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pablo antonio cuadra

 

A noite, revelada por uma mulher, ao poeta Pablo Antonio Cuadra, nas montanhas vulcanicas da Nicarágüa

José Carlos A. Brito

O poeta Pablo Antonio Cuadra, nasceu em 1912, na Nicarágua, pequeno país da América Central, de apenas 4,5 milhões de habitantes, que se caracteriza por uma grande concentração de poetas, desproporcional ao seu tamanho, inaugurada pelo gênio universal de Rubén Darío (1867-1916). Uma segunda onda vanguardista, encabeçada pelo próprio Cuadra (1928 a 34), representa um marco na literatura latino-americana. Em entrevista concedida ao poeta Floriano Martins (publicada na revista Agulha), o próprio Antonio Cuadra define esse momento: “…a situação histórica em que o movimento floresce - sob uma intervenção estrangeira e contemporâneo à gesta de Sandino - induz seus integrantes a afirmar a identidade nacional, a buscar as fontes, a descobrir as próprias raízes e a combater o colonialismo mental e cultural".

A Nicarágua, por suas características geográficas, é sem dúvida um território propício a essa criação poética, com um solo vulcânico e fértil, conta com uma cadeia de montanhas com vulcões ativos e dois grandes lagos que dividem o lado ocidental - voltado para o pacifico e onde se situam as três maiores cidades - do lado oriental, onde uma planície é banhada pelo mar do Caribe. A rivalidade entre conservadores (latifundiários) e liberais (intelectuais, comerciantes nacionalistas) foi quebrada quando os liberais ao ganhar as eleições em 1893, são destituídos por uma invasão do exército dos EE.UU - que ocupam o pais até 1933. Por sua vez um outro exército, este de rebeldes guerrilheiros, comandados pelo general nacionalista Augusto César Sandino, mantém os invasores acuados, mas é assassinado em 1933 por Somoza, o comandante da Guarda Nacional instalada pelos norte americanos para disfarçar, com nativos, seu domínio. Disso decorre uma cruel ditadura de 20 anos, interrompida por novo movimento guerrilheiro; a Frente Sandinista de Libertação Nacional, apoiada pelos liberais, a classe média e os intelectuais.

Portanto, como Pablo Cuadra assinala, mesmo que fosse intenção do movimento de vanguarda voltar-se profundamente para uma poesia lírica, explorando a vitalidade da natureza extraordinária, assim como a forte tradição literária de uma população e a mitologia dos arquétipos dos antecedentes Maias e Astecas, era indispensável vivenciar o momento da revolta nacional, do espírito ferido, pela brutalidade do invasor. Assim nos descreve o poeta Cuadra aquelas circunstancias: “…O modernismo estava esgotado e nos sentíamos convocados a fundar algo novo e distinto. Não somente a poesia: tudo novo! Nos abrimos a todas as correntes vertiginosas do momento: desde o Surrealismo até Dadá. Porém, esse momento de abertura e cosmopolitismo coincidiu, na Nicarágua, com uma intervenção estrangeira, dos Estados Unidos; com o protesto armado de Sandino e, como é natural, com seu reflexo em nosso movimento literário, que se viu patrioticamente pressionado a criar uma literatura; nova, certamente, porém defensiva e afirmativa de nossa identidade nacional.”

Será igualmente interessante verificar como Pablo Cuadra, associa a síntese de sua cultura – e etnia - a um verdadeiro potencial libertário, que vai muito além dos signos tradicionais dos movimentos de libertação de caráter anti-colonialista. A intuição dessa possibilidade simbólica encontra-se em retomar a “história” coletiva do espírito das civilizações antepassadas, que povoavam os territórios da América, como foi o caso dos Astecas (no México), Maias (na Guatemala e México) e o Império Incaico (no Peru), através de uma linguagem onírica. Seria, portanto uma conclusão natural, do ponto de vista poetico (sobretudo), estabelecer uma ligação de nova transcendência, funcionando como potencial inédito para um povo cuja alma está vinculada àquelas raízes. Vejamos essa idéia em suas palavras: “…Nosso passado ocidental, Séculos de Ouro, Idade Média, Roma, Grécia, tem-nos sido comunicado pela escritura (Grécia nos fala desde a raiz de nossas palavras). O índio perdeu essa ponte. Tikal (nossa Atenas maia) é nossa Atenas muda: não nos fala através de língua ou escritura, mas sim como o amor, por silêncios. O índio que levamos dentro levamo-lo entre-adormecido. Necessita uma linguagem onírica, uma linguagem cujas associações e metáforas ultrapassem o racional, saltem a ponte caída da língua e nos comunique com esse mundo ab-origem que ainda está vivo…” Pablo Cuadra, nessa reveladora posição aprofundada, abandona uma breve passagem de sua vida que se deu por volta dos anos 30, onde esses mesmos arquétipos eram buscados numa cristalização conservadora, nas formas monárquicas do império colonialista espanhol, que da mesma forma buscava uma essência de origem ancestral. Da posição anterior, de catolicismo extremado, que traduzia um certo elitismo quanto à origem subalterna dos povos (índios?) submetidos sanguinariamente pelos colonialista, vemos o poeta já fixado na verdadeira essência de sua origem redentora. Mas, se a história é fruto de educação cultural, o imaginário na poesia, conduz o poeta, metaforicamente às imagens primordiais que se encadeiam.

A NOITE, SÍMBOLO DA SOMBRA, SERÁ UM NOVO MUNDO ATRAVÉS DA MULHER DESCONHECIDA

Escolhemos aquela que talvez seja a poesia mais conhecida de Pablo Cuadra, por sua beleza e facilidade de assimilação - “La noche es uma mujer desconocida”- cuja simbologia é, à primeira vista, de fácil identificação universal. Ao mesmo tempo trata-se de um poema repleto de significados, condutores ao entendimento desse caminho de silêncios, em que o amor nos levaria por um túnel negro de mistérios e estrelas, a entrar no mundo das imagens dos arquétipos antepassados e mitológicos. A vitalidade de noites inspiradoras nas montanhas nicaragüenses, espelhadas em imensos lagos, forma o clima propício para entrar nesse desconhecido, do qual percebemos uma intensa energia, difusa, que ronda a inspiração poética.

Do poema em questão, optamos, propositalmente, por uma tradução (feita por nós) para a língua portuguesa, completamente livre, denominada habitualmente de trans-criação, sem desviar-se, em absoluto, da essência de cada verso original. Fizemos assim, porque uma outra opção na forma mais direta, a nosso ver, perderia a musicalidade, muito sutil, que o poema original desprende, igual a um perfume suave. Também, há nela uma certa musicalidade, conseguida pelo poeta ao deixar de lado muitos assessórios lingüísticos com o intuito de destacar o choque dos acordes melódicos (nos questionamentos da voz feminina) e gravar esse impacto eternamente no leitor. Com isso, Pablo Cuadra coloca a rima em segundo plano, evitando qualquer outro tipo de distração.

Ao mesmo tempo, os efeitos, no original em espanhol, são acompanhados por uma cadência rítmica, dada pelo ineditismo das imagens, difíceis de imitar numa tradução convencional. Por estranho que pareça, ao traduzir este poema, sentimos necessidade de amplia-lo, de 6 para 21 versos (a trans-criação permite tal ousadia, dentro de limites~é claro) e até colocar-lhe umas rimas; isso para alcançar uma cadência contraposta ao aumento de texto, com a intenção de anular acréscimos de peso. Pois, a rima, quando posta para acrescentar ritmo, pode agregar leveza ao poema.

Assim, deixamos o clima poético conduzir-nos, como prova de que uma poesia extremamente energizada pela libido, consegue transmitir esse estado ao leitor, em forma de inspiração, convidando ao desenvolver do criativo. Vejamos a seguir as duas versões:

 

LA NOCHE ES UMA MUJER DESCONOCIDA

Preguntó la muchacha al forastero:
- ¿Por qué no pasas? En mi hogar
está encendido el fuego.

Contestó el peregrino: - Soy poeta,
solo deseo conocer la noche.

Ella, entonces, echó cenizas sobre el fuego
Y aproximó en la sombra su voz al forastero:
-¡Tócame! –dijo -. ¡Conocerás la noche!

 

A NOITE É UMA MULHER DESCONHECIDA

Indaga uma moça
ao homem que passa
e ouve seu falar
lento e surpreso:
- Porque não entras?
Em minha casa.
A porta está aberta 
e tem o fogo aceso.

Desdenhando a oferta,
responde o peregrino,
em tom de pejo:
- Sou poeta!
E conhecer a noite
é só o meu desejo.

Ela, com cinzas apaga o fogo.
E franzindo a fronte,
Aproxima na sombra
seu corpo todo,
dizendo ao forasteiro: 
- Toca-me! 
Conheceras a noite!

A SOMBRA, O INCONSCIENTE DESCONHECIDO

Em primeiro lugar, a noite significa sombra, aquilo que não é regido por uma ordem racional; aquilo que não são as convenções, as máscaras da persona, estas correspondentes ao comportamento claro das aparências formais. Ao procurar a noite, o poeta busca essencialmente a criatividade naquilo que lhe inspira um prazer desconhecido, isto é, a condição de descobrir o novo, que só pode acontecer onde haja possibilidade de ser revelado. J. Hillman em seu trabalho sobre a criatividade, cita sobre o assunto alguns pensamentos de Jung, originários de diferentes posições de percepção, ou córregos diferentes que levam a um mesmo rio. Portanto vale a penas reproduzir essas citações de Jung.

A Sombra: “…a vida criativa está sempre fora das convenções. Isto porque, quando a simples rotina da vida predomina sob a forma de convenção e tradição, ocorre necessariamente uma erupção destrutiva da energia criativa…” O Jogo: A criação de alguma coisa nova não é atingida pelo intelecto, mas pelo instinto de jogo que age a partir de uma necessidade interna. O espírito criador joga com os objetos que ama (…) nos sabemos que toda a boa idéia e todo ato criativo são produtos da imaginação e tem sua fonte no que se apraz denominar fantasia infantil. Não apenas o artista, mas todo o individuo criativo deve à fantasia tudo que é mais importante em sua vida. O principio dinâmico da fantasia é o jogo, uma característica também da criança…” A Mãe: A psicologia da criatividade é, realmente, uma psicologia feminina, fato que prova que o trabalho criativo brota das profundezas do inconsciente, na verdade, da região das mães.”

Essa mulher que surge na imaginação do poeta é quase a imagem de uma criança que brinca com fogo (acende e apaga o fogo); tanto no sentido inocente, como no perigoso limite da proibição erótica, pois o poeta dirige sua sensualidade ao sexo oposto. Não é à toa que a palavra muchacha está mais para menina do que para mulher e na tradução tanto poderia ser menina como moça. No entanto, nesse momento, o poeta, precisa mais ser despertado pelo jogo da menina, que é sua forma sedutora de conduzir-se à psique por um estado de atração erótica à mulher. A própria menina acaba transformando-se nessa mulher, no momento em que se acentua a sombra (no processo de aproximação do corpo). Com o apagar do fogo - ao jogar cinzas e interromper o jogo de brincadeira da criança – a mulher sinaliza que a situação mudou, pois o fogo passa para dentro da alma do feminino, incorporando-se à libido (paixão) no corpo dela, que solicita a aproximação de Eros. Também aí re-encena-se a história de Eros e Psique, mas nesse caso invertendo os papeis; algo como transferência do estado desperto de Psique (o feminino–alma que sabe o que quer) para a projeção de sua sonolência em Eros (o poeta distraído pela atração da noite, que oferece isso como desculpa). Mas esse Eros (poeta) é incitado por Psique (mulher) a disparar-lhe a flecha. Se o papel natural do poeta seria despertar (seduzir) a mulher que o atrai, a inversão dos papeis, não acontece de fato, mas o poeta projeta através de sua alma (feminina), seu desejo de realizar a união amorosa, por intermédio de uma ação inconsciente, já que os desejos, foram reprimidos ali (no inconsciente) “….meu desejo é apenas conhecer a noite…”. Como afirma Jung “…sem dúvida, em qualquer relação humana que de algum modo seja íntima, quase sempre estarão operando certos fenômenos de transferência como fatores de ajuda ou de distúrbio…”

No entanto, como é o poeta que vive as imagens, dessa forma bem pode tratar-se aqui de uma projeção dele para as imagens criadas no simbolismo do poema, quer dizer, o poema é o símbolo de seu desejo. Ao final confirmamos que a criatividade, como o nascimento, por serem femininos e serem igualmente a origem no (ou do) desconhecido; do cosmo sombrio, da criatividade da noite, essas imagens estão, tanto para o homem como para a mulher, na alma psicológica representada pela mãe, que é a figura do arquétipo da mulher, portanto do desse feminino, origem da imaginação e da fantasia, que no fundo é uma reprodução de imagens primordiais da origem da vida real ou num plano de consciência (luz).

Daí se conclui ser a alma também a sensibilidade do retorno ao primordial, através da experiência sensível pessoal, do sentimento. O próprio Hillman, pensando na função mais autônoma, que é o feminino como imagem da alma, não reduz essa anima a uma função correspondente à necessidade do homem, que na mulher corresponderia ao oposto, isto é o animus - algo acentuado por Jung - mas como um elemento que funciona para ambos os sexos, e dessa forma iguala os sexos, na potencialidade criativa do ser. Assim, justifica J. Hilman : “…As representações de anima (alma) na mitologia grega, onde o arquétipo aparece na configuração de ninfas, mênades, amazonas, nereidas, e assim por diante, ou nas formas divinas mais numinosas e articuladas de Perséfone-Kore, Afrodite, Ártemis, Hebe, Atena, referem-se a uma estrutura de consciência relevante para a vida de homens e mulheres. Portanto, a criatividade psicológica não se limita apenas aos homens, nem o arquétipo da anima (alma) é uma prerrogativa masculina…”

Seguramente, o poeta Pablo Cuadra, dialoga com sua própria alma, na figura da menina-moça; ela lhe oferece sua casa para que entre e mostra-lhe que dentro dela existe o fogo aceso da mulher. A casa da alma é o locos onde ela habita, quer dizer, o próprio interior do poeta. E o fogo é a libido, energia vital que o espera. O poeta, no entanto, recusa-se a principio, pois seu objetivo é conhecer a noite, o lugar do desregramento, onde as orgias irracionais (o dionisíaco em contraposição à repressão católica) serão possíveis; o lugar dos imponderáveis prazeres de Volúpia (a filha de Eros e Psique, portanto sua própria filha, a ser reconhecida caso ele reconheça sua alma). Ele almeja a noite onde sua energia erótica poderá converter-se em verdadeira criatividade. No entanto, a mulher que está à sua frente ainda provoca o conceito das convenções moralistas, muito provenientes desse catolicismo repressor. A mulher, que segundo as normas desse moralismo, terá que ser “respeitada”, representa para o poeta ter que assumir a máscara do algo já conhecido, nas formas aparentes do feminino convencional e proibido. Ele, de imediato, não percebe que ela é sua alma, a ponto de formar sua psique, ou melhor, a figura desconhecida com poder de conduzi-lo à noite e à libertação.

Portanto, no desenvolvimento da imagem que vai sendo criada, dá-se uma espécie de transferência do poeta para a imagem da própria alma desejada. Sendo algo como fusão neurótica, que não precisará de divã para ser analisada (por um psicanalista) com objetivo de “cura”, mas aprofundada, no conhecimento dos desejos da alma; enigmas que o poeta solicita conhecer, através dessa inversão de papeis, e do conhecer o feminino. Esse símbolo estende a mão convidando-o para a cerimônia do equilíbrio, que também é a iniciação ao descobrimento da noite, pelos caminhos da alma, de psique, da mulher, ou talvez de uma Lua Negra; uma Eva dionisíaca, escondida em seu imaginário inconsciente (vivo)

 “…se a anima (alma) é o caminho que conduz à psique, então as experiências da anima constituirão um caminho iniciático para a criatividade psicológica. Neste sentido, Jung fala da anima como o caminho para a plenitude psicológica, e das repetidas coniunctiones (uniões de síntese) com o feminino através dos diversos estágios de desenvolvimento…” (J.Hillman)                                                         

O POETA E O MERGULHO INTERIOR

Agora nos vem a indagação, porque o poeta precisa conhecer a noite? Ou melhor, qualquer ser humano, ao estar imbuído do espírito noturno, e ao emocionar-se com os mistérios profundos da sombra; com as estrelas, a lua e a imensidão desconhecida do cosmo, está tomado pelo espírito poético. Significa alguma coisa como vivenciar as imagens primordiais, que tem uma ligação entre esse estado de plenitude semi-consciente e o mesmo universo vasto da vida inconsciente, emergido nos sonhos ou na poesia, ou em qualquer manifestação subjetiva da alma, como é o caso da arte ou um tipo de paixão de aparência irracional. Relacionado a isso, temos em Jung “… aquilo que os espíritos criadores extraem do inconsciente é o que, verdadeiramente, nele se encontra…” e mais adiante: “…por isso os poetas não nos podem deixar indiferentes, pois em suas obras capitais e em suas inspirações mais profundas, nutrem-se do inconsciente coletivo e proclamam em voz alta o que os outros apenas sonham…”

O PALPITAR DO MITO DA LUA NEGRA

Nesse ponto, ante o poema de Pablo Cuadra, não poderíamos deixar de lembrar com oportunidade o mito de Eva Lilith, esta também conhecida como Lua Negra, que segundo lendas anteriores à versão bíblica dos sacerdotes, foi a primeira mulher de Adão antes da Eva conhecida. Essa história conta que Adão desejou essa primeira mulher e ela foi criada por Deus numa noite entre sexta-feira e o sábado, portanto nesse mesmo período noturno em que os dois se amaram. Adão tentou submeter essa mulher e Lilith rebelou-se. Segundo o psicólogo italiano Roberto Sicuteri, que levantou os mais variados aspectos da lenda, desde os caldeus e os judeus, passando pela tradição sumério-arcadiana, a egípcia e a greco-romana, entrando nas bruxas da idade media e chegando aos tempos atuais, em que o mito representou lutas de emancipação feminina, Eva Lilith, a primeira companheira de Adão, teve seus traços apagados pela consciência coletiva, na história do homem (no sentido do masculino). Assim afirma Scuteri: “…Lilith, a Lua Negra, é o céu vazio e tenebroso no qual se projetam indagações e possíveis respostas de um diálogo que não tem nada a ver com o racional e, muito menos, com o sistemático-clínico: é o dialogo em que o homem entretém com a própria alma, vivida em sua totalidade, ou numa cisão dolorosa…”

O amor de Adão por Lilith rompeu-se devido à incompreensão daquele, em relação às reivindicações igualitárias que lhe fazia Lilith; esta, por sua vez, recusava-se à normalidade imposta pela posição sexual do homem por cima e a mulher por baixo (leia-se o simbolismo). Naturalmente que isso significava a rebeldia a uma posição secundária e inferior da mulher em relação ao homem. “…porque devo deitar-me embaixo de ti? (…) porque devo abrir-me sob teu corpo? (…) porque ser dominada por ti ? Contudo eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual…”(diálogos da lenda). Segundo a história, Adão, cuja incompreensão do amor exigia da mulher essa submissão, passa a ter o apoio de Deus, que aproveita para convence-lo a abandonar Lilith. Do conluio entre os dois, Lilith é expulsa desse convívio e condenada a transformar-se em demônio, povoando o mundo com muitos filhos dessa espécie satânica. No fundo é o convite aos prazeres desregrados, libidinosos e dionisíacos que passaram a atormentar de saudade, desejo e arrependimento ao próprio Adão, assim como à espécie humana em geral.

Quantos de nós mesmos nos arrependemos, durante a vida interia, dos amores reprimidos? Para onde vai a sublimação dessa libido? Será um dos sinais da criatividade proibida ou símbolos da atração aos mistérios da noite e da sombra, que nos perseguirão sempre, algo como a procura da alma perdida? Como compensação Deus criou Eva, a segunda mulher (ou nossas outras opções?) tentando uma máscara pacificada de submissão, obediência e “beleza”. Mas essa segunda Eva, por sua vez, ao estabelecer-se no paraíso, comunicou-se com esse outro demônio e, da sabedoria de tal conhecimento adquirido pela desobediência, induziu Adão ao prazer da maçã, quer dizer, a mulher, mesmo sendo dividida pela persona imposta, segue seu instinto essencial como ser de unificação feminina (como Lilith e Eva) no encontro do si mesmo; uma derivação da Grande Mãe, geradora do universo, ou a alma, imbuída e impregnada do interior dos seres, ou mesmo o objeto da constante e interminável procura do fazer alma, sob a forma de inúmeras metáforas, incluindo a da noite. E é destino da mulher iluminar o homem, tirando-o de sua obediência infértil. E, como imaginamos que a própria Lilith se pronunciaria diante do ser que a deseja: Eu sou a noite (Lilith) desconhecida, eu sou o fogo do teu desejo e a dor implícita (demoníaca), eu sou o convite à minha casa, onde sou (Deusa) dona, eu sou você convertida em tua alma (a si-metria) que consegue à distancia olhar-te autônoma.

 

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