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leo lobos

 

A terceira imagem na poesia de Leo Lobos

Cristiane Grando

Tomei contato com o conceito de terceira imagem pela primeira vez ao conhecer o fabuloso trabalho de audiovisuais de Jorge Bercht (Porto Alegre-RS, 1922): suas coreocromias. Com o auxílio de dois ou mais projetores de slides, Bercht cria danças de imagens que se fundem acompanhadas de músicas em diversos ritmos. Em setembro de 2002, Bercht apresentava pela primeira vez suas coreocromias em minha terra natal, Cerquilho, interior do estado de São Paulo. Utilizando dois projetores de slides, quando se projeta a segunda imagem sobre a primeira, cria-se a terceira imagem. Em 2003, a leitura do livro Hundertwasser: Regentag/Rainy Day/Jour de pluie, de Manfred Bockelmann, cujas ilustrações são criadas a partir de terceiras imagens, abriu novos sentidos para mim.

O conceito de terceira imagem, se aplicado à literatura, contribui para a criação de situações e cenários criativos em poesia e textos fictícios. No poema “Uma visita ao zoológico fantasma”, Leo Lobos (Santiago do Chile, 1966) parte da realidade parisiense para criar um cenário imaterial e pós-surrealista, quando insere fantasmas e animais numa Paris transformada em zoológico-prisão. Já não estamos num zoológico tampouco em Paris; Leo Lobos estimula o nosso imaginário e incita os leitores a passearem num novo espaço, fruto da sua-nossa imaginação. Os personagens são prisioneiros que se rebelam: “um desfile de elefantes brancos cruza/ a praça do Louvre fazendo/ malabarismos com obras de arte e restos/ de arqueologias extraterrestres”. O poeta cria um cenário que foge à “normalidade” do mundo material: animais selvagens freqüentam Paris como cenário de atuação; monumentos históricos e turísticos convivem com animais, em geral, de grande porte, e ainda mais, em bandos. O poeta utiliza o mesmo recurso das fábulas: animais representando tipologias humanas de poder. Em ritmo alucinatório, Leo Lobos cria, num tom irônico e crítico, seu zoológico fantasma/ zoológico de plasma, onde meninos e meninas não-nascidos riem: dos vivos? A noite é momento privilegiado para a criação desse cenário onde se fundem dois universos distintos – uma prisão de animais e a turística capital francesa. O dia se oferece como ponto de retorno à dita “normalidade”: os olhos de um gato simbolizam o sol, tão amado em países onde ele não aparece com tanta regularidade, como a França e o Chile. O gato, “sempre atento”, é o único ser que se destaca dos restantes em sua solidão e sabedoria; o brilho de seus olhos simboliza a luz de um novo dia, que nasce em meio às trevas noturnas. Nesse universo assustador, de animais tragando turistas, e ao mesmo tempo sedutor porque belo, a luz solar representa o início de um novo ciclo, e o gato, a lembrança de uma Paris mais próxima à realidade da capital francesa, freqüentada por animais domésticos, como no início do poema, quando é evocada a imagem do cão. Esse retorno à realidade através da imagem do gato leva-nos à constatação de que, apesar da beleza arquitetônica, Paris também sofre de enfermidades, simbolizadas pela merda de cão nas ruas. O lado obscuro é evocado na epígrafe de Yagyu Munenori: “livre da enfermidade, embora em meio à enfermidade”. A liberdade é um fantasma na sociedade contemporânea: os homens têm a ilusão de serem livres, pois lhes falta a consciência de que estão presos.

 

Uma Visita ao Zoológico Fantasma

 

livre da enfermidade, embora em meio à enfermidade

Yagyu Munenori

 

Tenho visto tanta merda de cão
nas ruas de Paris que devo
caminhar com cuidado à noite

é quando me parece então
escutar meninos e meninas fantasmas
rirem na fila de entrada do
zoológico que para eles ali se levanta:

um desfile de elefantes brancos cruza
a praça do Louvre fazendo
malabarismos com obras de arte e restos
de arqueologias extraterrestres, girafas
correm pelos Campos Elíseos comendo
as luzes natalinas que crescem em
suas árvores, baleias, delfins,
patos selvagens nadam pelo Sena
tragando turistas desprevenidos
que acendem flashes em seus narizes
leões copulam famintos
sobre os telhados como relíquias
de cristal de uma cidade iminente...

Hipopótamos ébrios se encalham em suas
ruas serpenteantes, em seus arcos triunfais,
em sua torre famosa...

Galeristas confusos
correm atrás de cavalos livres de
carrossel que levam gravada uma estrela
de ouro em seu flanco...

Bandos de aves tropicais cobrem a lua
de plumas de plástico que
ursos vestidos à la mode sopram
com ventiladores nucleares de
globos que intermitentes sobem
e descem por escadas invisíveis
que águias cegas trazem
de Nôtre-Dame...

Sinosnuvens carregados de
perfumes humanos chovem
no final desta noite sobre
o zoológico de plasma e tudo
retorna nos olhos de um gato
sabiamente
a ser luz solar
e Paris
Paris
é
outro dia. 

[Escrito num 30 de dezembro de 2002 na rue Vaucouleurs, Paris, França. Dedicado à Família Noël. Concluído em Cerquilho, São Paulo, Brasil, num 12 de setembro de 2003.]

Leo Lobos (Santiago do Chile, 1966): poeta, ensaísta, tradutor e artista visual. Estudos universitários de filosofia, castelhano, biblioteconomia e comunicação. Laureado UNESCO-Aschberg de Literatura 2002, realiza uma residência criativa em CAMAC, Centre d´Art Marnay Art Center em Marnay-sur-Seine, França. Publicou entre outros: “Cartas de más abajo” (1992), “+Poesía” (1995), “Ángeles eléctricos” (1997), “Turbosílabas. Poesía Reunida 1986-2003” (2003). Escreve para vários jornais, revistas e sites e tem lido seus textos de arte e literatura no Chile, Argentina, Peru, Brasil, México, Cuba, Estados Unidos, Espanha, França e Alemanha. Traduziu em Marnay-sur-Seine, em 2002, o livro CAMINANTES, da poeta brasileira Cristiane Grando, doutora em Literatura (USP), graças a quem conhece e inicia a leitura da obra e a tradução de Hilda Hilst ao espanhol. Desde 2003 trabalha com Cristiane Grando e com o arquiteto Jorge Bercht no Jardim das Artes, Ciências e Educação: espaço cultural e residência internacional de artistas, Cerquilho-SP, Brasil, onde realiza trabalhos de comunicação e relações internacionais, além de pintar, desenhar e escrever. Em 2004, traduz ao castelhano e ilustra o livro FLUXUS, de Cristiane Grando (leolobos@gmail.com).

 

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