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Em
defesa da poesia
Não
somente a Europa, como também os Estados Unidos, sentem interesse pela América Latina.
Há anos nos chamava a atenção "le sauvage. Aos europeus atraía o irregular, a
aventura. Isto foi sutilizado através de um interesse pelo pensamento latino-americano,
certamente que posterior à sua política. Agora isto coincidiu com um rebento importante
de nossa literatura. O "boom" surpreendeu a Europa e um pouco a Espanha. Esse
fenômeno não cedeu, mas sim foi substituído e agora, pouco a pouco, vai passando para
um lugar mais original: uma parte da poesia latino-americana. Alguém me disse que é
muito difícil reunir uma série de poetas como é possível fazer na América Latina e
outra semelhante em outra parte do mundo. A linguagem da escritura latino-americana ocupa
um lugar muito importante na literatura de hoje. Alcançou cidadania universal.
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Há anos o poeta inglês Shelley escreveu, em Defesa da poesia, que os poetas são
legisladores não reconhecidos da humanidade. Quem é mais legislador, o eleito pelo voto
mecânico e obtuso de maiorias induzidas por propagandas de campanha ou Shakespeare,
Cervantes, José Hernández? Quem alimentou mais a fome, a necessidade das pessoas, a
possibilidade de superar a angústia do homem frente às limitações de seu vizinho? Por
outro lado, acrescento, pela abertura da escala do real, que a poesia é o maior realismo
possível, porque é canalização do mais positivo, vivo, intenso, do homem: sua
possibilidade de criar. Se não encontramos os caminhos para superar o agrilhoamento da
política - dimensão administrativa e secundária da vida -, para despertar a
criatividade, não há solução possível para estes países. A primeira coisa é o que
estamos fazendo: seguir criando, falando, escrevendo, não sentir temor em dizer isto
através de qualquer meio, para que consigamos despertar alguns. E confiar em que tudo
isto, que não atuará jamais como revolução política, atuará como revolução
subterrânea.
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No coração do romantismo alemão, disse Novalis: a poesia é a religião original da
humanidade, a única forma de religião que nos resta. Subscreveria hoje uma frase que
disse Kierkegaard há muitos anos: a cristandade não fez mais que trair o cristianismo.
Creio, com matizes de diferença, que isto é aplicável às demais religiões. O homem
não pode ser tal sem o sentimento do mistério, que é a condição humana. Ontem, em
entrevista para um jornal de Paris, recordei o pensamento de um cientista, Einstein. O
sentimento do mistério é o mais importante, disse, que o homem possui, e a origem de
toda a poesia, filosofia, ciência, religião. E acrescenta: perdê-lo é como estar
morto. Creio que o que mais importa é estar vivo.
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A palavra é o que há de mais próprio do homem. Disse alguém certa vez, um pouco
ironicamente, que aquela velha expressão "Deus não fala" era absurda, porque a
palavra não é questão de Deus; mesmo que Deus não exista. Que faz o homem? Bom, eu
diria que se alimenta de universo. Não pode existir sem ser, de alguma maneira, o
transubstanciador, como você próprio disse no seminário, do universo. O homem é ser
que converte o universo em outra coisa. Se se quer, através da palavra, converte o
universo em si em sua própria transpiração. Em último termo, é como se a mudez do
cosmos se salvasse, se redimisse, possivelmente se metamorfoseasse neste milagre que é a
palavra do homem.
Roberto Juarroz
["Diálogo con Roberto Juarroz",
entrevista concedida a Antonio Domínguez Rey. Paris, 1985.]
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