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1975
- Uma glória cansada de viver
Malu
Sierra
Talvez
ganhe finalmente o escorregadio Prêmio Nobel que, segundo alguns,
deveria ter recebido, na América Latina, antes que Neruda e
Asturias.
Mas nem essa honra máxima nem as muitas honras que tem
colecionado em seus 76 anos são capazes de vencer seu profundo
desalento. Triste, cansado e sem fé, diz que escreve porque não
sabe fazer outra coisa e para não morrer de tédio. Mas se
tivesse que tornar a viver, não o faria.
O
encontrei em seu apartamento de Viamonte com Reconquista, um prédio
antigo, escuro e pouco acolhedor, com cheiro de incenso. O lugar
de um homem cego e só, que parece estar apenas contando o tempo
para morrer. Em uma fria tarde do inverno portenho falamos sobre a
vida e a literatura. E mesmo que ele tenha feito todo o possível
para ficar na pura literatura - tal como o fez durante toda a vida
-, chegamos finalmente a conversar sobre a vida. Do amor
negligenciado pelos livros, de Deus, no que não crê, e dessa
terrível solidão que o faz sentir-se cansado de viver.
É
algo incrível estar falando nada menos do que com Borges, um dos
homens mais admirados da literatura contemporânea, e sentir que
tem tão pouco a dizer como homem. Ao princípio, qualquer um
acreditaria que está sendo deliberadamente cínico. Ou que trata
de provocar espanto. Ou que lhe interessa tão pouco dar uma
entrevista que na realidade está apressado. Mas não. É verdade
que a vida lhe parece um castigo inútil, é verdade que pensa -
por exemplo - que os negros são uma raça inferior, e, na
realidade, as entrevistas lhe agradam porque talvez rompam, por um
momento, sua solidão.
Somente
ao final e com muito pudor deixou sair o ser humano, entreabrindo
um pouco as páginas empoeiradas desse livro-vida em que se
confundiu sua residência nesta terra. E apareceu então um patético
velho-menino, indefeso e genial, a quem se deseja compreender,
querer, acompanhar.
Personalidade
única, a de Borges. Alheio a todas as regras, mesmo as do sentido
comum. Sobretudo as do sentido comum. Imprevisível e incompreensível.
De onde tira o que escreve, se não vive?
Diz
ele que dos livros. De outros livros. Da literatura inglesa, que
é sua única paixão. De uma frase, uma imagem, uma descrição.
Sabe de literatura qualquer quantidade. Deve ter lido toda a
biblioteca do mundo e sem dúvida foi uma eleição genial a de
quem o nomeou Diretor Geral de Bibliotecas, cargo que abandonou ao
retornar do exílio Perón, porque - disse - não quis colaborar
com ele. Quando já não podia ler, porque foi ficando cego,
outros começaram a ler para ele e assim seguiu devorando livros,
quanto mais antigos melhor, porque os contemporâneos não lhe
interessam. Só lhe interessa o passado.
E
o passado nos livros. Que devem ser europeus ou - no máximo -
norte-americanos, porque a América Latina não produziu nada que
realmente valha a pena para Borges. Poderia ser apagada e não
aconteceria nada, diz. Dos escritores argentinos, talvez Bioy
Casares e Chirinos Campos.
Dos chilenos, Huidobro
lhe parece francamente mal e dos dois prêmios Nobel pensa que foi
mais uma questão geográfica. De La
Mistral,
melhor nem falar, e de Neruda, somente da poesia política porque
- afirma - o comunismo influiu beneficamente em sua poesia.
Próximo
do fim de sua vida, insiste que sua obra não vale grande coisa,
principalmente porque lhe faltou vida. Mas quando lemos seus
livros, seus contos incríveis, suas observações tão extraordinárias,
não podemos deixar de duvidar desta não
vida. E de indagar se na realidade não viveu ou se somente
dissimulou a vida. Se essa mescla de burguês latino-americano e
fidalgo britânico acaso não lhe impediu de reconhecer-se a si
mesmo como um homem normal igual a todos. Mas, de qualquer
maneira, teve que viver, amar, sofrer. E reproduzir depois -
genialmente - suas subterrâneas experiências.
Custa
entrar em sua vida privada e resulta duro escarvar em sua solidão,
em sua falta de amor, no porque de haver casado tarde e fracassado
tão de imediato, mas justo então aparece sua melhor veia, a do
humor um pouco cínico, do homem que apesar de tudo não se leva
muito a sério.
Vive
no centro de Buenos Aires e praticamente não sai do apartamento
que, até o momento da entrevista, compartilha com sua mãe, que
tinha 99 anos e morreu dias depois. Um apartamento sem calor de
lar, com móveis e quadros que foram ali colocados alguma vez e
que ninguém voltou a vê-los nunca. Cheiro de benjoim, como ele
chama o incenso; livros em inglês, a Enciclopédia
Britânica, alguns objetos
de prata, fotografias antigas, estatuetas chinesas, uma lâmpada
de lágrimas, cortinas nas janelas, cobertas nas poltronas. Claro
que ele é cego e não vê, mas talvez tampouco tenha visto.
Sente-se o frio na alma.
Com
dificuldade, senta-se e se dispõe a conversar, educadamente.
Explico que trabalho para uma revista chilena. Concorda. E
comenta:
JLB
- Como não leio revistas, tampouco leio jornais. Não li um
jornal em minha vida. Não são recomendáveis. São notícias,
digamos, efêmeras, feitas às pressas.
MS
- Não
lhe interessa saber o que está se passando no mundo?
JLB
- Em geral, sim, mas não o que se passou hoje ou ontem,
especialmente. Isso se sabe depois. Geralmente os fatos
importantes são importantes muito depois. Quando ocorrem não se
sabe que são importantes. Eu pensava na crucificação, por
exemplo. Que foi um fato importante. Isso, sem dúvida, não teria
figurado em nenhum jornal. A execução de um criminoso ao lado de
outro… Teria sido dado um grande espaço, por exemplo, ao fato
de que César foi de Roma à Grécia, a Nápoles. Assim, os
jornais estão cheios de coisas totalmente frívolas, como as
viagens dos Presidentes…
MS
- Mas
você escreve…
JLB
- É certo… Escrevo porque se não o faço me sinto infeliz. Não
é que eu creia que o que escrevo seja bom. Quando me dizem que
sou um grande escritor, parece que cometem um erro, não? Quando
estive em Estocolmo com uma jornalista, nas vésperas do Prêmio
Nobel, em que eu era um dos candidatos, disse a mim mesmo o que
pensava disso. Disse: “Bem, se me dão o Prêmio Nobel vou
agradecer muito, claro, e vou aceitá-lo, mas creio que seria um
grave erro se o fizessem, porque eu não mereço.”
MS
- É
verdade que pensa isto? Verdadeiramente?
JLB
- Sim. Penso isto. Se penso que o deram a Shaw, por exemplo, a
Bertrand Russel, por que dariam a mim? Me parece quase cômico o
contraste.
[É
a primeira vez que menciona Shaw, mas não a última, no curso da
entrevista. É um de seus ídolos e não o oculta.]
MS
- E
do que escreve, do que é que mais gosta?
JLB
- Bem, creio que ao final de cinqüenta anos de atividade literária
- acabam de sair minhas obras completas em um volume, embora ali não
se tenha incluído o Libro
de arena, publicado por esses dias -, creio que não me
desonram todas essas páginas. Creio que estão feitas por uma
pessoa que conhece o ofício e que tem o sentido das palavras,
algum sentido literário.
MS
- Sentido
literário e algo a dizer, também…
JLB
- Sim, suponho, mas tantas outras pessoas podem dizê-lo melhor do
que eu.
MS
- O
que é que lhe interessa dizer?
JLB
- Em cada caso é uma coisa distinta, que provavelmente não tenha
nenhuma importância, mas que tinha que fazê-lo. Porque nunca
busquei temas em minha vida. Nunca os propus a mim. Por exemplo,
acho ridículas essas pessoas que viajam para um país para
escrever sobre ele. Uma amiga minha publicou um livro sobre a Pérsia
depois de uma viagem, mas se tivesse lido a história da
literatura persa ou a história persa saberia muito mais sobre a Pérsia
do que depois de visitar durante um mês os hotéis da cidade.
Contato humano? Com garçons, com hoteleiros?
MS
- E
de onde lhe vem a inspiração?
JLB
- Não sei. Vem de todos os livros que li, de conversas casuais,
de pessoas que conheço, de coisas que ouço. E, sem dúvida, sou
devedor de todos os escritores que li e de muitos outros que não
li e que me chegaram através de outros. E da própria linguagem,
que é uma tradição. Porque tudo o que um indivíduo pode ser é
mínimo. Isso me indagaram muitas vezes, até onde podemos inovar?
Creio que muito pouco. Seja como for, o fato é que a literatura
é distinta. Com sensibilidades distintas.
[Embala-se
em uma longa descrição do Quixote e depois em uma espécie de
estudo comparativo da literatura que se produziu na Inglaterra
entre a conquista germânica, em meados do século V, e a invasão
normanda. Sobre o sentido da paisagem, das cores, do lugar dos
fatos.]
MS
- Mas
você, como escritor, o que quer dizer ao homem contemporâneo?
JLB
- É igual. Bem, claro, não mudaram tanto as coisas. Quando
penso… minha vida…, uma vida sedentária. E penso em meu avô
Borges, que morreu em um combate na Guerra Civil e guerreou conta
os índios araucanos, poderia dizer que eram mais violentas antes.
Agora estamos em um período de violência, mas uma violência
mais do tipo policial do que outra coisa. Muitos dos crimes que se
cometem diariamente em Buenos Aires - sejam da direita ou da
esquerda -, creio que são cometidos por mercenários. Não creio
que haja paixão nem vejo as pessoas arriscarem-se…
MS
- Mas para você, hoje, o
que interessa escrever? Porque em seus últimos contos, como em El
Congreso,
sobretudo, há um profundo sentido trágico da vida.
JLB
- Sim. Isto é certo. No entanto, não, porque ao final termina
com uma espécie de arrebatamento místico. Esse conto me
emocionou muito quando o escrevi. Não sei se emocionará aos
outros…
MS
- Qual
é para você o sentido do que escreve? O sentido da vida. Em seus
livros há muito de um não sentido…
JLB
- Sim. Pode ser. É muito possível. Mas atualmente, claro, estou
em uma situação bastante triste porque, 76 anos, uma crescente
cegueira, que dizem os médicos ser irreparável, e que será
total. Minha mãe, que está desejando morrer, que todas as noites
pede a Deus que a leve e que pela manhã chora ao ver que não
morreu durante a noite. Que sofre dores físicas e que está
morrendo aqui ao lado. Minha pátria, bem, em um estado anárquico.
Se isso ocorresse somente na República Argentina, bem, é um país
que não é muito importante, em um continente tampouco muito
importante, América do Sul. Mas é o mundo inteiro que anda mal.
MS
- Você
acredita que a América do Sul não seja um continente importante?
JLB
- Não. Não produziu quase nada. Poderia ser apagada da história
e quase não se notaria. A América do Norte, sim. Produziu Poe,
Whitman. Mas a América Latina…, quase ninguém. Talvez seja
porque a herança espanhola não é demasiado boa. E a herança
católica, que eu creio que é inferior à protestante.
MS
- A
América Latina tem grandes escritores: Cortázar,
Mistral, você mesmo…
JLB
- Mas não vão passar para a história. O que seria da literatura
atual sem Whitman ou sem Poe? Ao contrário, o que temos nós:
Vicente Huidobro, por exemplo, me parece francamente mal. Isso não
se leva a sério. Não se pode comparar a Bertrand Russel.
MS
- Dos
argentinos, qual lhe agrada mais?
JLB
- Bioy Casares é muito bom. Creio que Chirinos Campos.
Aos contemporâneos conheço muito pouco. Li algo de Sábato.
Sim. É um bom escritor. Mas um pouco grandiloqüente. Um estilo
assim como voluntariamente descuidado. Mas é muito inteligente.
Muito inteligente e muito amargurado. Mallea é muito bom.
MS
- Qual
sua opinião sobre os dois Nobel chilenos?
JLB
- Creio que foi mais uma questão geográfica. Havia que se
premiar a um latino-americano… Claro que Neruda é muito
superior a Mistral, claro! Pessoalmente não o conheci. E eu sou
anticomunista. Mas creio que o comunismo influiu beneficamente em
Neruda. Foi um bom estímulo para ele. Os poemas sentimentais são
maus. Os Vinte poemas de
amor e uma canção desesperada me parecem pueris. Ao contrário,
o poema a Stalingrado é lindo. Todo o mundo diz o contrário de
mim, mas creio que é um erro.
MS
- Sente-se
um escritor argentino? Tem raízes aqui?
JLB
- Sim. Sinto-me identificado com meus amigos. Sinto-me muito
argentino. Produzimos um escritor genial, que era Sarmiento. Isso
é indubitável. Mas era importante para nós e não para o mundo.
Falava do gaucho, por
exemplo, e o achava inferior. E tinha razão.
MS
- Você
também crê que são inferiores?
JLB
- Mas é claro! São uns brutos. Qualquer pessoa sabe. Se não se
deixa influenciar pela literatura gauchesca sabe que a palavra gaucho
eqüivale a dizer que alguém é um bruto. Além do mais, essa
literatura foi feita por homens de cidade, porque os gauchos
não escreveram uma linha.
MS
- Mas
sabem escrever?
JLB
- Não. Não sabem. A nação argentina, que chegou a ser um país
importante, ainda que agora não o seja, é a obra de uns quantos
homens que estão muito influenciados pela Europa e pelos Estados
Unidos também.
MS
- E
para onde acredita você que caminhe agora a América Latina, e a
Argentina em especial?
JLB
- Bem, a América Latina não existe. É uma ficção. Ninguém se
sente latino-americano. Quanto à Argentina, creio que um dos
males deste país é pensar que a política possa melhorar muito.
Creio que se cada indivíduo tratasse de melhorar a si mesmo, ética
e intelectualmente, seria melhor. Porque não nos vamos salvar
pela força de comitês, revoluções ou de mudanças de estados.
[Alega
contra os políticos que, segundo ele, não podem ser gente muito
boa, a partir do momento que se dedicam a que os fotografem ou a
ficar bem com milhares de eleitores. Recorda Lincoln, e aponta a
sua inconseqüência sobre o problema da escravidão, já que -
segundo ele - no Norte dizia uma coisa e no Sul dizia outra.
E
assim - conversando de tudo e de nada -, de repente chega ao tema
das raças e com toda naturalidade diz coisas que a ninguém
ocorreria jamais dizer, mesmo que as pensasse, e que pouca gente
hoje em dia poderia sustentar. Como que os negros são uma raça
inferior.]
MS
- Você
acredita realmente que há raças inferiores?
JLB
- Mas claro! Não cabe nenhuma dúvida! A raça negra é inferior,
basta olhar para eles. Além do mais, não fizeram nada. Vamos
supor que não haja negros; a história não muda por isso. Além
do mais, a prova está em que eles chegaram a ser escravos e não
se deu o contrário. Por exemplo, os negros do Congo não
conquistaram a Europa, nem impuseram seus ídolos. É uma raça de
gente imitativa. Veja que agora os negros estão com o
nacionalismo, ou seja, são mais ou menos hitleristas. Ainda crêem
que isso é importante. Estive em um congresso de “negritude”.
Havia um negro inglês que disse: “não creio que as raças
sejam importantes”. E eu disse: “Também não creio que o
sejam. O importante são os indivíduos, que são concretos.”
Pessoalmente,
os negros me desagradam. Você disse que têm valores… Bom. A música
negra que me parece boa são somente os spirituals
e os blues, que foram feitas graças ao contato com os brancos, pela
influência da religião, pelo hábito de cantar hinos. Mas a música
da África, não.
[Quando
o ouvimos assim, disparatando, não se pode senão sentir certa
rejeição. E pensar em como um homem que escreveu o que ele
escreveu possa ter esse tipo de opiniões. E que se segue
escutando-o tão-somente por ser Borges. Mas quando sai,
finalmente, o lado humano e nos encontramos com o homem e nada
mais, quando se intui a profunda tristeza deste velho-criança, só
nos resta compaixão.
Com
essa imobilidade dos cegos, está sentado em uma poltrona
revestida, ao lado de uma estante cheia dos livros de seus amores.
Aceitando conversar - bem ou mal - com uma jornalista que não
conhece. Respondendo perguntas cujo mais provável é que não lhe
interesse responder e - por momentos - mostrando sua alma a tanta
gente que depois vai ler a entrevista.]
MS
- Qual
acredita que seja o destino dos seres humanos?
JLB
- Não sei. Sei que meu destino é tratar de ser um homem justo. E
escrever. Isso não quer dizer que goste do que escrevo. Mas sei
que sou inapto para qualquer outra coisa. Escrevo porque não
posso fazer nada mais. Sobretudo agora. Desde o ano de 1955 que
estou cego. Que outra coisa posso fazer? Quando criança queria
ser militar, como meus avôs, mas minha vista deficiente me
impediu de tudo isso. Claro que talvez fosse somente um desejo romântico…
MS
- Você
diz que é ateu. Como é ser ateu?
JLB
- Ser ateu nos dá uma força que as pessoas religiosas não
possuem. Porque vivem em um estado de ansiedade, vivem com o temor
acerca de qual será seu destino depois da morte. Mesmo gente
muito inteligente, como Unamuno, vivia com esse problema. Ao contrário,
os ateus pensam: “bem…, o que ocorre não é demasiado
importante…, porque eu mesmo vou desaparecer dentro em pouco, e
dará no mesmo que decida uma coisa ou outra”. De maneira que o
ateísmo dá uma força que não o consegue a religião. Eis aí
minha mãe, que está morrendo. Completou 99 anos. Está paralítica.
Tem todos os males físicos. E está preocupada pensando que tudo
isto é um castigo, uma expiação, está escarvando seu passado
buscando alguma culpa que a torne merecedora de um castigo tão
atroz como estar prostrada há tanto tempo. Tem também a esperança
de encontrar-se com meu pai. E o temor, às vezes, do inferno.
MS
- Você
não crê em Deus?
JLB
- Não. Não creio que haja um ser que seja Deus?
MS
- Qual
será o sentido de estar aqui?
JLB
- Como disse Bernard Shaw, “deixei para trás o suborno do céu”.
Vejo que as pessoas religiosas não têm nenhuma força e vivem em
um mundo miserável de subornos, de missas pelos mortos. Em que
pode se beneficiar Deus ao ser celebrada uma missa em uma república
latino-americana? Ou na América do Norte? Em nada. Ridículo.
MS
- De
onde tirou você, em sua vida, a gana de viver? De escrever?
JLB
- Eu… Isto de um manancial íntimo, mas não de razões tomadas
da teologia.
MS
- Mas
alguma vez perguntou a si mesmo por que vive? Por que faz o que
faz?
JLB
- Sim. Algumas vezes me perguntei e me arrependi. Mas tenho um
sentido ético. Por exemplo, quando subiu este Governo, eu era
diretor da Biblioteca Nacional, que é um cargo importante. Pensei
que se continuava ali estava servindo a este Governo e então
renunciei.
MS
- Você
vive um mal momento…
JLB
- Sim. Mas não recomendo minha tristeza aos demais. Quando eu era
jovem também me sentia triste, queria ser Hamlet, tinha a idéia
de que convinha ficar triste. Ao contrário, agora não creio que
convenha.
MS
- E
como sai da tristeza?
JLB
- E… trabalhando. Não tenho outro remédio agora. Me propuseram
dar aulas na Colômbia, nos Estados Unidos, em New England, de
onde saíram Henry James e Poe e Melville e Emerson. Mas
atualmente, para mim, viajar não teria muito sentido. Porque,
estando cego, o que é viajar? Sobretudo agora, que é tão difícil.
Porque até 1914 o mundo era muito mais cômodo.
MS
- Em
que época teria gostado de estar?
JLB
- Não… [fica pensando,
duvidando]. Creio que nesta época, mesmo que seja má…
Claro que não gostaria de voltar a viver minha vida. Minha vida
em si tem sido bastante dolorosa. Os momentos ingratos são
maiores que os gratos. De maneira que eu… [Novamente
se detém, como se arrumasse a memória.]
MS
- Não
voltaria a viver?
JLB
- Não. E além do mais cometeria outros erros, sim, cometeria
erros também. Se me dissessem que vou morrer esta noite…, bom.
Uma vez, viajando pelos Estados Unidos, acreditei que ia morrer.
Pensei: “bom, será uma sensação desagradável, uma espécie
de enjôo, durará um segundo, e depois tudo se resolve”.
MS
- Ou
seja, a morte não é o pior. O que é para você o pior da
realidade?
JLB
- Por exemplo, querer e não ser querido. Isso é bastante duro, não?
MS
- Já
lhe aconteceu?
JLB
- Claro. A quem não aconteceu! Deixar, abandonar e ser abandonado
são os três lugares-comuns de toda vida humana. Penso em tal
mulher e trato de recordar: por que a deixei? Ou: por que ela me
deixou? E nunca estou muito seguro sobre qual das duas coisas
ocorreu.
MS
- Sabe
por que?
JLB
- Não. Porque agora já não me interessa sabê-lo.
MS
- Ocorre
o amor?
JLB
- Muitas vezes ocorre. Mas não creio que na maioria das vezes, não.
Creio naquilo que dizia Bernard Shaw, que há duas tragédias no
mundo. Uma, que é a de não
obter o que o coração deseja. Os desejos mais íntimos. E a
outra tragédia é a de obtê-los… É verdade, não?
[É
a terceira vez que lembrou Shaw e a primeira em que se riu, com
esse riso um pouco cínico de quem esconde por trás uma grande
tristeza. Sem saber como, chegamos a um terreno bastante íntimo e
que - seguramente - não está acostumado a descobri-lo. Por
momentos sinto-o incomodado, mas nele fala mais alto sua educação
de cavaleiro antigo do que sua vontade de interromper a conversa.
Sinto também um certo pudor diante deste velho que agora fala de
amor, mas me interessa tanto saber o que pensa e o que é, que
continuo.]
MS
- Você
amou muitas vezes?
JLB
- Sim, claro, como todos os homens.
MS
- Não
sei como amam todos os homens…
JLB
- Todos os homens amam muitas vezes e ao longo da vida há
mulheres únicas. Mulheres - digamos - sucessivamente únicas.
Porque não são a mesma… [ri
novamente, quase alegre].
MS
- E
o que as tornava únicas para você?
JLB
- Isso é um mistério. Isso eu não sei. Porque eu me dava conta
que não eram únicas para os demais. E, por conseguinte, não
eram realmente únicas. Porque se há uma pessoa realmente
extraordinária no mundo, impressionante que somente eu tenha dado
conta disto!
MS
- Mas
o que é que mais lhe agrada em uma mulher, afinal? O que ama em
uma mulher?
JLB
- Desde já, me parece que está a atração física, que é
importante. Depois, creio que uma mulher tem que ser uma pessoa
civilizada. Não se pode enamorar-se de uma pessoa que se ache estúpida,
ou cruel, ou snob, ou
boba. E exige certos valores, não? Valores de lealdade. E também
de inteligência. E de ironia também.
Quando
me casei - estive três anos casado -, ao final desses três anos
me dei conta que havia cometido todos os erros possíveis, que eu
não tinha nada em comum com ela nem ela comigo. Ela também o
havia descoberto e nos separamos amigavelmente.
MS
- E
quais foram esses erros?
JLB
- O erro foi casarem-se duas pessoas que não têm nada em comum.
MS
- Você
se casou próximo dos setenta anos. Antes nunca pensou em se
casar?
JLB
- Apaixonava-me por uma mulher, apaixonava-me por outra. E logo me
aconteceu isto; encontrei-me com uma mulher por quem havia estado
muito apaixonado quando jovem. Então confundi a alegria que isso
me produziu, o desejo de voltar a viver esse amor com essa mulher
em particular. E ela cometeu o mesmo erro que eu. Porque os dois
pensamos que havíamos anulado o tempo, que havíamos regressado
à nossa juventude e nos casamos tardiamente, para depois
descobrir que não tínhamos nada em comum.
Mas
eu não tenho nada a lhe reprovar. Possivelmente ela pode me fazer
muitas reprovações. Mas também é um absurdo que eu me ponha a
pensar em minhas culpas. É como pensar nos méritos que se tem. Não
há que preocupar-se muito. Claro, é melhor não ter que
arrepender-se de demasiadas coisas, mas viver entre
arrependimentos me parece uma forma de estupidez. Não sei o que
você pensa…
MS
- Sim.
Não serve. Salvo talvez para o futuro…
JLB
- Talvez sim. Só que eu já não tenho futuro. Aos 76 anos…
MS
- O
que lhe interessa fazer, de agora em diante?
JLB
- Agora me interessa concluir alguns trabalhos que comecei… Um
estudo sobre Swedenborg…
E encontrar uma pessoa…, que seria o essencial… Mas para mim
é demasiado tarde…
MS
- Sente
muito a solidão?
JLB
- Sim. E olhe que as pessoas são muito boas comigo e tenho
excelentes amigos. Mas às vezes penso: e se ocorresse um milagre
e entrasse uma pessoa? Ou - melhor ainda - se retornasse uma
pessoa? Isso já seria muito importante. E, ao mesmo tempo, creio
que estou louco, sei que um velho cego não tem direito a essas
esperanças.
Não
sei o que dizer, estou confuso.
MS
- Creio
que qualquer ser humano tem direito a viver…
JLB
- Sim. Sim. Tem direito. Mas seria melhor que não esperasse muito
da vida.
MS
- A
que se deve, segundo acredita, não haver encontrado uma mulher
com a qual teria feito um largo trecho do caminho?
JLB
- Sim. Sem dúvida que sou o culpado.
MS
- Pouco
importa quem seja o culpado. Mas qual é a culpa, a que se deve?
JLB
- Ao fato de que durante um tempo estive entregue à vida literária
da pior maneira. Concorria a feiras literárias, tomava parte de
polêmicas literárias, o que não me ocorreria fazer agora. Agora
que sou - digamos - relativamente famoso. Mas, como dizia Paul
Lusak,
ser célebre na América do Sul não é deixar de ser
desconhecido. Enfim, dediquei muito de meu tempo a isso. Ao contrário,
agora não.
MS
- O
fato é que, por dedicar-se à vida literária, deixou as
mulheres…
JLB
- Não. Não. Não as deixei. Essa pode ser uma das causas. Creio
que tenho um defeito. Me apaixonava com muita violência, ao mesmo
tempo que muito brevemente. Estive muito apaixonado, em espaços
relativamente breves de tempo, de distintas mulheres sucessivas.
Teria sido melhor com mais intensidade por uma só pessoa. Uma
relação me era interrompida pelo surgimento de outra pessoa.
[Nesse
momento chega sua secretária e a entrevista tem que terminar mais
ou menos abruptamente. Justo quando começávamos a nos tornar
amigos. Quando havíamos passado - finalmente - da literatura para
a vida. Alega um pouco que lhe peça confidências, mas
encontra-se mais relaxado do que no início. Aceita que lhe tire
todas as fotos que queira e que outra pessoa o faça comigo ao seu
lado. Diz que esse cheiro penetrante que se sente no apartamento
é benjoim, uma coisa que se usava antigamente, e que para mim é
simplesmente incenso. Levanta-se com dificuldade e vai me deixar
na porta, às tontas, perguntando por seus amigos chilenos, por
María Luisa Bombal, a quem muito admira, e finalmente fica
sozinho, ali dentro, para ditar talvez outro desses contos geniais
que o converteram no escritor mais importante da América Latina.
Mesmo que este seja um continente sem importância. E que talvez
lhe tragam logo o Prêmio Nobel, que o consagrará definitivamente
como grande escritor do mundo inteiro. Mas que nem por isto deixará
de ser um homem só, triste e sem amor.]
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