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Ars
Moriendi e ética cortês
Rodrigo
Petronio
Michel
de Montaigne, em uma das tantas passagens magníficas de seus Ensaios,
medita sobre o porquê a morte alheia nos impressiona muito menos
na guerra do que dentro de nossos lares[i].
Reflexão de fundo estóico, é a partir dela que ele vai elevar
sua voz ao tom elegíaco apropriado para falar dos homens insignes
que morreram nos campos de batalha. Porém, o termo
elegia é bem mais antigo, e deriva do grego elegeion,
que quer dizer canto fúnebre. Era o gênero por excelência também
da laudatio, a homenagem
prestada aos mortos ilustres. De maneira curiosa, essa forma poética,
composta quase que exclusivamente em versos jâmbicos, passa na
alta latinidade a servir à expressão erótica e amorosa, e tem
nas Elegias de Propércio
e nos Amores de Ovídio
o seu ponto mais alto em língua latina. Não sabemos ao certo o
que motivou essa transposição de temas e gêneros; é provável
que tenha sido a proximidade métrica, já que o jambo também era
o verso utilizado nos poemas fesceninos gregos. No entanto, mesmo
os estudiosos mais agudos do assunto não arriscam dar a última
palavra sobre a metamorfose do gênero, incluído aí o estudo já
clássico de Paul Veyne sobre a poesia elegíaca[ii].
Mas em Propércio essa união entre o tom fúnebre, que remonta à
origem dessa ars poetica,
e a tópica amorosa deixa de ter como motivo os heróis e passa a
designar uma mulher especiosa e suas aventuras numa Roma subterrânea:
Cíntia.
Ao
invés da tentativa de imortalizar as virtudes guerreiras, como
ocorre nas elegias de Tirteu, diferente da sátira de Arquíloco
de Paros ou dos versos gnômicos, sentenciosos e morais, de Sólon,
a elegia latina se aproxima mais da melancolia de Mimnermo, e a Cíntia
de Propércio parece avessa a qualquer tipo de idealização ou de
elevação de tom próprios ao louvor. Esse desdobramento de
formas e temas vai se desenvolver de modo muito sui
generis, e poderíamos até dizer que os conceitos de ars
amandi e ars moriendi,
as artes de amar e de morrer, que alimentaram muitas obras e todo
o imaginário medieval, têm sua origem nesse desmembramento
inexplicável do gênero elegíaco romano.
Sabe-se
que a obra amorosa e erótica de Ovídio se encontra implícita na
tradição dos goliardos, os padres poetas que vagavam de castelo
em castelo, e serviu de base para a composição dos trovadores do
século XII, além de inspirar todo o código de ética do amor
cortês desse florescimento notável das letras. Resumindo esse
fenômeno de forma bastante didática, a grande novidade que esse
período poético nos traz é que, pela primeira vez depois de
muitos séculos, temos poetas de identidade conhecida compondo em
língua vulgar. Já a tradição da ars
moriendi irá encontrar sua síntese máxima na Consolação
da Filosofia de Boécio, escrita em meados do século VI e
muito lida e apreciada durante os séculos subseqüentes. Acusado
de conspiração contra o tirano godo Teodorico I, que então
subjugava os povos itálicos, Boécio a escreveu na prisão, diz a
lenda, friccionando pedaços de arame sobre tabuinhas, e sabendo
que sua cabeça rolaria no cadafalso dentro de alguns dias. Nela,
as deusas Fortuna e Filosofia se apresentam ao cônsul teólogo
emanadas para dentro de seu cárcere em sonho, e participam, com
ele, de um colóquio onde a efemeridade das coisas e o tempo
irreversível são submetidos às luzes da reflexão[iii].
A obra de Boécio, amalgamando essa tradição que trata da arte
de morrer, aliada à filosofia estóica, vai dar margem à criação
de uma ética que encontrará acolhida nas regras da vida
palaciana posterior, agora transformada em códigos de convívio e
em valores nobiliárquicos, em pequena ética, em etiqueta.
Não é à toa que Gracián tomará a fábula de Esopo como modelo
da discrição cortês: a raposa que observa uma estátua e, ao
remexê-la, percebe que ela está oca, lhe servirá de mote para
dizer, no Discreto, o
quanto é sagaz aquele que consegue ver as coisas por dentro e,
igualmente, o belo que, carecendo de interior, ainda conservar a
pele de sua aparência[iv].
Assim o indivíduo se anula e vive sua pequena morte silenciosa em
benefício da Coroa, espécie de corpo político fundado na religião,
ou da linhagem, ou seja, se resigna a se sacrificar a dimensões
que escapam do seu domínio restrito. O cortesão perfeito seria
aquele que consegue dominar a própria expressividade, controlar a
morte em vida, resumida aqui no domínio de si que ora tem seu
correspondente filosófico na ataraxia, ora nos sugere um
esvaziamento da individualidade e uma capacidade de saber que tudo
é transitório e, por isso, não devem nos interessar os valores
mundanos, mas a vida eterna: assim o cortesão vem pintado, de
forma emblemática, como uma caveira olhando-se ao espelho ou
trazendo em uma das mãos um pergaminho desenrolado. A inscrição
perfeita para essa alegoria seriam os versos do Eclesiastes:
vaidade de vaidade, tudo é vaidade. Há sabedoria em reconhecer
isso e, havendo-a, haverá também discrição, engenho e arte.
E
é de posse desse senso comum de que a vida terrena é transitória,
um estágio intermediário para a eternidade, onde a alma se
desprende do corpo e evola em uma outra dimensão, que Jorge
Manrique compõe uma das primeiras estrofes de suas Coplas:
Este
mundo es el camino
para el outro, qu’es morada
sin pesar;
Partimos
cuando nascemos,
andamos
mientras vivimos,
e llegamos
al tiempo que feneçemos[v];
Nela
diz-nos que o mundo é caminho e a vida após a morte é a morada,
para onde todos nos conduzimos. Rubem Amaral Jr., no belo estudo
introdutório que acompanha a sua tradução das Coplas, faz uma série de aproximações interessantes entre a peça
de Manrique e alguns poemas de Camões[vi].
Creio que essa estrofe guarda pontos de contato sutis com um dos
poemas máximos do poeta português, Sôbolos
Rios que Vão, onde a Babilônia é vista como signo do exílio,
enquanto a imaginada Sião seria a verdadeira pátria, celeste:
Mas
ó tu, terra de Glória,
se eu nunca vi tua essência,
como me lembras na ausência?
Não me lembras na memória,
senão na reminiscência.
Que a alma é tábua rasa,
que, com a escrita doutrina
celeste, tanto imagina,
que voa da própria casa
e sobe à pátria divina.
Não
é, logo, a saudade
das terras onde nasceu
a carne, mas é do Céu,
daquela santa cidade,
donde esta alma descendeu[vii].
Sabemos
que Camões tinha os poemas de Manrique em grande conta, e que
mesmo antes de sua morte seus versos circulavam fartamente em toda
a Península Ibérica, sendo as Coplas
peça que boa parte dos aristocratas sabia de cor. A primeira edição
da obra de Manrique de que se tem notícia é de 1535, do Cancionero de Baena. Geralmente os leitores desse corpus
não tinham muita noção da identidade dos autores ali contidos,
e o próprio Manrique só foi conhecer uma edição edótica e,
dentro do possível, definitiva de seus poemas no final do século
XIX. Ainda assim há peças apócrifas e duvidosas, como as duas
coplas que compõem o apêndice do poema homônimo, segundo a
tradição oral encontradas sobre a sua armadura pouco antes de
morrer. Há quem diga que Manrique estava convalescendo, e não
poderia ter composto esse adendo. Mas tudo isso ainda repousa
sobre névoas, e não pode ser afirmado categoricamente. Para nós,
no que diz respeito a esses acidentes textuais, restam apenas
sombras difíceis de serem esparzidas.
O
fato é que Camões, na verdade, neste trecho de Sôbolos
Rios que Vão, glosa a idéia que Platão desenvolve no Fédon,
segundo a qual temos em nós, de forma inata, todas as qualidades
e predicados das coisas existentes, pois a alma é eterna e o ato
de conhecer é
equivalente ao ato de reconhecer,
já que trazemos inscritas enquanto potência todas as coisas e
qualidades existentes no tecido compósito de nossa alma. Desse
passo de Platão vai surgir uma curiosa concepção da memória, e
também toda uma arte da memória, que encontra na ars
dictaminis de Brunetto Latini, mestre de Dante, e na ars
magna de Ramón Llull duas de suas melhores formalizações.
Muitas delas se apóiam na famosa distinção de Aristóteles
entre memória e reminiscência: a primeira seria um ato cognitivo
voluntário, a capacidade que temos de trazer de volta ao
pensamento os fatos vividos, e a segunda seria a capacidade de
reconhecermos em nossa experiência as marcas indeléveis de
outras vidas pela qual nossa alma passou e das quais manteve seus
registros[viii].
Nasce então, mais precisamente com os judeus alexandrinos,
sobretudo Fílon, e sua interpretação das obras de Platão, a
doutrina da falibilidade do corpo em oposição à imortalidade da
alma, propalada pelo cristianismo e disseminada por todas as
esferas do pensamento. Tanto o poema de Camões quanto o de
Manrique apontam para essa tensão existente entre o mortal e o
imortal, entre a pátria celeste, de onde descendemos, da qual
guardamos reminiscências pálidas e que é a morada à qual
retornaremos depois da morte, e a vida terrena e corruptível,
onde a alma (senhora) se vê cativa do corpo:
Si
fuesse en nuestro poder
hazer la cara hermosa
corporal,
como podemos hazer
el
alma tan glorïosa
angelical,
qué
diligencia tan viva
toviéramos toda hora,
e tan presta,
en componer la cativa,
dexándonos la señora
descompuesta.
Por
isso a morte, além de uma redenção, é um descanso:
Assí
que cuando morimos,
descansamos.
Diante
desse estado de coisas, como justificar a vida, se ela é um
percurso que só se completa e enfim só se dignifica com a morte?
Domando a morte, e submetendo-a a uma análise fria. Manrique, que
pertenceu à Ordem de Santiago, liga guerreira de inspiração
religiosa que batalhava contra os mouros, a exemplo de Don
Rodrigo, mais do que ninguém conviveu o tempo todo com a morte.
Essa familiaridade tornou possível a composição de um poema
onde ela é vista sob o mais tácito estoicismo, sem uma única
lamentação ou lágrima. Parece-me que não se trata de um caso
excepcional de Manrique, mas de um
ethos corrente da época, de um valor relativo à nobreza e ao
despojamento das contingências materiais.
É
sob essa ética fundada, entre outras coisas, em uma concepção
da morte, que podemos nos aproximar das letras do século XV, e em
especial das Coplas de
Jorge Manrique. De caráter elegíaco, mas pertencente a um gênero
híbrido que remonta a Juan de Mena, e composto em pés quebrados,
ou seja, sextilhas formadas de octossílabos interpolados a
tercetos, que proporcionam um intervalo rítmico muito
interessante, diferente do que se faz nos enjambements, as Coplas se
distinguem dos epicédios correntes por duas coisas fundamentais:
o que nesses é grandiloqüente e narra de maneira copiosa o feito
dos homens ilustres que sucumbiram, nas Coplas
Manrique nos apresenta a morte em meios tons, negando-se a
dramatizar seu assunto com uma excessiva catalogação de nomes e
vitórias:
Dexo
las invocaciones
de los famosos poetas
y oradores;
no curo de sus ficciones
que
traen yerbas secretas
sus sabores.
Manrique
entende que as citações são uma ficção literária que pode
embotar o tema tratado mais do que lhe dar vigor; por isso não
vai se estender nelas, e se aterá a falar dos seus antepassados
ou dos personagens da história mais recente, à exceção de duas
coplas onde relembra os grandes homens romanos e gregos:
En
ventura, Otavïano;
Julio César en vencer
e batallar;
en la virtud, Africano;
Aníbal en el saber
e trabajar;
en la bondad, un Trajano;
Marco
Aurelio en igualdad
del semblante;
Adriano en la elocuencia;
Teodosio en humanidad
e buen talante.
Comparando
a virtude de cada um às de Don Rodrigo. Isso talvez seja o que dê
a limpidez das Coplas, e
sua beleza intacta até os dias de hoje: ao despojar seu poema de
ornamentos aparentemente sem função está contrariando uma das
regras da elocução de seu tempo, que era a prática da semeadura
e da colheita, a distribuição de temas e conceitos e sua
posterior síntese final, mas, ao fazê-lo, está também
dotando-o de uma estranha modernidade, se a entendermos como uma
recusa das instituições retóricas e uma necessidade de submeter
a forma poética às exigências internas da sua invenção. Um
outro aspecto que distingue a sua peça das demais, além dessa
forma híbrida, é o tratamento que Manrique dá à morte,
tornando-a, mais do que uma matéria poética, uma vibração que
parece se urdir à própria estrutura do poema. É muito
interessante pensar que esse intervalo que existe entre um octossílabo
e um terceto é um tempo em branco, um suspense para a meditação
sobre a própria realidade do Tempo, que subjuga todos os seres e
não retrocede. A meditação que a idéia da morte nos exige já
estaria implícita na divisão estrófica, no ritmo e nos cortes
de versos do poema, o que cria essa relação indissociável entre
a sua fortuna retórica e a sua matesis.
Isso, mais do que
representar a morte, a presentifica
na linguagem, o que é, por si só, uma das excelências da grande
poesia.
E
qual seria a concepção de tempo de Jorge Manrique? Certamente
ela traz referências às noções do tempo cristão e à
escatologia. Mas de maneira muito particular. Santo Agostinho
define o tempo como um eterno presente, que seria o ponto de
contato real entre o passado e o futuro; diz-nos que o que passou
e não participa mais da nossa experiência imediata é impalpável,
alheio a nós, e o que ainda está por vir mas se mantém latente,
ainda não manifesto, é igualmente incognoscível e intocável, não
pode ser aferido pela razão humana pois participa tão só em
Deus[ix].
Manrique dá uma definição muito próxima desta nos belos
versos:
Pues
si vemos lo presente,
cómo en un punto s’es ido
e acabado,
si juzgamos sabiamente,
daremos lo non venido
por
passado.
Se
o presente é fluído e inapreensível a tal ponto que, mal o
vemos, ele já não existe mais, há uma equivalência perfeita
entre futuro e passado, já que ambos só existem virtualmente e
é deles que emana esse agora sobre o qual meditamos. É a partir
dessa visão equânime dos tempos, já que todos participam na
Identidade de Deus, que se formarão as chaves de leitura alegórica
e toda a tradição escatológica que, lendo tanto a história
laica quanto a sagrada a partir de uma chave profética, usará os
feitos do passado como evidências sensíveis da inteligência
divina que está anunciando o que acontecerá no futuro. Mas
Manrique não se guia por essa visão alegórica, mas por outra
muito mais cética:
cualquiere
tiempo pasado
fue mejor.
Não
quer dizer que houve tempos melhores, mas que todos são,
relativamente e em contraste com tempo presente, bons. Essa concepção
descendente dos tempos guarda um pessimismo muito grande. E é a
partir dessa metafísica dos tempos que Manrique vai compor a
estrutura de sua obra, que podemos dividir em três partes que se
seguem dedutivamente, ou seja, partem do mais abstrato e geral (o
tempo, o aspecto efêmero das coisas, a eternidade), indo para os
tempos históricos (os antepassados de Manrique e os personagens
da história recente) e culminando no tema central do poema: a
morte de Don Rodrigo Manrique, seu pai. Temos assim uma trindade
descendente que vai da mortalidade aos mortais e chega, enfim, ao
morto, seguindo aquele esquema proposto por Sérvio, primeiro
comentador de Virgílio: proponant,
invocant e narrant. O que poderíamos entender, retoricamente, como um exórdio,
onde se propõe o tema que vai ser desenvolvido, seguido de uma
invocação, onde se faz menção aos homens ilustres que, no
caso, sofreram os males da morte, até à narração, onde
Manrique define o caráter de seu pai e seus feitos[x].
Há
muitas outras divisões temáticas possíveis a partir de
conjuntos de estrofes. Serrano de Haro propõe uma divisão em
quatro estâncias: sermão moral, discurso histórico, epicédio e
auto da morte[xi].
Tesán desmembra as três partes em subtítulos, conforme o conteúdo
de cada conjunto de coplas. Não vou enveredar por essa análise
minuciosa, e me atenho à divisão ternária básica e a alguns
comentários sobre ela, já que a própria forma das Coplas
é de difícil definição. Tanto se discutiu o tema que ele já
se tornou polêmico. O arabista espanhol Juan Valera, para
explicar a sua originalidade de estilo, diz que Manrique a plagiou
(como se à sua época houvesse a idéia de propriedade
intelectual) de um poema de Abul Beka, poeta hispano-árabe
imediatamente anterior ao poeta militar[xii].
Provavelmente Manrique não sabia árabe, e isso não importa. O
que importa é que temos uma obra pronta, aberta às mais diversas
leituras, independente de sua árvore genealógica, no sentido
atual de uma possível crítica genética do texto que queira
chegar a uma conclusão definitiva sobre a intenção do autor ou
sobre a obra original, ambos, intenção e originalidade, velhos
mitos românticos que precisam ser derrubados. É boa a definição
de Pedro Salinas para o poema: uma constelação de temas. Assim
devemos nos aproximar das Coplas, sabendo a fragilidade de quaisquer tentativas de fechá-las
sob esquemas determinados.
É
a partir da segunda parte que Manrique começa a usar a tópica do
ubi sunt, onde estão?,
e a invocar os mortos numa série de interrogações de grande
beleza que parecem constituir o cerne da obra, começando pelos
infantes de Aragão, os trovadores, as damas e arrematando com a
sugestão de que todos eles talvez não sejam hoje mais que o
orvalho dos prados:
dónde
iremos a buscallos?;
qué fueron sino rocíos
de los prados?
Assim,
todos diante da morte inexorável se equivalem, ou têm um mesmo
fim:
Que
a papas y emperadores
e perlados,
assí los trata la muerte
como a los pobres pastores
de
ganados.
Mas,
podemos nos perguntar, como integrar essa visão homogênea e
natural dos entes diante da morte com a divisão hierárquica e
social dos indivíduos dentro das normas aristocráticas? Creio
que Manrique, com essa síntese, está naturalizando a condição
social dos membros de uma comunidade e assim reforçando o traço
de distinção social que os demarca; lemos por trás de seu
discurso, em um tom subliminar, a crença de que não adianta nos
iludirmos com a ascensão de classe ou nos rebelarmos contra nossa
condição: elas, diante desse imperativo que subjuga todos os
entes, se anulam reciprocamente; a ordem política está fundada
num pacto social que não quer permitir, e não permite,
mobilidade, já que tem como essência uma causa transcendente que
lhe enseja e justifica sua existência: a morte. Nesse sentido,
talvez possamos ver a morte, dentro da ética aristocrática, como
um fenômeno que está muito além da realidade biológica, e que
se por um lado diz que todos os indivíduos são iguais perante a
sua ação, por outro apaga a potência transformadora que por
ventura poderia haver neles, pois os ensina que o lugar que ocupam
no corpo do Estado é tão inexorável quanto a vinda daquela que
lhes tirará a vida. Esse pensamento, típico dos cortesãos,
parece sempre jogar com a ambigüidade que há entre as relações
de poder e a natureza: naturalizando-as, acabam tornando-as imutáveis,
já que, se são como são, só o são por um desígnio que
ultrapassa o raciocínio humano e que se chama Deus. Se Ele é o
autor de todas as coisas criadas, que padecem sob o império do
tempo, nos resta acatar essa realidade tendo em vista que quem a
quis assim o fez pelo bem. É interessante que esse tipo de lógica
vai se solidificar intensamente nos séculos XVI e XVII, com o
absolutismo monárquico, onde a Coroa assume o papel de um corpo místico
e político, o qual cabe ao monarca guiar, inspirado pela
divindade. Se Deus mantém a ordem, a morte serve para conter a
desordem; se o primeiro diz-nos que vivemos no melhor dos mundos
possíveis, a segunda ensina que, ainda que não o creiamos como
tal, será sempre inútil querer transformá-lo, pois o nosso fim,
de um modo ou de outro, será o mesmo. Somos diferentes, em termos
políticos, diante de Deus, e iguais, em termos naturais, diante
da morte, ou seja, diante daquela que torna nossos destinos homogêneos
e inócuos.
Dessa
filosofia política engenhosa participa Manrique, não como teórico
de Direito Canônico ou Natural, partidário ou não do pacto
social e do contrato entre os nobres, mas como poeta e guerreiro,
imbuído desses valores que não são de domínio exclusivamente
livresco, mas sim o supra-sumo, a forma mental de uma época que
permeia todas as práticas e se manifesta em todos os seus
registros. Aqui a ars
moriendi poderia ter uma outra acepção, e chamar-se ars
vivendi: a arte de morrer, de selar acordos e de participar do
conjunto dos valores de uma época, parece ser a base mesma da própria
sobrevivência das instituições e dos indivíduos, e, portanto,
inseparável de suas vidas. No século XVII, alguns teóricos do
direito irão comparar o Estado Absoluto ao corpo humano: ambos só
funcionam se cada parte estiver no seu lugar, e se o povo (os
membros) trabalharem em função do cérebro – o rei. Onde
colherão essa metáfora aguda? Em Santo Tomás de Aquino, e assim
poderão justificar teologicamente uma invenção política[xiii].
Essa estrutura nos deu uma das épocas áureas do espírito no que
se refere às artes, humanidades e ciências, e devemos compreendê-la
na sua nascente, não como leitores politicamente corretos que apõem
anacronicamente seus conceitos liberais a uma época em que o
liberalismo sequer era entrevisto. O germe dessa distinção de
classe está na obra de Jorge Manrique, na sua visão da morte, da
guerra, da virtude, da nobreza e afins. No século XVIII a
guilhotina pôs fim a esse sistema. Será que nossa visão de hoje
é muito mais positiva e solidária que a desses homens? É uma
questão que custa ser respondida com otimismo.
[i]
MONTAIGNE,
Michel de. Essais. Paris,
Garnier, s/d. Livro
I, Capítulo XX.
[ii]
VEYNE, Paul. A Elegia Erótica
Romana. São Paulo, Brasiliense, 1985. Pág.
9 a 28.
[iii]
FUMAROLI, Marc in BOÉCIO. Consolação
da Filosofia.
São Paulo, Martins Fontes, 1988, p. 7-37.
[iv]
GRACIÁN, Baltasar. El Discreto. Madrid, Alianza, 1997, p. 166-167.
[v]
MANRIQUE, Jorge. Poesía
Completa. Madrid, Melsa, 1999.
[vi]
AMARAL JR., Rubem. Jorge
Manrique: Poesia Doutrinal – As Coplas. São Paulo, Edição
do Autor, 1986. Introdução.
[vii]
CAMÕES. Lírica.
Belo Horizonte, Itatiaia, 1982.
[viii]
ARISTOTE. Petits Traités
d’Histoire Naturelle. Paris,
Belles Letres, 1965, p. 9 e seg.
[ix]
Confissões, Livros
XI e XII.
[x]
TESÁN, Jesús-Manuel Alda in MANRIQUE, Jorge. Poesías.
Madrid, Catedra, 1990, p. 49-70.
[xi]
HARO, Antonio Serrano de. Personalidad y Destino de Jorge Manrique. Madrid, Gredos, 1975, p.
366 e seg.
[xii]
TOMÉ, Eustáquio in MANRIQUE, Jorge. Poesía
Completa.
Madrid, Melsa, 1999, p. 9-16.
[xiii]
XAVIER, Ângela Batista e HESPANHA, Antonio Manuel “A
Representação da Sociedade e do Poder” in MATTOSO, José. História
de Portugal. Lisboa, Estampa, 1990, p. 121-155.
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