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A fugaz estrela de Bárbara Délano
Francisco Véjar
A
vida de Bárbara Délano foi breve e veloz. Em seus trinta e
quatro anos de existência, alcançou editar dois livros de
poemas: México–Santiago em 1979 e El rumor de la
niebla [O rumor da névoa] em 1984. Muito cedo começa a ler a
obra de Pablo Neruda, Jorge Teillier e Rolando Cárdenas, entre
outros. Publica seus primeiros versos aos oito anos, no jornal
La Última Hora, dedicados a seu avô, o escritor e
diplomata Luis Enrique Délano. O avô, como num ato premonitório,
pintou-a, num mural de sua casa de Cartagena [a duas horas de
Santiago], debaixo da água, convivendo com a natureza marinha,
num mundo com polvos, peixes e uma âncora. Bárbara está com um
copo de vinho na mão, dizendo “¡Salud, Tacito!”, porque assim
dizia a seu ascendente.
A
sensibilidade pelo mar e uma estranha consciência da morte a
acompanhou o tempo todo. No poema “Os viajantes”, do tomo El
rumor de la niebla, diz: “Estamos aqui nos despedindo dos
que se vão/ para a outra fronteira desta viagem/ o amanhã é um
fonógrafo perdido numa selva virgem,/ um cerrado/ uma planície
que bem poderia ser o mar”.
No México,
até 1975, participa do grupo “Los poetas infrarrealistas”,
liderado por Roberto Bolaño e Mario Santiago, que analisava a
realidade da América Latina e que discutia seus trabalhos em
prosa ou em versos, alternando-os com leituras de Octavio Paz e
José Carlos Becerra, poeta mexicano morto tragicamente num
acidente automobilístico em 1970. O país asteca transforma-se,
assim, na segunda pátria de Bárbara, como o referenda seu
ingresso, em 1982, à UNAM [Universidad Nacional Autónoma de
México] para cursar sociologia. Cinco anos mais tarde, titula-se
com a Medalha Gabino Barreda, que lhe entregam como distinção
por obter nota 10 ao longo de seus estudos, algo de que ela se
orgulhava com uma ponta de sarcasmo. Nessa época, colabora com a
revista “La Brújula en el Bolsillo” [A Bússola no Bolso] e com
“Plural”, suplemento do jornal “El Excélsior”, dirigido pelo
escritor argentino Jorge Boccanera.
É
traduzida ao sueco, italiano, inglês e francês. Seu trabalho
poético é publicado nas seguintes compilações: Antología de
la Nueva Poesía Chilena (1985), edição de Juan Villegas;
Veinticinco años de poesía chilena (1970-1995), realizada
por Teresa Calderón, Lila Calderón e Tomás Harris; e
Antología del Poema Breve en Chile (1998), seleção de
Floridor Pérez. Recentemente sua família anunciou a próxima
edição de sua obra reunida, incluindo cartas e outros textos.
De volta
ao Chile, em 1988, começa a trabalhar no Centro de Estudios
de la Mujer (CEM), onde desenvolve um intenso trabalho que
se registra no livro “Asedio sexual en el trabajo” (1993),
pesquisa realizada em colaboração com Rosalba Tadaro. Mas não se
desliga de sua paixão, a literatura. No mesmo ano de seu
retorno, é bolsista da primeira oficina de poesia da Fundação
Pablo Neruda, conduzida por Floridor Pérez e Jaime Quezada, que
nos diz: “Ela surge na antologia ‘Poesía en el camino’ (1977),
uma compilação feita pela União de Escritores Jovens com poetas
novos, num período difícil. Entre esses autores estavam Armando
Rubio, Erick Polhhamer, Antonio Gil e Bárbara Délano. Para mim,
eram os criadores mais relevantes dessas páginas. O tempo me foi
dando razão, apesar das lamentáveis e trágicas mortes de Armando
Rubio e Bárbara Délano, mas ambos lograram realizar uma obra”.
“Quando
Bárbara fez parte da oficina – prossegue Quezada –, revelou um
trabalho poético muito sério. Sua escritura rompia alguns moldes
tradicionais ou circunstanciais, valendo-se de certo cinismo e
questionamento do mundo cotidiano, social e feminino. Sua
linguagem é a voz da mulher chilena, latino-americana. É um
projeto com várias temáticas, que se fazem presente até seus
versos póstumos. Assim, alcançou ficar incorporada à poesia
daqueles anos, com sentido de futuro”.
Em 1992,
depois de um período em que vive em Cartagena com o propósito de
dedicar-se a escrever, viaja novamente ao México e começa a
trabalhar na Procuradoria Agrária, onde desempenha a função de
diretora da área de comunicação social. Durante esse tempo,
realiza projetos para vários livros. Três anos mais tarde,
inicia um mestrado em Edições, na Universidade de Guadalajara.
Sua posição na Cidade do México consolida-se, mas o Chile e seu
mar a chamam constantemente. Em 1996, quer fazer surpresa para
seus pais e decide viajar a Santiago, mas faz uma escala em Lima
(Peru), para visitar alguns amigos.
Seu pai, o
escritor Poli Délano, recria seus últimos dias: “Entre a sexta e
a segunda-feira, em Lima, viveu dias boêmios, uma festa em um
lugar e outro da cidade. Ela era incansável para o riso, a
alegria, a amizade”. Janta com Antonio Cisneros, Guillermo Niño
de Guzmán e Carolina Teillier. Em outra ocasião, almoça no
restaurante “Canta Rana”, do bairro El Barranco, local
que apresenta fotos de Gardel nas paredes, dos Beatles, Humphrey
Bogart, decoração que a fez lembrar de alguns bares de
Valparaíso. “Um dos amigos conta que num bar de El Callao
o escritor Herman Melville, dois séculos antes, gravou seu nome
sobre a madeira. Ela pede então uma faca e durante um tempo
longo se dedica a talhar o seu nome sobre a mesa do
“Canta Rana”, BÁRBARA, assim, com letras maiúsculas. Aí ficará
sua última assinatura”, relata Poli Délano.
O dia 2 de
outubro de 1996 foi decisivo para Bárbara. À última hora recolhe
sua mala no hotel onde se hospedou. Segue a todo vapor para o
aeroporto. “Fica mais, dizem, vai amanhã”. É a última passageira
que se apresenta. Veste um traje de linho branco, de duas peças,
e não põe brincos nem anéis, mas dois ou três colares no
pescoço. Despede-se brincando: “Se cair o avião, avisem meus
pais; eles não sabem que vou vê-los”. Não pôde chegar ao
destino. A 52 quilômetros de Lima, um acidente terminou com a
vida dos setenta ocupantes da nave de Aeroperú que se dirigia a
Santiago. O avião caiu no oceano Pacífico.
Dias
depois, sua mãe, María Luisa Azócar, descobriu os manuscritos do
livro Playas de Fuego [Praias de Fogo] no seu apartamento
na Cidade do México, publicado postumamente. Trata-se de um só
poema de larga respiração, no qual o antecipatório não deixa de
assombrar: “Porque tudo o que se perde vai para o mar/ me deito
na borda/ para escutar meus irmãos mortos (...)/ Sem buscar nada
nem desejar nada/ com o obscuro pressentimento/ de que o mar é
um espelho/ para ser olhado pelos olhos de Deus”. |