MUSEU: POR FORA O MUTÁVEL, POR DENTRO EVASÃO
Remoção do imóvel
ideal de cabeças e torsos,
de cabeças inclinadas para um lado
como se tivessem um verme no ouvido,
de bocas abertas, estáticas,
como se fossem ouvir por ali,
a tradição
do monolítico, somático,
que em um dado momento crucial
é interrompida por ambigüidades,
e até então
eqüidade absoluta da beleza,
substituída por normas pessoais do gosto,
Rodin
exigindo da pedra
um dissolver-se em ar, em luz,
Brancusi
lançando-se com pedras, madeiras, metais,
a desmatar o caminho
até a positiva verdade do espaço livre,
e tão seguros
tão sadicamente senhores
de fazer com que os traços humanos
"não sejam mais belos que os dos sapos".
Uma perturbação:
observando
essas admiradas e orgulhosas peças
o crítico diria que os artistas
exploram a vida como um Amazonas,
e acabam por enfrentar
o duplo rosto das coisas.
E um prêmio:
o que nos mantém alerta,
depressão, hostilidade, ansiedade,
desapego emocional,
vem tomar aqui o fôlego
que de tanto em tanto necessita,
o que traz a contemplação
do real quando se atreve a sair
de seu lugar detrás dos olhos,
dentro do crâneo.
OS PESSIMISTAS NÃO SÃO EXCEÇÕES
Padecem de sonhos
arquetípicos correntes,
com freqüência
sonham que sobem em barcos
e percorrem as entranhas, passeam
pelo convés, ali se estendem,
dormem, caem ao mar
e vão dar no ventre de um peixe.
Como qualquer um,
aprendem que a vigilância
e a nutrição em condições adequadas
os conservarão fortes, saudáveis,
porém seu estímulo mais apressado
se apóia em que nada desviará
a fatalidade de que ontem fomos borbulhas,
amanhã múmias,
depois montículos de cinza.
O exclusivo, inconfundível,
está em sua compaixão:
sempre que realmente
escrutinam e esmiuçam o que se passa
determinam silenciá-lo,
isolá-lo;
e em sua generosidade, reconheçamos,
quando, sem reservas,
nos oferecem compartilhar a profecia
ancestral que os irmana, advertência
de que a derradeira batalha do mundo,
ainda não disposta, haverá de produzir-se
entre otimismo e pessimismo,
com a vitória, inequívoca,
ostentando o signo do pessimismo,
a negação criadora.
NA LETRA, AMBÍGÜA SELVA
1
O ritmo do escrito
é o ritmo do que escreve,
e o texto, o poema,
em parte mecanismo verbal,
em parte sistema de correspondências,
é com o mundo uma só identidade.
2
A forma equivale
a convicção interna,
e a letra a emprega com vistas
a prover o mundo de significados,
e ainda para o Significado,
e ainda para subjugá-lo
com o prejuízo de que a palavra
traduz e verte o idealizado.
3
Linguagem e estilo
penosamente edificam hierarquias,
e ao consegui-lo
o mundo fica em suspenso, extático,
mesmo que em seguida se decomponha o produto,
sua linhagem se vulgarize,
soe escarnecido e degradado
como esponjosa, murcha potência,
e as linhas melhores, as exemplares
e musicais tiradas, sobrevivam apenas
como por trás de um vidro, burla e tédio,
oh pobre Olimpo!
4
Campos onde o que mais despoja
é o que avança?
Ardil e recompensa
para os que perseveram
enfermamente atentos em apoderar-se
da totalidade atrevendo-se
ao banal absoluto de escrever
"Fechem essa porta"?, ou "Quisera dormir"?
Quanto trace a escritura
será interpretado, obterá resposta,
como aos piedosos é permitido
orar segundo lhes pareça, convencidos
de que Deus escuta e lê
até as pisadas de uma formiga.