poetas
que começam a publicar no final do século XX e início do XXI, a
revista Ginebra Magnólia 2/3 apresenta uma seleção de
poemas de: Javier Bello, Armando Roa Vial, Germán Carrasco,
Andrés Anwandter, Alejandra del Río, Andrés Ajens, Alexis
Castillo e Héctor Hernández. Gostaria de incluir outros poetas
do cenário chileno contemporâneo: Carmen Gloria Berríos, Diego
Ramírez, Elizabeth Neira Calderón, Francisco Véjar, Gladys
González, Harry Vollmer, Jaime Bristilo Cañon, Leo Lobos, Malú
Urriola, Mario García, Nelson Torres, Santiago Elordi, Sergio
Mansilla, Sergio Rodríguez Saavedra, Sergio Ojeda, Sergio Parra
e Yanko González. Retomarei, a seguir, a trajetória de três
poetas.
Francisco
Véjar, colaborador da “Revista de Libros” (jornal El Mercurio)
e da revista “PROA en las Letras y en las Artes” (Buenos
Aires-Santiago), professor universitário e autor de Fluvial
(1998), País Insomnio (2000) e El emboscado (2003)
tem organizado livros no domínio da crítica literária, como
Antología de la poesía joven chilena (1999; 2003); Georg
Trakl. Homenaje desde Chile (em co-autoria com A. Roa Vial,
2002) e Lo soñé o fue verdad. Antología de Jorge Teillier
(2003). O espaço urbano, o bosque e a praia dialogam nessa
poética da solidão prazerosa e às vezes angustiante e de intensa
dor (quando o ser amado disse “adeus”): “Te falaria de amor se
me pudesses ouvir desde o silêncio”.
O poeta,
tradutor e artista visual Leo Lobos, laureado UNESCO-Aschberg de
Literatura, publicou Cartas de más abajo (1992), +Poesía
(1995), Ángeles eléctricos (1997), Camino @ copa de
oro (1998), Electrónico libro de p@pel (1999) e
Turbosílabas. Poesía Reunida 1986-2003. Leo Lobos realizou
residências criativas no Centre d´Art Marnay Art Center (CAMAC),
em Marnay-sur-Seine, França (2002) e no Jardim das Artes:
espaço cultural e residência internacional de artistas, em
Cerquilho-SP, Brasil (2003-2004). A obra de Leo Lobos ultrapassa
as fronteiras da poesia e da prosa: seus poemas são quase sempre
narrativas. Daí a presença constante de um poeta-narrador que
assume o papel do eu lírico tradicional. Os poemas de Leo Lobos
são criados a partir de situações do dia-a-dia: o poeta-narrador
situa o leitor no espaço e no tempo, ou seja, no contexto em que
seus versos foram criados, no Chile e em outros países; nesse
sentido, Leo Lobos também atravessa fronteiras: “Viajar é
preciso”.
O poeta,
tradutor, ensaísta e professor universitário Armando Roa Vial,
além de inúmeros livros de versos publicados, como Cartas a
la juventud (1993), El Apocalipsis de las palabras
(1998; 2002), Zarabanda de la muerte oscura (2000) e
Hotel Celine (2003), é responsável pela organização e
tradução de várias obras, como a primeira versão completa em
espanhol de The Seafarer/ El Navegante (1999),
poema anônimo anglo-saxão do século IX, Ezra Pound. Poesía
Temprana (em co-autoria com A. Uribe, 1999), William
Shakespeare: Macbeth (2002) e This be the verse: 26
poetas de lengua inglesa del siglo XX (em co-autoria com D.
Dunkelberger e M. Rioseco, 2003). A poesia de Armando Roa
forma-se a partir de uma elaborada construção do texto como uma
arquitetura fascinante, levantada peça a peça com
erudição e refinamento de conteúdo comovedores. Nesse sentido,
encontro diálogo com a obra da poeta, ficcionista e dramaturga
brasileira Hilda Hilst (1930-2004). “Terão herdeiros estes
mortos?” – interroga Armando Roa em verso do poema “À entrada da
biblioteca”. Hilda Hilst garante: “O Tempo não roerá o verso da
minha boca.” A poesia, ponte para a eternidade, nunca deixará de
ter seus herdeiros: os leitores. |