Além de ter dialogado, enquanto poeta, com os
principais representantes do barroco de língua espanhola, ter aproveitado criativamente
todas as formas literárias disponíveis e inventado outras - o que atesta a sua
indiscutível importância na história da poesia colonial do continente - Sor Juana
desempenhou um papel importante na defesa, em pleno século XVII, do direito de as
mulheres terem acesso irrestrito aos livros e ao conhecimento. Não bastasse isso, ainda
teve a coragem de discutir e desafiar - com uma habilidade argumentativa até então
considerada privilégio exclusivo dos homens letrados - as idéias de um dos mais
consagrados intelectuais do barroco ibero-americano: Pe. Antônio Vieira.
Tal desafio deu-se através da famosa
"Carta Athenagórica", de 1690, enviada pela monja mexicana ao então bispo de
Puebla, Manuel Fernández de Santa Cruz, seu interlocutor intelectual. Nela, realizou uma
minuciosa leitura crítica do Sermão do Mandato, desmontando, ponto por ponto, os
argumentos teológicos do padre português em torno das "finezas de Cristo". Por
motivos ainda nebulosos, essa carta foi publicada pelo destinatário ao lado de outra
carta-resposta que o próprio bispo teria escrito sob o pseudônimo feminino de Sor
Filotea de la Cruz, na qual discorda veementemente da freira, não sem antes elogiar suas
qualidades retóricas. Abstendo-se de discutir os argumentos teológicos apresentados na
"Carta Athenagórica", o bispo de Puebla levanta dúvidas quanto à vocação
religiosa da freira, visto que para ele, a dedicação por ela dispensada aos livros
mundanos, à poesia e ao entedimento eram o atestado irrefutável de seu distanciamento
das Sagradas Escrituras. A publicação dessas cartas foi o início de toda uma polêmica
que ultrapassou as fronteiras do vice-reinado da Nova Espanha e adquiriu considerável
repercussão nos meios clericais da Península Ibérica. E que levou a monja barroca a
escrever sua fabulosa "Resposta a Sor Filotea de la Cruz, uma espécie de relato
autobiográfico, no qual faz a defesa apaixonada de sua vocação e de seu direito de
exercer o ofício intelectual. Para isso, faz o elogio do saber multidisciplinar e da
prática poética, retraça sua própria trajetória no mundo das letras e argumenta a
favor das "mulheres doutas" de todos os tempos. Atrai, com essa nova carta, a
animosidade eclesiática, é abjurada pelo seu próprio confessor e, pressionada por
vários prelados, acaba por se render, dois anos depois, ao silêncio e ao ostracismo.
Durante muito tempo, pelo menos até o final do
século XIX, sua obra - publicada em três tomos, com última reedição em 1725 - também
ficou silenciada. Sua figura ainda permaneceu, simbolicamente, através de alguns relatos
biográficos, entre eles o do Pe. Jesuíta Diego Calleja, que se empenhou em
"salvar" a imagem da monja, relevando as suas virtudes religiosas e ocultando
tudo o que pudesse obscurecer sua reputação. Procedimento esse repetido por vários
escritores católicos. Foi necessário que uma mulher, Dorothy Schons, trouxesse à tona,
no início deste século, o lado subversivo de Sor Juana e a revalorizasse enquanto mulher
e intelectual, abrindo caminho para sucessivos, embora ainda precários, estudos sobre a
sua vida e sua obra.
Não obstante tenham aparecido, ao longo deste
século, importantes textos críticos e biográficos com a nítida preocupação de
redimensionar a contribuição da monja mexicana para as letras hispano-americanas,
pode-se dizer que o trabalho que realmente colocou Sor Juana no circuito cultural da
América Latina e do mundo, foi o monumental livro de Octavio Paz, Sor Juana Inés de
la Cruz o las trampas de la fe, publicado em 1982.
Paz, que sempre manteve uma relação dialógica
com a tradição, preferindo lê-la sob o prisma das idéias de ruptura e de mobilidade
("uma tradição que se petrifica se prolonga até a morte", diz) vai, nessa
obra, construir uma Sor Juana que se destaca tanto no contexto da literatura barroca de
língua hispânica quanto no cenário da moderna poesia ocidental. Além de criar para si
mesmo (naquela perspectiva de Borges, no "Kafka y sus precursores") a sua
precursora hispano-americana que, enquanto tal, nada fica devendo aos modernos poetas
europeus, visto que o próprio autor a compara a eminentes representantes da
"tradição da ruptura", como Mallarmé e Valéry.
Assim, com o duplo intento de delinear sua
própria linhagem poético-intelectual e retraçar por uma via não linear a
tradição poética hispano-americana em seus imbricamentos com a história do barroco
europeu e com a poesia moderna, o escritor mexicano percorre com olhos de poeta e leitor
do século XX toda a complexa estrutura do México colonial do século XVII. Realiza,
portanto, um estudo reconfigurativo não só da vida e dos textos da monja barroca, mas
também das condições políticas, culturais, históricas e literárias da sociedade
setecentista da Nova Espanha. Ou, como ele mesmo preferiu dizer, constrói um "ensaio
de reconstituição". Nas suas palavras:
"La comprensión de la obra de Sor Juana
incluye necesariamente la de su vida y de su mundo. En este sentido, mi ensayo es un
intento de restitución; pretendo restituir a su mundo, la Nueva España del siglo
XVII, la vida y la obra de Sor Juana. Por otro lado, la obra de Sor Juana también nos
restituye, lectores del siglo XX, la sociedad de la Nueva España en el siglo XVII."
(1)
Fazendo uma radiografia completa do imaginário
setecentista mexicano, analisando as peculiaridades religiosas e literárias da época,
vasculhando as minúcias biográficas das principais personagens do tempo, teorizando o
barroco e suas confluências com as correntes estéticas modernas, revistando o pensamento
e os principais textos da freira mexicana, Paz ainda nos oferece uma Sor Juana-poeta
inteiramente distinta daquela dos manuais de literatura, acostumados a apresentá-la como
um dos satélites de Gôngora. Isso, porque o crítico se recusa a confiná-la nos limites
estéticos daquele tempo, já que, segundo ele, Juana Inés, sem deixar de ter incorporado
criativamente todos os procedimentos poéticos da era barroca e as tendências
filosóficas da época (ultrapassando assim os limites geográficos e culturais de seu
continente), antecipou certas inquietações próprias dos poetas modernos
hispano-americanos e europeus. Ou, nas palavras do autor, ela "expresa a su época y,
simultaneamente, es su excepción" (2).
Esse caráter de exceção se evidencia,
obviamente, em vários níveis. Começando, como vimos, pela aguda consciência que teve
de sua condição feminina, num contexto de forte repressão moral. Sor Juana foi além
dos limites a ela impostos pela vida reclusa do convento, pelos cerceamentos ideológicos
da Igreja e da sociedade do tempo, assumindo abertamente o seu perfil de poeta versátil e
de estudiosa aplicada, capaz de incursionar com desenvoltura por várias formas poéticas
e campos interdisciplinares do saber. Além disso, a prática da auto-reflexão, da
sondagem crítica de seu próprio percurso intelectual, destaca-se como fator que a
distingue visivelmente dos seus contemporâneos. É nessa perspectiva que a
"Respuesta a Sor Filotea de la Cruz" pode ser tomada como um texto exemplar, por
revelar, como apontou Paz, uma poeta que "pôs seus dons intelectuais a serviço da
análise de se mesma", à feição de um Valéry - que levou até as últimas
conseqüências a lúcida tarefa de se auto-investigar.
Octavio Paz, não obstante examine as
semelhanças entre a estética barroca à qual a poeta se filiou e as estéticas de
ruptura próprias da modernidade, o que poderia dar margem a se pensar que o que ela tinha
de moderno era o que nela havia de mais barroco, vai mais longe ao marcar a dissonância
entre a monja (que teria prenunciado a "modernidad más moderna") e seus
contemporâneos. Para isso, elege o poema Primero Sueño (1685) para explorar com
mais detalhes a relação de "simetria dissonante" de Sor Juana com a própria
estética barroca, marcando também, indiretamente, com tal trabalho de investigação, a
marca diferencial dos poetas modernos em relação aos poetas barrocos: a que se refere à
questão da consciência crítica e autocrítica, da razão que se destrói a si
mesma, inerente aos modernos.
Ao tomar o Primero Sueño como o cerne da
diferença entre Sor Juana e os principais poetas do seu tempo, Paz, de alguma maneira,
reedita e desenvolve as considerações feitas por outros estudiosos do barroco ou da
literatura mexicana, como Alfonso Reyes e Lezama Lima, que também privilegiaram o mesmo
poema como centro irradiador de toda a obra da escritora. O primeiro, ainda que admitindo
a existência no texto de ecos formais de Gôngora, confere-lhe uma modernidade análoga
à de certos procedimentos de Proust, dos surrealistas e de Valéry (3); enquanto o
segundo, em suas incursões no que chama de "curiosidade barroca", descarta a
dívida desse poema para com as Soledades de Góngora e o compara aos Sonetos de
Orpheu, de Rilke, ao Narciso, de Valéry e ainda ao Muerte sin fin, do
mexicano José Gorostiza (4).
Paz, como Reyes, não subtrai as afinidades do
poema com a estética gongórica, sobretudo no que tange à sua superfície emblemática,
atravessada de latinismos, alusões mitológicas, hipérbatos e imagens, extraídos do
universo labiríntico do poeta cordobês. Mas adverte: "las diferencias son mayores y
más profundas que las semejanzas". E, para trabalhar esses rasgos distintivos, não
apenas menciona como Lezama Lima as similitudes do poema com o Muerte sin
fin de Gorostiza ou as suas afinidades com o Altazor do vanguardista chileno
Vicente Huidobro, mas também mergulha no sinuoso mundo de imagens e conceitos do sueño
de Sor Juana, para enfatizar tanto o caráter intelectual, crítico, do poema, quanto
a sua geometria de sombras e claridades súbitas. Enquanto, segundo ele, Góngora se vale
de um leque verbal de cores e resplandescências, a poeta mexicana opta pela penumbra,
numa viagem noturna que culmina no encontro com o abismo e com a consciência do nada.
E é exatamente nesse ponto abismal que o poema
se configuraria, surpreendentemente, como uma antecipação do Un coup de dés de
Mallarmé, poema que enfoca o vôo solitário do espírito humano pelos espaços
estelares, um vôo que também culmina na queda e na contemplação do vazio.
Nas palavras de Octavio Paz:
"A semelhança é mais impressionante se se
repara no fato de que as duas viagens terminam em uma queda: a visão se resolve em
não-visão. O mundo de Mallarmé é o de sua época: um cosmos infinito o transfinito;
embora o universo de Sor Juana seja o universo finito de la astronomia ptolemaica, la
emoción intelectual que descreve es a de uma vertigem diante do infinito. En Primero
Sueño aparece um espaço novo e distinto, desconhecido tanto por fray Luis de Leon y
pelos neoplotónicos do século XVI quanto pelos poetas do XVII, Quevedo, Góngora o
Calderón." (5)
Paz sonda, com detalhes, as configurações
desse novo espaço. Para isso, incursiona primeiramente na cosmografia dos séc. XVI e
XVII, buscando, sobretudo na obra do jesuíta alemão Atanasio Kircher, através da qual
Sor Juana teria se enlaçado à tradição hermética já arruinada pelo advento do
cartesianismo e da astronomia newtoniana, os elementos constitutivos do universo cósmico
do Primero Sueño e da própria formação intelectual de sua autora.
Kircher, afeito à lógica das correspondências
universais entre religiões e culturas de vários tempos, aliou o catolicismo sincretista
não apenas com o hermetismo neoplatônico, mas também com as novas descobertas
astronômicas de Copérnico e Galileu. Além disso, buscou na civilização egípcia a
resposta para os enigmas da história. Como ressalta Haroldo de Campos, "Kircher, com
seus diagramas místicos, suas cartas herméticas e suas pranchas alegóricas" tinha
uma obra "variadamente abeberada na sabedoria egípcia, na teologia fenícia,
na astrologia caldéia, na cabala hebraica, na magia persa, na matemática pitagórica, na
teosofia grega, na alquimia árabe e na filologia latina" (6).
O contato de sor Juana com a vasta diversidade
do pensamento kircheriano teria possilibilitado a ela imaginar um universo que, embora
remeta aparentemente à concepção ptolomaica, descortina espaços vertiginosos, só bem
mais tarde vislumbrados esteticamente pela poesia moderna. A presença de duas pirâmides
opostas como base alegórica do poema, bem como as recorrentes evocações de figuras da
mitologia egípcia também apontariam para a afinidade intelectual da monja mexicana com
as idéias prismáticas do padre alemão, ainda que ela tenha acrescentado a esse legado
uma visão particular, produto de uma consciência mais cindida, mais abismal (e,
portanto, moderna).
Diante dessas relações simultâneas de
correspondência e divergência entre Sor Juana e Atanasio Kircher, ou Sor Juana e
estética barroca, Paz movido por uma lógica de associações em cadeia, própria
do método analógico passa a aproximar a monja mexicana, enquanto poeta, de
Mallarmé, que além de ter também assimilado procedimentos estéticos barrocos, recolheu
criativamente os ensinamentos do hermetismo neoplatônico de feição alquímica (o que o
avizinha de Kircher), visíveis no projeto de construção do Grande Livro espécie
de duplo verbal do universo. Só que, como se sabe, Mallarmé, movido pela consciência
irônica (obviamente bem mais aguda e radical que a de Sor Juana), não vislumbrou esse
universo como uma ordem, mas como um "céu constelado de vazios", para usar aqui
uma imagem de Blanchot. Un coup de dés seria, portanto, uma reprodução visual
desse espaço, ao se mostrar como um todo estilhaçado, onde importa menos a palavra do
que o silêncio. É nesse sentido que Mallarmé encena no poema a irrealização de seu
próprio "ideal desproporcionado" rumo ao Grande Livro, já que este não existe
senão enquanto silêncio.
Como mostra Paz, Primero Sueño alegoriza
igualmente um fracasso: o da alma humana que, desvencilhada do corpo durante o sono, alça
seu "vôo intelectual" pelas esferas supralunares, à procura do conhecimento, e
que, ao se deparar com uma visão intensamente luminosa, despenca, ofuscada. Como resume
Octavio Paz, "el poema es el relato de una visión espiritual que termina en una
no-visión", ou seja, apresenta alegoricamente, "la revelación de la
no-revelación", o que contraria os princípios místicos predominantes no seu
século (7).
Paradoxalmente, essa insólita não-revelação
é associada, pelo autor, a uma outra espécie de revelação: a consciência de que o
fracasso é um saber. Consciência esta inerente ao pensamento moderno e que se faz ver de
maneira radical no poema de Mallarmé. Daí ambos os poemas terminarem, segundo Paz, em
pontos suspensivos, tendo como personagem invisível "el espírito humano, sin
patria, frente al cielo estrellado".
Paz, entretanto, não menciona a diferença
fundamental de Sor Juana em relação a Mallarmé: enquanto ela se vale de conceitos e
alegorias para externar a sua consciência do abismo, esta se encontra materializada, em Un
coup de dés, na própria disposição gráfica das palavras e dos espaços brancos
sobre a página, configurando o que Valéry chamou de um "espetáculo ideográfico de
uma crise ou uma aventura intelectual". Primero Sueño, de 975 versos, é
contínuo e flui ao ritmo das imagens de luz e sombra. No caso do poema da monja mexicana,
o espetáculo ideográfico mencionado por Valéry vai se dar pelas vias da alegoria e do
conceito.
Percebe-se que, nesse ponto, Octavio Paz prefere
sondar as semelhanças entre os dois poemas, talvez com o propósito de realçar a
excepcionalidade de Primero Sueño, considerado por ele um "poema barroco que
niega el barroco, obra tardia que prefigura a la modernidad más moderna" (8).
Paz chega até mesmo a detectar uma dimensão
autobiográfica no texto, ao observar que, em meio à sua paisagem abstrata, atravessada
de imagens delirantes e labirintos verbais, é possível ler a história de um tumultuado
pecurso intelectual: o da busca apaixonada do conhecimento, a mesma que a autora traçou
detalhadamente em Resposta a Sor Filotea. Busca que, por transgredir as
imposições e os cerceamentos sociais, só pôde se dar como uma viagem noturna, como um
sonho que, na verdade, encobria uma "lúcida vigília".
O fracasso dessa busca, duplamente alegorizado
no poema pelas imagens da queda da alma e do despertar do corpo, nos contaria, assim, sob
a perspectiva paziana, "la história da crise intelectual de Sor Juana e el acto
inicial de su conversión" (9). Proposição que não deixa de ser polêmica,
considerando-se a distância temporal entre a escrita de Primero Sueño e a
renúncia da monja à vida intelectual, em março de 1694. (10)
De qualquer maneira, Paz, através desse longo e
intrincado percurso, que inclui um detalhado e monumental estudo biográfico da autora,
constrói a sua Sor Juana, valendo-se de parâmetros que a situam como uma mulher
de extrema atualidade dentro do cenário contemporâneo, mas que nem por isso deixou de
viver intensamente a sua época. Ele revitaliza, assim, uma figura literária que,
simultaneamente, encerrou uma tradição (a do barroco de língua espanhola) e prenunciou
outra, que só viria à tona quase dois séculos depois: a que teve seu auge na figura de
Mallarmé e à qual também se filia o próprio Octavio Paz. Ou seja, o poeta mexicano,
sustentando-se na conjunção entre tradição e ruptura, universalismo e americanismo,
faz de Sor Juana Inés de la Cruz uma autora de dimensão, ao mesmo tempo, barroca e
moderna, mexicana, hispânica e universal, que, portanto, é sempre outra, dependendo do
ângulo do qual é vista e revista. E é na medida dessa mobilidade temporal e espacial
que Paz vai também recriar, a partir da estética barroca de Sor Juana, a obra de
Mallarmé e, por extensão, a sua própria. Sobretudo se pensarmos em certas
coincidências biográficas entre os dois poetas mexicanos, o que ainda está para ser
investigado e que demandaria um extenso ensaio.
Perguntado, em uma de suas entrevistas, sobre a
sua relação apaixonada com a figura da poeta mexicana, Paz confessou: "Yo no
podría decir, como Flaubert de Madame Bovary, Madame Bovary c'est moi'. Pero sí
puedo decir que me reconozco en Sor Juana..." (11)
Nada mais? Nada menos.