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banda hispânica |
Francisco Madariaga |
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Quando morre um poeta Em entrevista que lhe fiz, anos atrás, me disse: "A poesia eclode do fundo solar do poeta e projeta-se diretamente nas ventarolas da consciência e no coração dos homens. Não recolhe impurezas em seu caminho, como a prosa; tudo sai por inteiro e a um só tempo, inclusive a história, na imagem." Claro, a morte de um poeta não quer dizer nada. Morre e pronto. Não leva consigo sua obra. Ninguém se livra dela tão fácil. Estão morrendo, mesmo, todos os grandes poetas, e desgraçadamente não sabemos se estão nascendo poetas à altura deles. O que nos leva a pensar a partir da notícia de morte de Francisco Madariaga é que morre um poeta tão vizinho nosso e sequer sabemos de quem se trata. Os brasileiros desconhecem tanto o que se passa à sua volta que anunciar a morte de Francisco Madariaga é algo talvez mais estratosfericamente distante do que propalar o registro em cartório de uma estrela descoberta ao acaso em outro sistema solar. Quando penso na morte de Francisco Madariaga não o faço naturalmente em termos de exéquias, mas antes angustiado pelo fato de que não percebemos a importância do que há lá fora e do que há aqui dentro. Somos um mundo fechado, que se comunica apenas com sua empáfia, uma terra mínima onde não se pode imaginar um milagre que a recupere de uma desventura programada. Quando morre um poeta morre apenas uma fatia mínima de esperança na vida. Os poetas não representam quase nada. Uns desgastados em alucinação e transgressão. Vêem o que ninguém vê, reclamam do que parece em ordem. São uns tontos. Assim vamos. Tudo está bem nos acordos entre nossos países, na vida movida a votações em congressos, no recorte das relações arbitrárias entre poesia e sociedade. O mundo está bem. Acaba de morrer Francisco Madariaga. Podia ser um argentino outro qualquer ou um brasileiro. Quem dá por conta da morte de um poeta? Tudo está bem. Nossas sociedades, latino-americanas, estão se permitindo uma falência gratuita, uma segunda conquista, que não será mais européia, uma vez que a compreensão de terras (espaço/tempo) a serem ocupadas hoje extrapola velhas condicionantes geográficas. Todo dia morre um poeta. O Brasil já enterrou com samba vários dos nossos. Na morte de alguém importa sempre a dor de quem fica, o poder de recuperação diante de uma ausência fundamental. A morte de Madariaga permite indagar: quanto tempo mais ficaremos, Brasil e Argentina, sem dialogar acerca de nossa tradição literária? Quantos brasileiros sabem da importância de um Francisco Madariaga? E o que conhecemos da poesia uruguaia, colombiana, venezuelana, paraguaia, tão vizinhas? Vivemos na mais absoluta condição de isolamento, de maneira que não temos razão em reclamar de imperialismos de espécie alguma. Somos uma soma de províncias, singrando séculos, cuja resultante é o estado policialesco em que socialmente nos encontramos (democracia com obrigatoriedade de votos etc.). Qual potencial político temos hoje a ofertar a nossos filhos? Que sociedade estamos produzindo? Velhas flâmulas de discurso, claro. O molde é sempre o mesmo. Porém o que imprimimos a partir dele? Quando decai toda uma expectativa de medalhas no tocante a um país, no caso das Olimpíadas de Sidney, isto acaso não reflete a posição atual em que vive esse país? Que relações podem existir entre os departamentos de pesquisa científica e de esportes nas universidades brasileiras, eis aí um ponto que merece reflexão. Ou melhor: o país reflete tanto, segundo seus catedráticos, e não reage em nada. Sempre me pergunto se não chegam a conclusão alguma ou se acaso são sempre cooptados para não revelarem as origens discutíveis de seus cargos e considerações de alto saber. Por onde anda um país? De quem se esconde? Por onde não quer ser visto? Com quem anda? Por alguma razão a morte de Francisco Madariaga me leva a pensar em tudo isto. Brasil e Argentina já foram acusados de comprometerem uma unidade latino-americana. Sabemos que houve isto, e que o México é cúmplice de tal situação. Este assunto merece uma explanação maior. Mas obrigatoriamente terá que encontrar-se com sua raiz, a compreensão de que temos uma condição social que precisa ser discutida com igualdade de perspectivas. Fora desse ângulo, seremos sempre os mesmos patetas de sempre. E não teremos porque lamentar a morte de Francisco Madariaga. |