É A BABA
É a baba.
Sua baba.
A efervescente baba.
A baba hedionda,
cáustica;
a negra baba rançosa
que baba esta espécie babosa de alimárias
por seus ruminantes lábios carcomidos,
por suas pupilas de ostra putrefacta,
por suas turvas bexigas empedradas de cálculos,
por seus velhos umbigos de ponteira gasta,
por suas corcovas plenas de interesses compostos,
de ações usurárias;
a pestilenta baba,
a boba doutorada,
que envergonha a felpa das bancas com dieta
e outras brandas poltronas não menos cuspidas.
A baba tartamuda,
adesiva, viscosa,
que impregna as paredes forradas de corcho
e contempla o desastre através da algibeira.
A baba dissolvente.
A acre baba oxidada.
A baba.
Sim! É sua baba
o que enferruja as horas,
o que perverte o ar,
o papel,
os metais;
o que infecciona o cansaço,
os olhos,
a inocência,
com seus vermes de asco,
com seus vírus de fastio,
de idiotice,
de cegueira,
de mesquinhez,
de morte.
ENCALHADO NAS COSTAS DO PACÍFICO
A Enrique Molina
Corta os dedos múmias
a jugular marinha
dos algosos hóspedes que dobram tua pensativa omoplata de chuva
a veia de presságios que lavram em tua areia os caranguejos escribas
o tendão que te amarra a tanto ritmo morto entre gaivotas
e foge com tua terráqua estátua pestanejante
sem um mítico corno sob a neve menina recostada em tuas têmporas
porém com onze antenas fluorescentes investindo o mistério.
Foge com ela em chamas do braço de seu medo
toma-a das rosas se preferes em chagas a casca
porém abandona o eco desse hipomar hidrófobo
que fofopolvoduende te dilata o abismo com seus viscosos zeros absorventes
quando não te transmuta em migratório vôo circunflexo de nostalgias sem rumo.
Furiosamente afasta tua Sigismunda rata introspectiva
tua teia de aranha faminta
desse trasmundo enteado de lava em mística abstinência de cactus penitentes
e com teu doguearcanjo aureolado de moscas
e tuas fiéis polainas melancólicas
de sonhos dissecados e gritos de desbaste cor de crime
foge com ela dentro de teu claustral aroma
mesmo que seu céuinferno te condene a um eterno "Te quero".
Deixa até desprender-se a cálida folhagem que brota de tuas mãos
junto a esse móvel totem de coxas água viva
flagela-te se queres com as violentas tranças que furtaste do esquecimento
porém por mais que sofras em cada cruz vazia uma paixão suicida
e tua própria cisterna com semivirgem lua reclame tua cabeça
já sem veleiro ocaso
nem chicha de pestanas
nem caixas onde lateja a agônica seca
foge pelos caminhos que arrancam de teu peito
com teu filho entre parênteses
teu formigueiro de espectros
tuas bisavós lâmpadas
e todas as frutíferas lembranças florescidas que alimentam tua sesta.
Foge com ela envolto em seu orquestral cabelo
e seu olhar sigilo
mesmo que te cruzes de asas
e o averritmo ferido que aninha no dorso onde te sangra o tempo
entardeça seu canto entre seus seioslotos
ou em seus braços de estátua
que perdeu os braços em altares de vestais e faunos inumados
e foge com tuas grilhetas de prófugo perpétuo
teu nimbo sem eclipses
teus desnudos complexos
e o sempiterno talho de fluviais trevas que te partem os olhos
para que vertam coágulos de rançosa an´gustia pai
impulsos prenatais
e meteóricas ânsias que lhe mordam os crótalos
os sonhoscobras do leito onde rema ambarmente desnuda
tua ninfômana estrela
enquanto teu corpo grasna um "Nunca mais" de pedra.
HÁ QUE BUSCÁ-LO
Na eropsiquis plena de hóspedes então meandros de
espera ausência
enluadas coxas de estival epicentro
tumultos extradérmicos
escoriações febre de noite que burmua
e aonda aonda aonda
ao abrirem-se as veias
com um peixelampo na nuca do sonho
há que buscá-lo
o poema
Há que buscá-lo dentro dos pressorvos de ócio
desnudo
desqueixume
sem raízes de amnésia
nos lunihemisférios de refluxos de cóagulos de espuma de meduas de areias dos seis ou
talvez em ânditos com alento a raposino
e a ruminante distância de santas mães vacas
fincadas
sem auréola
ante charcos de lágrimas que cantam
com um peixevéu em transe sob a língua há
que buscá-lo
o poema
Há que buscá-lo ignífero superimpuro leso
lúcido bêbado
inóbvio
entre epitélios de alvorada ou ressacas insones de solidão em crescente
antes que se dilate a pupila do zero
enquanto o endoinefável incandesce os lábios de subvozes que brotam do intrafundo
eufônico
com um peixegrifo arco-íris na mínima praça da
frente há que buscá-lo
o poema
ATÉ MORRÊ-LA
O palpável o mórbido
a concha funda ardida de tantúrbios
as tensas sondas fundas os refluxos as ondas da carne
e seus pistilos núbeis contrácteis
e seus anexos ninhos
os languiformes férvidos subsubornos inúmeros do tato
seu mosto azul desnudo
cada lista
cada veia do sonho do eco do sangue
as soníloquas noites do alto coaxar celeste que nos animabismam o solilóquio vertigem
quanto adere sem costas ao fluir o pulso ao rubro cosmogozo
e seus rostos vazios
e suas gargantas
até morder a terra
o ignoto noto curvo ao ver do ser o ósseos os impactos do pasmo de mais corda
qualquer estar em chaga
os dons dados onde se internevoam as órbitas os sorvos da euforia
qualquer velar velado com atento esqueleto que se pensa
a estéril fátua esteira
o microacaso do germe do móvel do encontro
os entões já prófugos
a busca em si gratuita
os mitinhos
até ingerir a terra
todo modo poroso
o poço lato único do fosso imerso adentro
a sede de sede sectária os finitos abraços
toda boca
o tanto
o amor pertinaz a tudo
o amormor preamante em cúmulo gomo totem de amor de amor
a marca
amor gorgôneo médium ondavecabracobra delíquio ereto inteiro
que ulululululula e arpejalibarranha o ego sopro centro
até exalar a terra
com seus astróides trinos suas espécies e multichamas línguas e excrecrenças
seus búzios laços lares de complexos incestos entre ossos correntes sem desaguamentos
seus convizinhos mortos de memória
sua luz de messe desnuda
suas axilas de seste
e seu giro fundo lodo não menos menos que outrsos afins cogirantes
até o desmame débil
até a despersuasão neutra
até morrê-la
ANTE O SABOR IMÓVEL
Todas as intermédias podretêmporas de espera de
esqueleto de chuva sem pessoa
quando não neutros lapsos micropolvos engendros do soutédio
podem antes que côncavos ausentes em seminal jazência
ser outros fluxos ácidos do diurno sonho insone
outros sorvos de páramo
tão vis vivas bílis de nonadas carcomas diametrais
mesmo que o sabor não mude
e Ofélia pura costa seja um pescado reflexo de rocio de esclerosada túnica sem lastro
um fóssil loto amóvel entre remansas coxas puras juncos de espasmo
um maxilar de lua sobre um canto rodado
terno espectro flutuante do novilúnio arcaico dromedário
longe já de seu neuro dubitabundo exnoivo psiquissalgueiro
mesmo que o sabor não mude
e qualquer lasso coalho invista novos ocos ante os idem lodos expartos bocejantes
peste com veste hóspedes do macrobarro grávido de morte
e goros logros de horas lacrimais
mesmo que o sabor não mude
e o menos eu do um no total por nada
beato salto de excoito amodorrado malentetando o asco
explore os estratos de seu âmbito sem sina
cada vez menos cratera
mesmo que o sabor não mude
cada vez mais borbulha de algânima não náiade
mais amplo menos trânsfuga
após suas estanques têmporas de mercúrio
ou nas finais enseadas do obsceno de marismas de pelve sob a água
com seu não pranto areia e nuas mínimas mortes navegáveis
mesmo que o sabor não mude
o somente ereto espesso mascadúvida insaciado em progressivo resto
ante a incerta ubíqüa muito quem sabe incógnita deífica malcinja a angústia
interrogante
mesmo que o sabor não mude