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1975
- Conversa com Borges
Susana
Chica Salas
Chego
a meu destino: o sexto andar de um moderno edifício da Praça San
Martín, em Buenos Aires. Um simples letreiro de bronze na porta
diz, em letras negras, BORGES. Sinto-me inquieta e curiosa: há
dois anos que não vejo Borges. Abre a governanta, Fanny, que está
já há muitos anos com a família. São seis da tarde, uma fria
tarde de julho, típica do inverno bonaerense. A sala está
totalmente escura. A princípio imagino que ali não há ninguém.
Depois Fanny acende as luzes, e Borges reconhece minha voz. (Quase
me esquecia que sua cegueira é agora quase total.) Saúda-me
afetuosamente, recitando um velho poema de boas vindas, com seu
tom especial, quase hipnótico, quase ritual. Conversamos e rimos
recordando seus seminários acerca de Beowulf, já há muitos
anos. Fisicamente segue tão atrativo como sempre. Seus grandes
olhos são de um verde muito claro, como os de sua mãe. Passeia
pela sala com facilidade: cada objeto, cada móvel, lhe é
familiar, sabe evitar cadeiras e mesas; ninguém diria, ao vê-lo,
que está cego. Sentamos os dois no sofá de veludo escuro e começamos
a conversar: quando se dá conta que estou gravando a entrevista
interrompe e me pede que tornemos a começar, desde o princípio.
E repito a primeira pergunta: desta vez sua resposta é precisa,
equilibrada, bem composta, como quando costumava ditar-me, isto há
muitos anos, seus famosos contos. Fala com rapidez - ao contrário
de seu ritmo nas conferências públicas -, e suas mãos, sempre
expressivas, esvoaçam pelo ar cada vez que quer sublinhar uma idéia.
Mas o resto de seu corpo permanece imóvel: com a bengala entre as
pernas, me olha fixamente, sem ver-me, e fala. Seu aspecto é saudável:
nada em sua expressão revela uma nota trágica ou patética. Com
pessoas que conhece bem, sente-se à vontade, compraz-se em contar
piadas e fazer jogos de palavras. Lhe encantam as piadas políticas:
ri sonoramente, com deleite, após cada piada ou após uma observação
engenhosa. Mas se a pessoa que o entrevista - como ocorre com freqüência
- lhe é desconhecida, mantém-se tenso, quase incomodado, como se
seu público fosse uma multidão exigente. Comigo sente-se à
vontade e permite comentários difíceis de se publicar, já que
envolvem outras pessoas que ainda vivem, ou julgam com grande
dureza o que estas pessoas escreveram. O essencial é que segue
sendo tão engenhoso e tão irônico como no passado: é um dos
conversadores mais simpáticos e divertidos que conheço. Poucos
podem transmitir a seu interlocutor uma sensação tão clara de
inteligência alerta e profunda, um pensamento generoso, e uma
seleção cuidadosa de palavras, feita sempre com originalidade.
Sua forma de expressar e organizar a vastíssima cultura que
possui é tão discreta que não nos damos conta que essa cultura
está ali, nele, animando e dirigindo seu pensamento. Sua
excelente memória lhe permite citar as fontes mais diversas para
ilustrar uma idéia, um comentário. Borges e eu seguimos falando:
SCS
- Borges,
você pensa mais freqüentemente no passado do que no futuro?
JLB
- Sim, penso no passado porque o passado é real, está cheio de
pessoas interessantes; por exemplo, Stevenson, por exemplo Platão,
por exemplo Swedenborg, por exemplo Berkeley.
SCS
- Mas
talvez o futuro também esteja povoado de gente interessante…
JLB
- Sim, já sei, mas como não os conheço, como não me foram
apresentados.
SCS
- Sim,
é certo.
JLB
- A única coisa que sei do futuro é que não se parecerá com o
presente. Além do mais, que falar do futuro é simplificar muito
as coisas. Haverá muitos futuros que não se parecerão entre si,
de igual modo, digamos, que o século XVIII não se pareceu ao século
XVII. Não posso me interessar por algo tão abstrato como isto.
Sou uma pessoa quase incapaz de pensamento abstrato.
SCS
- Caramba,
mas isso que você me diz é extraordinário…
JLB
- Não, não, em absoluto. Você vê que mesmo que me interesse
muito a filosofia e a metafísica, afinal, isso é uma série de
perplexidades organizadas ou, se não, formas de literatura fantástica,
como no caso da teologia. Em todo caso, o passado me parece mais
real. Desde já, o futuro depende do presente, em função do
futuro. Por exemplo: há um livro - que não admiro demasiado -, Brave
new world, que não se parece em nada ao que pode ser o
porvir, é simplesmente um presente exacerbado; além do mais, não
está feito - à maneira de Wells - como se fosse uma profecia e
sim uma sátira do futuro.
SCS
- Então, você acredita que
esse mundo de nosso futuro será parecido com o mundo de Brave
new world?
JLB
- Claro que não, porque o mundo de Brave
new world se parece demasiado com o mundo do século XX. Por
exemplo, as pessoas, hoje em dia, estão muito interessadas em party
politics; no futuro talvez deixem de estar interessadas nisto.
Vivi cinco anos na Suíça. Quando chegamos, perguntei quem era o
presidente, as pessoas me olharam estranhadas porque ninguém
sabia quem era…
SCS
- Mas
isso é incrível.
JLB
- Não, porque na Suíça os políticos não são pessoas públicas.
São funcionários que exercem suas funções, mas ninguém se
ocupa especialmente deles. Lembro-me que na mobilização do ano
de 1914 foram reunidos duzentos mil homens, mas só havia três
coronéis no exército, e um deles aceitou ser general com uma
condição: que não lhe aumentassem o salário. E em Genebra, que
era uma cidade de, digamos, cento e sessenta mil habitantes, havia
um comissário e dois vigilantes. Então, no mundo que se dará
eventualmente, as pessoas deixarão de estar interessadas em tudo
isto. Estarão interessadas em outras coisas: na filosofia, na ciência,
e - por que não? - também no xadrez. Quero dizer - e isto talvez
seja inevitável - que tendemos a considerar o futuro do ponto de
vista do presente. Por exemplo, vamos supor uma pessoa durante a
época do protestantismo: haveria pensado que no século XX o que
interessaria às pessoas seria o fato de alguém ser discípulo,
bem, discípulo de Calvino ou de Wycliffe, ou de Lutero ou
simplesmente católico. E agora isto, como você sabe, não
interessa a ninguém. Suponho que com o porvir, ou com os
porvires, porque essa palavra de porvir me parece, bem, too
sweeping a statement… o futuro terá seus próprios
problemas. Agora nos interessa a tarefa de levar homens à lua.
Mas chegará, indefectivelmente, esse momento, e Spengler já o
disse, em que ao homem interessarão coisas que não podemos
imaginar agora, da mesma maneira que Platão não pôde imaginar o
que seria o mundo atual.
SCS
- Não
lhe interessaria então, em absoluto, viver no mundo do século
XXX?
JLB
- Não, porque não entenderia nada. As pessoas estariam
interessadas em temas que não poderiam me interessar. Desde já,
creio que os problemas da filosofia são insolúveis, porque sou
agnóstico.
SCS
- Você
é agnóstico?
JLB
- Sim, claro. Creio que esses problemas mostrar-se-ão de modo
distinto dentro de mil anos, que eu não poderei compreender, de
igual maneira que não sei até que ponto Platão teria podido
seguir os argumentos de Berkeley, ou Berkeley entender os de
Bergson ou, em geral, o mundo de Henry James.
SCS
- Borges,
você diz em um de seus contos: “como a todos os homens,
tocaram-lhe tempos difíceis de viver”.
JLB
- Sim, isso é verdade…
SCS
- Lembra-se
disso? Segue pensando que todos os tempos serão difíceis, todos
os tempos do futuro?
JLB
- Sim, para eles sim, definitivamente. Mas tudo isto já discutiu
Schopenhauer, que disse que o presente é sempre difícil, porque
o vivemos como um conflito. Ao contrário, o passado é que algo
que vemos como uma lâmina ou como um quadro, ou seja, do passado
está ausente a vontade. Podemos ver o passado com gosto. Até
podemos pensar romanticamente em épocas atrozes, como a época da
ditadura de Rosas aqui, como em algo pitoresco. Talvez nossa época
seja vista como pitoresca no porvir. Mas nós, que temos que vivê-la,
não a sentimos como pitoresca, sentimo-la como algo atroz. Um
caso bastante recente: os contemporâneos de Napoleão viveram sob
um sistema policial, mas logo veio Victor Hugo, logo vieram os românticos,
e tudo isso se torna uma época esplêndida. Certamente não uma
época para padecer.
SCS
- Você
acredita que os seres humanos não mudam? Que não terão
aprendido a ser menos agressivos ou menos violentos?
JLB
- Não, mas terão outros problemas. Por exemplo, é provável que
desapareçam as guerras. Talvez cheguemos a considerar um governo
central, ou uma situação onde não se necessite governo.
SCS
- Mas
não existe nações onde não se necessite governo…
JLB
- Mas há países, como os países escandinavos, onde não há
criminalidade. Tampouco na Islândia. Você me dirá que há
outras coisas, como por exemplo o alcoolismo…
SCS
- E
também um índice altíssimo de suicídios…
JLB
- Ah, mas essas são pessoas que demonstram bom sentido. Não
esperam que lhes aconteça nada.
SCS
- Sim,
talvez seja um sintoma de inteligência.
JLB
- Claro, eu creio que sim. Isso de suicidar-se é o mais sensato e
o mais sossegado que se pode fazer. Uma prova de serenidade. E
falando de suicídio, creio haver lido em Schopenhauer, que cita
em Paralipómena, em seu
artigo “Uber der Selbsmord”, que havia uma cidade na Grécia
onde as pessoas que acreditavam ter motivos para suicidar-se
podiam expor seu caso diante de um tribunal. Digamos, pessoas com
uma enfermidade incurável ou o que fosse. E se o tribunal julgava
que estava bem, que tinha razão, entregava-lhe a cicuta. E isto não
era mal visto. Porque, em geral, o suicídio tem sido muito mal
visto, digamos, pelo Cristianismo. E é extraordinário, porque o
Cristianismo, que conta afinal com um deus suicida - porque
entende-se que Cristo suicidou-se -, faz, no entanto, com que se
venere a cruz, que é o instrumento do suicídio de Jesus.
SCS
- Bem,
talvez como em seu conto “Utopia para um homem que está
cansado” possa existir o suicídio como uma saída opcional.
JLB
- Sim, exatamente. Ali, quando ele sente que esgotaram-se suas
possibilidades, quando está cansado, suicida-se. Além do mais, e
isto me parece uma idéia muito boa, in
order not to encumber the future,
faz com que toda sua obra seja destruída com ele. Fui amigo de
muitos suicidas, fui amigo distante de Lugones… distante, digo,
porque Lugones era um homem soberbo, solitário… mas não penso
neles como pessoas culpáveis. O caso de Lugones é interessante.
Ele se orgulhava de ser o marido mais fiel de Buenos Aires, e era,
além do mais, um puritano. Inclusive parece que chegou virgem ao
matrimônio. Logo, quando apaixonou-se de uma mulher e esta o
abandonou, suicidou-se… Mas deveria ter sabido que essas coisas
passam com o tempo e que, sem dúvida, ele também havia deixado
muitas mulheres. Mas claro, seu problema, creio, é que se sentia
admirado mas não querido. E ser querido é muito importante. Ser
admirado e não ser querido é muito triste.
SCS
- Então,
Borges, não lhe interessa ser célebre?
JLB
- Não, claro que não, vejo-o mais como uma forma de
incomodidade. Sempre me surpreendeu o interesse das pessoas pela
fama. Agora foi inventada uma palavra que me parece quase infame:
promover. Uma escritora amiga me disse: vou a tal congresso, são
todos uma série de canalhas ou de imbecis, mas necessito disso
para minha promoção. Para que seguir dialogando com gente assim?
SCS
- Bem,
é verdade, são as sociedades do auto-elogio mútuo. Mas há uma
pergunta que gostaria muito de lhe fazer sobre o futuro. Acredita
que se seguirá falando de amor, falando de amizade?
JLB
- Mas, desde já, como não se vai falar disso?
SCS
- Não
sei, porque há pessoas que opinam que poderá haver um controle
biológico, um controle administrativo, por exemplo…
JLB
- Ah, mas são pessoas muito pessimistas. Além do mais seria
muito raro um homem que não necessitasse de amor ou não
necessitasse de amizade. Seria um ser raríssimo. E se é assim,
para que conhecê-lo, que nos importa o que aconteça?
SCS
- Há
pessoas que falam de uma sociedade de robôs, totalmente
mecanizada.
JLB
- Sim, mas é porque a idéia da máquina é uma idéia atual.
Quem sabe não venha a interessar no porvir. Frankenstein é também
uma idéia atual, igual ao robô. A menos que sejam utilizados
para certas tarefas, isso poderia ser…
SCS
- Você
acredita que se poderia limitar a educação a umas tantas pessoas
capazes de programar máquinas cibernéticas?
JLB
- Mas é um absurdo pensar que as máquinas vão resolver as
coisas. Veja você, quando começou o cinema lembro-me que se
disse que ia ser a morte dos atores. Mas não vemos pessoas que
aplaudam um fonógrafo ou uma máquina fotográfica: aplaudem,
isto sim, um ator. Não se diz: tal coisa é certa, segundo disse
a rádio. É como se você me dissesse: tal coisa é certa,
segundo disse o telefone. É absurdo.
SCS
- Você
acredita que não será um crime ser individual? A famosa
massificação da qual se fala não existirá no futuro?
JLB
- Creio que quando eu estava em um congresso em Washington alguém
me disse: o que opina você sobre a massa? E eu lhe respondi: não
entendo de conceitos abstratos, pergunte-me sobre algum indivíduo,
porque a massa não existe, e além do mais as pessoas não gostam
de se sentir massa.
SCS
- Então
haverá literatura…
JLB
- Mas claro, e música e pintura. A literatura é uma das
necessidades do homem. A arte, a pintura, sem dúvida, serão
muito mais complexas que agora. Com todo respeito por Homero,
creio que um conto de Henry James é muito mais complexo, embora não
superior. As artes, para desenvolverem-se, estarão muito além do
que possamos entender. Serão uma coisa distinta. É o que sucederá
com as pessoas. Se mantida a cronologia atual, não creio que o século,
digamos XXIV se entenda muito bem com o século XXIII. Tampouco
imagino um poeta anglo-saxão ou um escritor escandinavo do século
XXXIII, enfim, não creio que poderia entender Flaubert,
Meredith
ou Proust.
SCS
- Há
pessoas que pensam que os escritores serão proibidos de escrever.
JLB
- Não creio. Isso só poderia acontecer em países muito
atrasados, como a Rússia.
SCS
- Isto
é relativo, porque na Hungria tem havido um verdadeiro
renascimento do teatro, por exemplo, e o governo não lhes
perturba em absoluto.
JLB
- Caramba, parece-me uma excelente notícia. Eu acreditei que ali
estaria tudo massificado, como disse você.
SCS
- Borges, quero fazer-lhe
uma das últimas perguntas: você acredita que seremos todos de
uma só raça, through miscegenation,
ou seremos dominados por uma raça em particular, na raiz do
extermínio e da conquista das demais? Há possibilidades de que,
por exemplo, os chineses dominem o mundo?
JLB
- Bem, é que talvez os chineses são a civilização mais antiga.
Prescindindo da política atual, que não conheço, e a julgar por
Confúcio, são pessoas essencialmente razoáveis. Por exemplo, se
comparamos os Analectos de Confúcio com os Evangelhos, estes
parecem superior, não pelo que dizem, mas sim porque são mais
patéticos. Mas, quanto às idéias, não nos damos conta de que
muito razoáveis.
SCS
- Existiria,
talvez, a possibilidade de que todas as raças coexistissem sem
problemas e sem temores?
JLB
- Sim, creio que sim. Xul Solar sempre dizia que a Argentina
necessitava ser um país mais cosmopolita. Porque aqui, dizia, o
que há: gringos e galegos. Têm que vir malaios, chineses, árabes,
judeus.
SCS
- Há
muitos judeus em Buenos Aires. Meio milhão, pelo menos.
JLB
- É certo. E é um povo a quem devemos a Bíblia e o ser quem
somos, porque afinal de contas o que é a cultura ocidental, senão
uma espécie de conciliação da Grécia com Israel? Ou de Israel
com Roma, que é uma sucursal da Grécia. Na
realidade, you can think the
English away, or even the French away, but you can’t think the
Jews away.
O único argumento
que haveria contra os judeus é o anti-semitismo. Por exemplo, não
sei se há judeus na Groenlândia, mas se há, também haverá
anti-semitas. O fato de que um povo não seja querido, de algum
modo é um argumento contra ele.
SCS
- Mas
você tem sido sempre pro-semita…
JLB
- Sim, é verdade, sou pro-semita, e creio que parcialmente
semita, mesmo que não tenha uma segurança absoluta…
SCS
- Por
que acredita ser parcialmente semita?
JLB
- Porque meu sobrenome é Acevedo e é, desde já, um sobrenome
português que foi usado por muitos judeus. Há um conto, em que
um judeu askenazy se faz
passar por sefardita, para dar-se corte, e utiliza depois o
sobrenome Souza-Acevedo. É, sem dúvida, dos países civilizados
mais antigos do mundo.
SCS
- Borges,
uma última pergunta: acredita que no mundo futuro existirão
ainda os sexos?
JLB
- Bem, let’s hope so, eh?
Let’s hope so.
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