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José
Ángel Leyva: A
escrita faz tremer os poderosos
Carlos
Costa
Logo
após se diplomar em medicina, José Ángel Leyva, nascido em
Durango, seguiu para a capital mexicana para se especializar em
psiquiatria. Ali conciliava o trabalho num hospital psiquiátrico
com investidas no jornalismo de divulgação científica e
cultural. Mas logo a tradição literária herdada da família (os
pais eram professores) pesou mais e a medicina foi deixada de
lado. Fez mestrado em letras iberoamericanas, enquanto dirigia
revistas como Información Científica y Tecnológica (ICyT),
Nuestro Ambiente, Mundo. Com uma obra que acumula prêmios
e uma dezena de livros publicados (entre eles Botellas de sed,
Catulo en el Destierro, Entresueños,
El Espinazo del Diablo, todos de poesia, além do recente
La Noche del jabalí, de 2003, seu primeiro romance),
José Ángel Leyva dirige atualmente o setor de Vinculação
Cultural da Secretaria de Cultura da Cidade do México. Animador
cultural engajado, ele promoveu em outubro a Feira do Livro “A Cidade, um livro aberto”, na Plaza
de la Constitución, em que o Brasil foi convidado de
honra, com a presença de escritores e poetas. Nesta entrevista,
Ángel Leyva fala sobre a importância da leitura e da escrita:
“Mais que na leitura, o fio da navalha se encontra na escrita.
Ela faz tremer qualquer governo de essência autoritária porque
significa a autonomia para pensar”. [CC]
CC
- Que fatos e pessoas marcaram seu “fazer poético”, sua condição
de escritor e intelectual?
JAL
- Em primeiro lugar, o ambiente de magistério em que eu me
desenvolvi, pois meus pais eram professores. Depois, certa carga
que herdei deles, como um nacionalismo patriótico e a certeza de
que o lar, a pátria está onde se encontram os cheiros, os
aromas, a calidez dos sonhos, as mãos que acariciam ou que se
apertam para expressar solidariedade e confiança. Na infância,
morei com meus pais
em El Espinazo del Diablo, aos pés da Serra Madre Ocidental. Aí
conheci a sensação de liberdade, de vagabundear pelo campo. E a
geografia contrastante do deserto e da cordilheira, a Zona do Silêncio
ou a Serra Madre Ocidental, e a proximidade do mar, sempre
distante. Havia as leituras que meu pai semeou em minha infância
e os saraus e aparições públicas em que era obrigado a declamá-las,
por ser o filho do diretor da escola rural, onde passei a maior
parte de meus primeiros anos escolares. Ramón López Velarde com
sua Suave Patria e Soror Juana Inés de la Cruz com seu Hombres
necios que acusáis, os infalíveis Amado Nervo, Rubén Darío
e José Martí. Além de um reiterativo Declamador de América,
de Manuel Bernal, que minha mãe costumava colocar, se houvesse
qualquer provocação, no toca-discos.
CC
- A literatura lhe foi dada com a mamadeira, então.
JAL
- Depois, fui morar com minha avó na cidade de Durango, e o rigor
e a ternura eram o pão diário que alimentava minha educação e
definia os limites. Minha avó paterna teve uma presença
definitiva. Cinéfila incurável e sonhadora hermética, católica
coerente, mas não obstinada e flexível diante do pecado dos
outros. Pedro, meu irmão mais velho, que, na adolescência, me
aproximou dos escritores russos, Dostoievski, Tolstoi, Gorky,
Tchekov, e também dessas leituras púberes que nos aproximam das
noções de solidão, tédio, desespero e busca, localizadas em
Herman Hesse. Falo de minhas experiências quase fetais nesse
campo. Porém, no despertar dessa consciência literária e
intelectual está a literatura marxista, que eu abandonei na
segunda década de minha vida, assim como a militância política,
quando saí do Partido Comunista ao perceber que não se pode ser
livre assumindo uma obediência irracional, falsamente heróica e
na condição de servo. As leituras de Cartas a un joven poeta,
de Rainer Maria Rilke, tudo de Octavio Paz, Efraín Huerta,
Neruda, Huidobro, Vallejo, Miguel Hernández, deram sustentação
a minhas inquietudes poéticas nesse momento divisor de águas de
minhas adolescência e juventude, conjuntamente com outras
leituras fundamentais como A Divina Comédia, Psicanálise
dos Contos de Fada, de Bruno Betelheim, Erick Fromm, Herbert
Marcuse, José María Argüedas (em particular Los ríos profundos), García Márquez, José Revueltas, Serrat,
Alfredo Zitarroza, Allende, Violeta Parra e Bach. E, claro, não
ficarão de fora as conversas e riquíssimas reuniões na casa de
meu professor de psiquiatria, o doutor Miguel Vallebueno, de quem
conservo frases sentenciosas que foram reveladoras para mim em
momentos cruciais: “Um homem que decide já é outro homem”,
ou “quem emigra rompe o cordão umbilical e pode reconciliar-se
com sua origem”.
CC
- O senhor começou a publicar aos 30 anos. Teve alguma atuação
política enquanto concluía seu aprendizado? Poderia falar um
pouco de sua militância?
JAL
- Eu atendia sem discussão a frase que Salvador Allende disse um
ano antes de sua morte na Universidade de Guadalajara: “Ser
jovem e não ser revolucionário é uma contradição”. Fui
membro do Partido Comunista Mexicano (PCM) e era tachado de
excessivamente liberal. Nessa época fazíamos uma brincadeira
dizendo que o PCM recrutava membros com a promoção “Viaje
hoje, milite depois”, que parafraseava a propaganda das agências
de viagens, numa época de bonança petroleira no país: “Viaje
hoje, pague depois”. Naquele momento, propuseram que eu fosse
para a URSS, ao Komsomol, a escola de quadros jovens. Estudante de
medicina, tive de trancar matrícula para atender ao chamado do
partido. Foi uma experiência inesquecível, o encontro em Moscou
com garotos e garotas de toda a América Latina e da Europa.
Sonhadores e inofensivos até aquele momento, dogmáticos e
amorosos, mas, no final das contas, uns “culicagados”
[cagões], como diziam
os venezuelanos. Estava no partido havia três anos, era um
militante sincero que não deixava de reconhecer o autoritarismo
de nossos líderes. Sou um homem de idéias que podem ser chamadas
de esquerda e de sentimentos claros com relação à injustiça e
à discriminação, sou antinacionalista e profundamente mexicano,
crente da liberdade e da razão crítica. Sou um ativista da
poesia, mas não milito na revista Alforja nem em grupo
nenhum.
CC
- Seu ingresso no mundo literário foi, então, tardio.
JAL
- Sim,
se comparado com a compulsão precoce dos jovens hoje por serem
publicados onde houver lugar. Eu tinha outras ocupações e
prioridades existenciais: primeiro, definir qual era o rumo que
deveria dar a minha vida. Segundo, ler, ler muito e exercitar a
escrita até me sentir mais ou menos digno de ver meu nome no
mundo de Los muchos libros, ao qual faz referência Gabriel
Zaid [uma versão em português
desse ensaio – Demasiados
livros – pode ser
encontrada na página www.umacoisaeoutra.com.br/literatura/livro.htm].
Outro nome essencial nesta definição por ser escritor foi
Miguel Rubio Candela, que havia sido companheiro de escola de
Octavio Paz e amigo de Alfonso Reyes. Ele tinha quase 70 anos
quando o conheci em 1984, em meu primeiro trabalho fora da
medicina, na revista ICyT (Información Científica y
Tecnológica). Ali conviviam escritores já formados e
reconhecidos, como Juan Rulfo. Eu começava a escrever um poema
longo sobre a cidade, e minhas leituras estavam centradas na
figura do poeta romano Catulo. Quando já tinha umas quarenta
redondilhas desse trabalho, mostrei-o para Miguel Rubio e ele me
fez numerosas críticas e comentários sobre conteúdo e forma, e
disse: “Se você não for levar a sério a poesia, é melhor
voltar para a medicina”. Rasguei o manuscrito: compreendi o que
ele tentava me fazer entender. A poesia não é apenas razão e
palavra, é sentimento, é nudez, é compromisso, é a expressão
mais profunda do ser humano em sua forma e em sua profundidade.
Ali nasceu Catulo en el destierro, um dos conjuntos de
poemas – na verdade, um poema longo – de que mais gosto,
porque nesse trabalho eu nasci, depois de exorcizar o demônio de
Catulo e assumir meu parentesco com ele. Terminei a escrita de Catulo
en el destierro em 1989, mas sua gestação começara em 1985.
Depois, outros quatro anos para aparecer como livro. Miguel Rubio
fez uma de suas apresentações, e faleceu no ano seguinte.
CC
- Que escritores mexicanos mereceriam ser traduzidos hoje no
Brasil? Quem são os novos Octavio Paz ou Carlos Fuentes?
JAL
- Essa é uma pergunta para matar os vivos e desenterrar os
mortos? Felizmente se acabaram os Octavio Paz, os Tlatoanis
(figuras monolíticas do poder) que impedem o crescimento e a
aparição de outras manifestações intelectuais, de outros
caminhos para transitar pela arte e pela literatura, para gerar
correntes de pensamento. Há figuras tutelares, homens criativos,
brilhantes, eruditos, como José Emilio Pacheco, Carlos Fuentes,
Gabriel Zaid, Lorenzo Meyer, Carlos Monsiváis, Raquel Tibol, Rubén
Bonifaz Nuño, Juan Bañuelos, Dolores Castro, Hugo Gutiérrez
Vega, Francisco Cervantes, e poetas já não tão jovens como
Francisco Hernández, David Huerta, Marco Antonio Campos, José
Vicente Anaya, Elsa Cross, ou narradores como Juan Villoro, Jorge
Volpi, Enrique Serna. As listas são muito extensas e eu só
nomeei os primeiros que me vieram à cabeça.
CC
- E na América Latina, quem são hoje os García Márquez, os
Vargas Llosa e todos aqueles nomes dos anos 60 e 70?
JAL
- Há escritores de envergadura, hoje, mas a emergência de tantas
figuras que impressionaram o mundo e marcaram o cenário
latino-americano não se vislumbra agora com a mesma clareza. Eles
foram resultado de muitas circunstâncias culturais. Em primeiro
lugar, herdaram o impulso das vanguardas, seu espírito de busca e
de novidade, de experimentação, a necessidade expressiva do
continente, em meio a ditaduras militares, guerrilhas, confusões
de identidade, desejos de justiça e liberdade. Um compromisso
quase místico com a palavra escrita, um cultivo em que a palavra
“êxito” não se ligava necessariamente ao mercado ou à mídia.
Mas sim à dinâmica crítica, com o prestígio de uma literatura
inteligente, profunda, propositiva, inesquecível e não
necessariamente com o best seller e o passatempo. Mesmo
assim, é alentador encontrar penas ativas no Brasil, como a de
Rubem Fonseca, Ferreira Gullar, Marçal Aquino, Moacyr Sclyar,
Arnaldo Antunes, Ivan Junqueira, Régis Bonvicino, Floriano
Martins, Lêdo Ivo, por citar algumas. Em países como a Colômbia,
consta-me, há uma efervescência literária, e Cuba continua
gerando muitos escritores que arrasam nos prêmios. No Chile, na
Argentina e no Peru há uma tradição criativa que não cessa,
porque há bases muito sólidas para as gerações atuais e para
as que virão.
CC
- O Brasil parece, muitas vezes, um país invisível para a América
hispânica. O senhor acredita que isso se deva à diferença do
idioma ou a um mútuo desconhecimento?
JAL
- Depende dos setores da sociedade. Há uma imagem turística que
é bastante conhecida na América, sobretudo a do Rio de Janeiro.
Algo semelhante acontece com México, Peru ou Colômbia,
conhecidos no exterior somente por certas características, muitas
vezes negativas ou superficiais, mas a profundidade de suas
culturas é ignorada. O México é conhecido popularmente pelas
telenovelas, que mostram uma realidade alheia ao país, ou ainda
pelo cinema dos anos 40. No entanto, essas visões midiáticas vão
criando raízes e movem nossas condutas. Eu diria que o Brasil está
perto de nós, o idioma não separa as mútuas empatias e os
assombros por sua música, sua literatura, sua arquitetura, sua
riqueza popular. Cuba está mais próxima que muitos estados da
República Mexicana entre si, mas às vezes podemos senti-la
distante, por motivos políticos, não pela população, mas sim
pelos governos. Um cubano do socialismo costuma adaptar-se com
maior facilidade nos Estados Unidos do que no México e talvez
seja mais fácil, para um brasileiro, sentir-se em casa no México.
CC
- E na área acadêmica?
JAL
- Nos âmbitos universitários e intelectuais, o Brasil é um
referencial de primeira linha. O cinema, a música e algumas
telenovelas foram bons embaixadores nesse sentido, mas a
literatura e o pensamento também cumpriram seu papel para
estabelecer os vínculos. São comuns os nomes de Jorge Amado,
Chico Buarque, Clarice Lispector, João Guimarães Rosa, Vinicius
de Moraes, Mario de Andrade, Euclides da Cunha, Paulo Freire, Nélida
Piñón, Luis Carlos Prestes. Há grande admiração pela
arquitetura e pelas artes plásticas abstratas do Brasil. Mas também
é verdade que sabemos pouco de um país que os brasileiros
definem como “quase um continente”. A pergunta poderia ser
feita ao contrário: quanto os brasileiros sabem do México, onde,
aparentemente, se fala um mesmo idioma? Aqui se falam mais de cem
línguas indígenas. E mais: quanto nós, mexicanos e brasileiros,
ignoramos nossos respectivos países? Pelo que consegui descobrir
de maneira muito superficial sobre o Brasil, existem muitos
“Brasis”; no México, mesmo sem essas dimensões continentais,
também há vários “Méxicos”.
CC
- O senhor escreveu um bonito ensaio, Leer para qué. Faz
pensar no déficit de leitura que há no Brasil, um país que
ainda não formou um público leitor e vive às voltas com o sério
problema dos “analfabetos funcionais”. Como o senhor pensa sua
atuação, como intelectual e como gestor cultural, nesse marco?
JAL
- É uma pergunta provocativa num momento em que o mundo se volta
a outro tipo de leitura, à aprendizagem de outros alfabetos, de
outras linguagens. Os níveis de compreensão da escrita são mais
complexos que a informação mastigada que oferecem os meios de
comunicação de massa. No processo político que se vive no México
hoje em dia, são os meios eletrônicos, especialmente a televisão
e o rádio, um pouco a internet, os que decidem o destino já não
apenas de uma pessoa, mas de uma nação. Isso os políticos sabem
muito bem, que, diferentemente de seus antecessores, já não se
interessam pela opinião dos intelectuais. Ainda assim, o governo,
ou os governos mexicanos de diversa índole ideológica, cumpre
seu papel de Ogro Filantrópico e mantém os sistemas de bolsas
para pesquisadores e criadores. Para mim, uma resposta se encontra
nas leis do mercado e sua utilização do tempo. Uma pessoa
procura, para complementar seu salário, além de seu emprego de
base, o desempenho de outras ocupações ou ofícios. Não há
margem para o lazer ou a diversão, para a leitura. Refiro-me não
apenas aos operários, mas também e sobretudo à classe média.
Isso reduz as possibilidades de ler livros, revistas, jornais, de
aprofundar o conhecimento. É mais fácil ligar a televisão antes
de dormir, ou escutar o rádio no carro durante os longos trajetos
para chegar a nossos destinos nestas megaurbes do que dedicar pelo
menos uma hora para folhear os jornais, ou horas para os livros. O
pior é que não há tempo nem condições para a conversa, que,
para mim, é a ante-sala da leitura.
CC
- É a ditadura do tempo e sua escassez.
JAL
- E a esses dois assuntos fundamentais, a ditadura dos meios e a
falta de tempo, há que se acrescentar um terceiro, a resistência
e os preconceitos contra os meios eletrônicos de comunicação
por parte dos intelectuais e pedagogos. Para muitos deles, a
leitura dos signos escritos é incompatível com a internet e com
a televisão. Não se consegue compreender que a leitura responde
a uma vocação democrática, a um ato de liberdade, de escolha
pessoal, de livre arbítrio. A leitura imposta é
contraproducente, pois carrega um gesto de autoritarismo e de negação
da individualidade. Os livros como fenômeno de “massas” têm
500 anos, se pensamos na contribuição de Gutenberg, enquanto que
o cinema, o rádio e a TV não têm, juntos, a metade dessa experiência.
A internet está ainda no berço. Eu não percebo tais
incompatibilidades, pelo contrário, encontro complementaridade em
sua existência. Por que não aproveitar os meios de massa para
promover a leitura? A internet é uma grande ferramenta de
comunicação e o computador, um instrumento facilitador da memória,
da inteligência, da informação. Um livro pode ser tão nocivo,
ou mais, que um programa de TV, depende de seus conteúdos.
Insisto na capacidade de escolha e decisão dos indivíduos.
Aprendamos a decidir, a participar nas decisões. Ninguém lerá
por decreto se carece de tempo, mas se possui as condições
adequadas e encontra as circunstâncias propícias para abrir um
livro e nele mergulhar, se se envolve em suas páginas, em suas
letras, sem dúvida o fará. Um leitor é para sempre. A qualidade
do que ele leia será de sua própria responsabilidade. Por último,
diria que os governos de países subdesenvolvidos mantêm
campanhas de leitura de fundo demagógico, pois não desejam povos
cidadãos, sociedades críticas, escriturais. Mais que na leitura,
o fio da navalha se encontra na escrita. Isso faz tremer qualquer
governo de essência autoritária porque significa a autonomia
para pensar. Foram sociedades leitoras que puseram abaixo o muro
do socialismo real ou foi a paranóia norte-americana?
CC
- Como está o México no contexto de público leitor?
JAL
- Temos um grave problema de analfabetismo real e funcional, sem
nos compararmos com ninguém. Sou otimista nesse sentido e reconheço
os grandes esforços para acabar com essa defasagem. É paradoxal
que o México ocupe, segundo declarações do presidente Vicente
Fox, o lugar de nona potência econômica no mundo e possua um dos
índices mais altos de pobreza extrema na América Latina. Isso
ocorre por causa da abismal distribuição da riqueza. O país,
contudo, segue em frente depois da queda do PRI (Partido Revolucionario Institucional), que governou durante mais
de 70 anos. Os movimentos indigenistas que tiveram início em 1994
inauguraram uma consciência política do que somos e do que
devemos ser para construir uma nação de inclusão, moderna e, ao
mesmo tempo, orgulhosa de seu passado, de sua enorme bagagem
cultural. Estou convencido de que o México será muito brevemente
um país de leitores, mas sobretudo deverá ser de escritores, de
gente com capacidade para expressar suas idéias por meio da
linguagem escrita.
CC
- O senhor acaba de promover uma feira do livro que teve grande
repercussão. Como foi?
JAL
- Sim, a Quarta Feira do
Livro “A Cidade, um livro aberto”, na Plaza de la Constitución (ou Zócalo), na Cidade do México. O Brasil foi convidado de honra,
com a presença de Fortaleza e de escritores não apenas do Ceará,
mas também de outras regiões do país. Estima-se que mais de 800
mil pessoas compareceram ao evento, sobretudo os setores mais
pobres da cidade, atraídos pelas ofertas editoriais de mais de
350 editoras e pela presença de 224 escritores. Do Brasil vieram
29 artistas e intelectuais e de outros países latino-americanos,
24 autores. Trata-se de um programa gratuito com mais de 550
atividades culturais durante dez dias; literatura, divulgação da
ciência, oficinas para crianças e adultos, música, teatro, dança,
leituras dramáticas. Porém, esta atividade magna, organizada
pela Secretaria de Cultura da Cidade do México através da direção
de Vinculação Cultural, encabeçada por mim, não é vista como
um projeto de fomento da leitura, mas como um festival em que
desembocam todos os esforços dos programas permanentes que
trabalham com esse propósito ao longo do ano. No entanto, feiras
do livro e encontros literários existem em todo o país, alguns
importantes no nível internacional como a Feira de Guadalajara, a
de Monterrey, a de Minería (na Cidade do México). É necessário
passar do pleito partidista às ações comuns, sem etiquetas,
para sermos mais efetivos.
CC
- Como ficou a situação do México com o mercado comum da América
do Norte, o Nafta?
JAL
- Devido à complexidade da pergunta e dado que esta não é minha
especialidade, atrevo-me a externar uma opinião muito pessoal.
Estamos condenados a comercializar com os Estados Unidos, já
negociamos muito mal a metade de nosso território, agora devemos
aprender a tirar proveito dessa nossa vizinhança com a maior potência
do mundo, e, como se não bastasse, também a mais agressiva. Não
são ruins os tratados de comércio entre os países. O que é
ruim é a desigualdade de condições. Algo que não acontece na
Europa. Hoje vemos uma Espanha moderna – e há 20 anos era
essencialmente rural, muito parecida com nossos países
latino-americanos –, com um poder aquisitivo que a coloca entre
as maiores do planeta. As razões: uma transição democrática,
um pacto nacional, uma boa política comercial, uma integração
continental, uma sociedade empreendedora e, talvez, uma história
sangrenta que obriga a construir e a comercializar. Por que não
comercializamos entre iguais com a mesma intensidade, ou seja,
desde o rio Bravo até a Patagônia? Essa é minha interrogante
derivada de sua questão.
CC
- Em outro de seus ensaios, o senhor fala do papel do intelectual,
contrapondo Tabucchi a Eco, com a questão de chamar os bombeiros.
Diante dos processos de uma globalização que parece apenas
atender ao bem-estar dos “donos do poder”, qual é o papel do
intelectual? Chamar os bombeiros?
JAL
- Em primeira instância, perguntar; depois, voltar a perguntar;
e, por últimos, não permitir que as dúvidas se esgotem. Os
bombeiros virão se os cidadãos os chamarem ou se houver sistemas
de detecção de incêndios que ativem os alarmes. O papel do
intelectual é incômodo porque talvez não resolva nada sem
trazer, ao mesmo tempo, um questionamento, sem pôr em crise a
permanência das coisas, das idéias, dos paradigmas.
CC
- Como o senhor traduz tudo isso em sua atividade concreta como
gestor cultural na Cidade do México?
JAL
- Estou apenas começando, é a primeira vez que participo da
administração pública e isso me entusiasma. Porém, esta posição
não é necessária para ser gestor. Sempre atuei, mesmo fora do
governo, com iniciativas pessoais ou coletivas, como é o caso da
revista de poesia Alforja, que atualmente co-dirijo com o
poeta José Vicente Anaya – e que já possui mais de 30 números,
sobrevivendo trimestralmente desde 1997. Gosto de imaginar
projetos e vê-los realizados. Gosto de conceber mundos possíveis
que só têm lugar na literatura, na poesia ou na narrativa. Também
os penso com muita responsabilidade no real, em meu contexto.
Falta-nos mais sentido comunitário, mais solidariedade,
generosidade, mais noção do outro para ser tolerantes, abertos,
inclusivos.
CC
- Que palavras o senhor deixaria para os leitores da revista,
especialmente os juízes do Estado de São Paulo?
JAL
- Que assumam seu papel de intelectuais e se perguntem se é justo
aplicar um sistema de justiça injusto ou se há uma aplicação
justa de um sistema legal incompreendido, ou seja, que se atrevam
a perguntar, a questionar seu ofício, sua funcionalidade, seu
sentido, sua pertinência. Julgar um sistema de justiça é como o
princípio que obriga um psicanalista a revisar-se constantemente
diante de outro psicoterapeuta para poder exercer de maneira sã
sua profissão. Ponhamos, pois, no divã, os sistemas de justiça
e os juízes. |